Padre Valeriano Fraccaro

Padre Valeriano Fraccaro

O relato é de um jovem missionário de apenas 26 anos, Francisco Fortini, que chegara a Hong Kong há poucos meses: “Durante a noite de 28 de setembro, nós, missionários mais jovens, saímos depois do jantar. Fui visitar alguns paroquianos e o padre Adélio Lambertoni aceitara um convite para a Festa da Lua. À mesa, padre Valeriano brincou com os coirmãos e com Chan Chekeung, o sacristão, seu velho amigo; também conversou tranquilamente com os três órfãos adotados pela paróquia. Em seguida, o sacristão foi embora. Os rapazes se retiraram ao alojamento num edifício não muito distante.
Padre Valeriano ficou sozinho. Bem, ficar sozinho é força de expressão porque, na casa, há sempre um vai-e-vem contínuo: cristãos, xintoístas e até ateus (comunistas). Na verdade, padre Valeriano é realmente amigo de todos. Também naquela noite ele recebera visitas até quase onze horas. Voltei à meia-noite e o encontrei em seu quarto. Estava estendido no chão.
Havia uma poça de sangue debaixo da cabeça e o rosto estava encoberto por uma toalha. Foi morto com machadinha de açougueiro, comum em todas as cozinhas chinesas, usada para cortar costeletas de porco”.

Tempos difíceis

Padre Valeriano chegara a Hanzhong, China, em 1937, aos 24 anos de idade, sem nada. De fato, a bagagem, despachada da Itália por navio, é-lhe entregue só depois da guerra, em 1945, quando “já não preciso mais”, conta padre Valeriano, lembrando os anos de guerra, quando Hanzhong era constantemente bombardeada pelo Japão. Quando os japoneses ocuparam a região, foi colocado em campo de concentração. Mais tarde, em 1949, quando os comunistas de Mao Tsé-Tung chegaram, foi novamente preso e condenado à prisão perpétua. Por bondade do juiz, a pena de detenção foi transformada em prisão domiciliar.
Em 1951 é expulso do país. Consegue ficar em Hong Kong, na esperança de poder voltar um dia para o continente, “a verdadeira China”.

Hong Kong

Padre Valeriano cria raízes em Hong Kong. A ilha incha, todo ano, com mais de 60 mil recém-nascidos e quase 100 mil refugiados que fogem do comunismo chinês, perseguidos por metralhadoras. Mulheres, velhos e crianças se amontoam nos galpões de periferia e lotam os barcos ou os barracos dos distritos mais periféricos.
O missionário trabalha no distrito de Cairn quando um violentíssimo tufão devasta tudo. Ele organiza o socorro, procura um abrigo de emergência para as pessoas que olham o seu barraco engolido pela lama, e salva os que moram nos barcos.
O missionário obtém de parentes italianos, pequenos industriais confeiteiros, um velho forno e açúcar: coloca-os num barraco e começa a fazer pães e doces para as crianças magras e desnutridas das aldeias.
Cristãos, budistas, maoistas ou protestantes devoram seu panetone aromatizado. Para produzi-lo, o “padre padeiro”, como é chamado, trabalha de madrugada. Outro apelido agregado é o de ‘papa João’, devido a seu “rosto sorridente, molhado de suor, que ele enxuga com um grande lenço de camponês”.

Miséria e violência: a mistura explosiva

Padre Valeriano apoia a iniciativa do seu coirmão Lambertoni de criar a “Aldeia Papa João” para oferecer uma casa sólida, em terra firme, aos “boat-people”.
Nos anos setenta, de fato, a baía se torna cada vez mais o refúgio insalubre de refugiados e de miseráveis. Com a miséria, também a delinquência se alastra. Bandos saqueiam, destroem, agridem por necessidade ou por malandragem. A violência se alastra até os distritos periféricos e atingem o “seu povo”.
Em setembro de 1974 chega a sua vez de ser mortalmente atingido.