Padre Salvatore Carzedda

Padre Salvatore Carzedda

“Descobrir o caminho que Ele nos indica é, às vezes, difícil e enigmático. Vivemos exatamente como Abraão…
iremos para uma terra que não conhecemos. Não conhecemos nem o nome desta terra: Tailândia, África, Japão, Filipinas, Hong Kong…? Nem quero saber. Ao chegarmos lá, enviaremos um cartão postal com o endereço.”
Era o dia 19 de outubro de 1975: padre Salvatore Carzedda escrevia de Oxford ao grupo de jovens que deixara em Mascalucia, na Sicília. É forte a ligação que os une, assim como é profunda a amizade que o une a Sebastiano D’Ambra e Antimo Villano, dois coirmãos que estudam inglês com ele, antes de serem enviados em missão. Com efeito, depois da ordenação sacerdotal, ocorrida em julho de 1971, os três estão na Sicília, para reaproximarem os jovens à beleza da fé e ao ideal missionário. Não lhes falta trabalho e nem bons resultados. Entretanto, depois de três anos, pedem aos superiores que sejam enviados em missão ad Gentes.

Na missão, fnalmente

Finalmente, em janeiro de 1977, os três amigos são destinados às Filipinas. Salvatore e Sebastiano, à missão de Siocon: um distrito de Zamboanga, cidade de Mindanao, com uma extensão paroquial de 4.000 km². É alcançada só por mar, pois não há estradas. Não há energia elétrica nem telefone. O correio chega uma vez por semana.
Padre Salvatore se ocupa com a formação de catequistas e de líderes eclesiais.
Em 1979, chega padre Antimo para substituir padre Sebastiano, que inicia um trabalho mais específco entre muçulmanos. O momento é crítico e tenso. A guerrilha muçulmana luta pela independência de Mindanao.

Lições de um convívio

Os três amigos trocam pontos de vista e comunicam impressões: “Conheci muitos jovens muçulmanos que falam de luta, violência e revolução, como única solução para reivindicar seus direitos. Muitos de seus parentes foram vítimas de massacres militares ou de vinganças entre cristãos e muçulmanos. Segundo a própria cultura, tinham a obrigação de se vingarem.”
Sebastiano não se deixa intimidar, os dois missionários montam a moto e visitam as famílias dos nativos, espalhados na floresta. Na noite de nove de fevereiro de 1981, estão na pracinha da aldeia. Está escuro, de repente, umas pessoas cercam a moto e se ouve um tiro de revólver. Um rapaz que falava com Sebastiano fica estendido no chão, mas o alvo é o padre. É o começo de uma situação insustentável.
Então deixa Siocon e volta à Itália. Começa a estudar islamologia e árabe no Pontifício instituto de Estudos Árabes e de islamítica (Pisai), em Roma. Em 1983, volta a Mindanao e realiza seu sonho: funda, em Zamboanga City, um movimento de diálogo entre muçulmanos e cristãos, chamado Silsilah (corrente). Trata-se de encontros de muçulmanos e cristãos para aprofundar um caminho de fé e de fraternidade através da oração, da reflexão, da troca de idéias e de gestos de solidariedade.

Novos rumos

m 1986 é confada ao padre Salvador outra destinação: formação e animação de seminaristas em Chicago, EUA. Os três anos nos EUA passam depressa. E, em setembro de 1990, ei-lo de volta ao lado de Sebastiano, no exato momento em que Corazón Aquino, eleita presidente das Filipinas, depois de Marcos, entrega ao Silsilah o prêmio nacional pela paz.
Trabalha integralmente no setor editorial do movimento: uma revista mensal e uma coletânea de livros formativos.

Emboscada

Dia 20 de maio de 1992. Depois do sucesso do ano anterior, Salvatore e Sebastiano repropõem o curso de verão para um grupo de muçulmanos e cristãos. Os dois missionários, satisfeitos, trocam impressões e, em seguida, Salvatore volta para casa de carro. Ao chegar perto da residência do Pime, o carro é ultrapassado por uma das duas motos que o seguiam. O motociclista atinge o padre, várias vezes, com arma de fogo e foge. Quem o matou? Há quem diga que foram os fundamentalistas islâmicos; outros, que foram os militares; outros ainda, que foram pessoas ou
grupos que querem parar o caminho da paz e do diálogo entre cristãos e muçulmanos. “Onde está a verdade? – questiona-se o padre Sebastiano – Sei só de uma coisa: que é preciso ir em frente”.