Padre Tullio Favali

Padre Tullio Favali

Em outubro de 1978, entra no seminário teológico do Pime, em Monza, e é ordenado em junho de 1981. É destinado a uma nova missão do Pime em Papua Nova Guiné. Mas há dificuldades para se estabelecer por lá. Um ano depois, cansado de esperar, pede aos superiores uma nova destinação, “desde que seja entre pessoas comuns, em contato com camponeses e a natureza”.
É, então, destinado a Mindanao, a ilha menos evangelizada e com forte presença muçulmana e animista das Filipinas. Chega a Tulunan e ao seu encontro acorre o padre Peter Geremia, missionário ítalo-americano do Pime.

A difícil inserção

Mindanao é “marcada pela crise econômica, pela tensão entre a oposição e a classe dirigente, pelo descontentamento geral por causa do sistema opressor do ditador Marcos, pelo medo do povo devido às inspeções domiciliares pelos militares e prisões de pessoas suspeitas de pertencerem aos rebeldes ou de simpatizarem por eles; pelas prisões, deportações e muitos casos de morte depois da prisão sem processo prévio; impunidade dos militares que cumprem abusos com a proteção do governo, sem o respeito da lei civil e dos mais elementares direitos humanos.
A igreja se solidariza com todos estes casos dolorosos e levanta a voz em protesto e em defesa dos oprimidos.

Clima de terror

O terror em Tulunan começara em 1972, com a disputa pela terra. A guerra foi feroz, cruel, e dizimara a população local. Em 1980, todas as casas foram destruídas e queimadas. No período, surgiram os “Ilaga” (ratos), que tornam Tulunan a área mais perigosa da diocese de Kidapawan. inicialmente, eles defendem aldeias e terras dos cristãos contra os muçulmanos; mas, em seguida, cometem atrocidades e torturas, e, para demonstrar
coragem, até atos de canibalismo.
Tais grupos se tornam incontroláveis, quando o exército os transforma em Forças Civis integradas na defesa da população, não mais dos muçulmanos, mas da guerrilha comunista.
Uma vez que os guerrilheiros comunistas se refugiam nas montanhas ou nas florestas, os “llaga” passam a atacar os “suspeitos de comunismo”, isto é: padres, irmãs e católicos engajados, que defendem os pobres e, no passado, também os muçulmanos, quando estes eram vítimas de injustiças.

“Padres comunistas”

Em Tulunan, o clã dos irmãos Manero, ex-Ilaga, que controla a área, ameaça os “padres comunistas”. Nesse contexto, o padre Geremia se destaca pela capacidade de tornar compreensível a sua mensagem em favor dos pobres. Por isso incomoda.
No dia 11 de abril, os paramilitares, liderados pelos irmãos Manero, reúnem-se na estrada principal de La Speranza, bairro de Tulunan. São cerca de 50, armados até aos dentes. Bebem, gritam e berram à vontade. Em seguida, penduram um proclama com a lista de supostos aliados da guerrilha comunista. Na relação consta o nome do padre Geremia e de certo Rufino Robles, que passava por lá no momento. Atiram nele, que se refugia numa casa vizinha. O bando cerca a casa, berra e atira para o alto. Alguém pede ajuda na paróquia.
Padre Tullio voa de moto para lá. Entra na casa e examina o ferido. Da janela, vê um dos Manero incendiar sua moto. Sai, com os braços levantados em sinal de paz e de diálogo, convencido que será respeitado. Edilberto Manero recebe o missionário com uma gargalhada e um fuzil apontado em sua direção. Atira. Tullio cai de joelhos, Manero continua atirando. Os demais o acompanham atirando no missionário, rindo e assobiando. Cantam e dançam sobre o corpo inerte.
Ao por do sol, padre Geremia volta de uma comunidade. Não vê o coirmão. Corre à delegacia, onde consegue a companhia de dois guardas atemorizados. Meia hora depois, encontra o corpo massacrado do amigo na estrada deserta.