Pe. Cesare Mencattini

Pe. Cesare Mencattini

“Nestes últimos meses, quase diariamente a gente vê aldeias em chamas e ouve o pipocar da fuzilaria, interrompido pelo crepitar das metralhadoras. São, quem sabe, salteadores apossando-se de uma aldeia, ou comunistas que brigam com soldados do novo governo. Antes do escurecer, ouviremos o estrondo do canhão, com o qual os invasores japoneses, lá de longe e por um momento, colocarão em fuga toda aquela soldadesca. Apesar de tanta loucura, consegui construir uma pequena capela. É um luxo para esta aldeia, onde não existe casa mais bonita”.

A última carta do padre Cesare Mencattini descreve o clima de Huaxian, na China, onde trabalhava há quatro anos, sem “passar um dia em paz. Sempre em guerra”.

“Vocês me aceitam?”

No dia 17 de setembro de 1927, o jovem Cesare, 17 anos, toca a campainha do seminário do Pime em Agazzi, Itália: “Quero ser missionário. Vocês me aceitam?”. Revela-se um estudante aplicado, um amigo de confiança e grande amante das silenciosas montanhas da região.  Em setembro de 1934 Cesare é ordenado padre. imediatamente, torna-se missionário na terra de origem, Bibbiena, pregando retiros, visitando doentes no hospital local e realizando encontros missionários. Em agosto do ano seguinte, é destinado à missão na China, para onde vai a maioria dos novos missionários do Pime. Despede-se da família com um “até nunca mais, a não ser no céu”.

A nova pátria

Em 10 de setembro padre Cesare chega a Xangai, na China: “Estou imensamente feliz por estar aqui e porque dei a Deus uma prova que o amo de verdade, tendo-lhe feito o sacrifício das pessoas e das coisas mais queridas… Estou na minha pátria de adoção. Agradeço a Deus, que me colocou entre os chineses. Agora, é preciso me aclimatar e morrer ao próprio modo de vida, para adotar um novo”.

“Estou absolutamente feliz”

Em julho de 1936, do vasto distrito de Huaxian onde fora coadjuvar outro missionário do Pime, escreve ao irmão: “Garanto-lhe que estou absolutamente feliz. Deixei meus entes queridos, para que meu afeto seja direcionado a Deus e a tantos pobres, que me são queridíssimos, ao tê-los regenerado com o batismo. Estou contente de deixar minha ciência, adquirida com tanta fadiga, para me tornar ignorante e expor, com palavras mais simples, com comparações mais rudes, numa linguagem não minha, as belezas da nossa religião. Contente por renunciar à grandiosidade litúrgica dos nossos países católicos, para celebrar a santa Missa e administrar os sacramentos na forma mais pobre…”.
Monta sua “sede” em Baliying, de onde sai de bicicleta, na manhã de toda segunda-feira, para as aldeias cristãs, e
de onde volta somente no final do sábado para passar o domingo em casa. Justamente quando começa a colher os primeiros frutos de seu “plano pastoral”, explode a guerra sino-japonesa (1937-1945) e o futuro dos
missionários na China torna-se mais sombrio.

Guerra sino-japonesa

Graças ao grande desenvolvimento industrial do Japão e à motivação de sua população para formar um poderoso império nipônico sobre toda a Ásia, os seus dirigentes decidem se aproveitar de uma China politicamente desorganizada para invadi-la, em 1937, e, através dela, expandir suas fronteiras pelo continente.
O clima de crescente tensão e a proliferação de interesses nacionalistas e ideológicos antagônicos colocam em risco a vida dos missionários estrangeiros.
Em 1940, ele e seu coirmão Paolo Giusti de Lucca, doentes, são aconselhados pelo bispo a partir, mas decidem ficar. Devem percorrer os pontos mais distantes do distrito para consolar e ajudar os sinistrados, além de sepultar os mortos.

A emboscada

Na manhã de 12 de julho de 1941, dois coirmãos de padre Cesare, em moto, rebocam sua bicicleta em direção a Wheihui, onde pretendem falar com o bispo a respeito de um terreno para uma escola feminina. Perto da vila de Qimen, “soldados” do mandarim de Rencum, posicionados atrás de um muro, esperam-nos à bala. Os três são atingidos por projéteis “dum-dum”. Cesare tem o ventre dilacerado. Dá um doloroso grito e cai. Os assaltantes acabam
logo com ele a golpes de baioneta. Colocado em um caixão, ele é levado a Wheihui, onde, antes de ser sepultado, seus coirmãos e os féis lhe prestam a última saudação.