Santo Alberico Crescitelli

Santo Alberico Crescitelli

É a noite de 17 de agosto de 1888 e outra cansativa jornada está chegando ao fim. Os tripulantes chineses estão exaustos e, com eles, os padres Alberico Crescitelli e Vincenzo Colli. É que, desde 30 de maio, o barco vem subindo o rio Han, de Hankou a Xiaozhai. Da popa, provêm vozes dos chineses que, cansados, fumam ópio ou tabaco e jogam cartas. Depois de 132 dias de navio, de Marselha a Xangai, também esta segunda viagem é extenuante… Alberico não consegue pregar olho. Escreve: “O Senhor nos assistiu hoje também. Em certos pontos, a corrente era tão forte que exigia muita perícia do timoneiro e a força de uns cinquenta homens para puxar o barco. E hoje, mais de uma vez, os passageiros tiveram que descer para costear a pé o rio, nos pontos mais perigosos”.

Alegrias e preocupações

Gritos despertam os missionários de mais uma noite mal dormida. É o dia 18 de agosto e uma multidão se comprime no atracadouro de Xiaozhai. Coirmãos os esperam também. Após dez dias de descanso, os recém-chegados iniciam “o torturante estudo do chinês” em Hanzhong. Nove meses depois, é confiado a Alberico o distrito de Sijiayimg, entre vales e colinas que cercam o rio Han: mil cristãos espalham-se em sete aldeias.

Os Boxer

Em 1898, explode na China a luta anti-estrangeiros, promovida por entidades ultranacionalistas, entre as quais a temível sociedade dos Boxer. Tais sociedades criam centros de treinamento, destroem ferrovias e derrubam postes de telégrafo, símbolos da ingerência estrangeira, porque a modernidade ocidental havia invadido o grande país sem respeitar as milenares culturas locais. Os cristãos e os missionários estrangeiros são erroneamente considerados lacaios das potências ocidentais e cúmplices de sua política de domínio e, por isso, são perseguidos.

Em 1900, Alberico é transferido ao distrito de Ningqiang. Um lugar selvagem, entre montes sulcados por torrentes e vales estreitos, onde vivem os descendentes de condenados a trabalhos forçados e ao exílio. Alberico escreve: “Quem sabe como irão as coisas! Seja como for, a vida e a morte estão nas mãos de Deus: não cai uma folha que Ele não queira. Não se preocupem, estou nas mãos de Deus e estou contente. O anjo da guarda cuida de mim. Um enorme trabalho me espera. É melhor do que ficar entediado, por falta de trabalho”.

Martírio

Ao longo da estrada, sucedem-se ruínas; casas destruídas ou destelhadas, montanhas de lixo onde crianças macilentas e mulheres de olhos encavados procuram matar a fome com restos, como “cadáveres ambulantes”. Alberico ganha a simpatia do mandarim local, que libera alimentos para os cristãos, mas, em contrapartida, sofre o ódio dos Boxer, que só pensam em vingança.

Um decreto imperial, emanado em Pequim, em cinco de julho de 1900, traz duas medidas extremas: pena de morte aos chineses que não renunciem à “religião ocidental” e retorno imediato dos missionários europeus a seus países de origem. O vice-rei de Shaanxi não publica o decreto, mas os inimigos do padre tomam conhecimento do mesmo e decidem se vingar. Alertado pelos catecúmenos, Alberico decide permanecer junto deles em Tsinkanping, a meio quilômetro de Yanzibian.

Em 20 de julho, a guarda territorial de Talahuo saqueia a casa do catequista e Alberico, percebendo que sua presença é causa de violência, decide – com muita má vontade – deixar a missão e se colocar sob a proteção do mandarim. Recolhe os pertences em duas cestas e, a cavalo, acompanhado pelos catequistas e por alguns cristãos, toma o rumo do campo.
Mas é tarde demais. Ao anoitecer, um guarda aduaneiro, Jao, insiste para que ele fique na alfândega: “Lugar seguro, pois as estradas estão cheias de fanáticos”. O missionário cai no ardil. Quando percebe, tenta sair, mas a casa está cercada. Jao lhe confessa que não pode defendê-lo e o empurra a uma porta que dá para os fundos, frente a uma montanha intransponível. Alberico sai. Ajoelha-se e reza. É ferido a tiros, bastões e facadas. Um catecúmeno é obrigado a carregá-lo nos ombros até o mercado de Yanzibian, onde é seviciado de inúmeras formas durante a noite, enquanto os carrascos se embriagam.
Na manhã seguinte, um grupo de soldados tenta acalmar os torturadores, mas não consegue. O agonizante é arrastado até à beira de um rio onde é decapitado a serrote. O corpo é esquartejado e jogado nas águas. Em seguida, onze testemunhas cristãs têm o mesmo destino. 

Em 1951, Pio Xii declara-o Bem-aventurado. É canonizado por João Paulo II, em 1° de outubro de 2000.