Padre Pietro Manghisi

Padre Pietro Manghisi

No outono de 1921, inscreve-se na faculdade de engenharia da Universidade de Bari. No entanto, no dia da partida, muda de ideia: decide tornar-se sacerdote. Ele mesmo contaria, anos depois: “Quando padre Paolo Manna abriu o seminário de Ducenta, eu era estudante em Molfeta.
Não sei como, chegou às minhas mãos o seu folheto “Propaganda missionária”. Naquele folheto, havia um breve convite a contribuir para o mobiliário do seminário para as missões. Mandei-lhe cinco liras. Dias depois, chegou-me um cartão: ‘Obrigado pela sua oferta. Se a oferta, depois, fosse você mesmo, seria muito mais gratificante’. Para mim, aquelas palavras, aparentemente indelicadas, foram como a pequena chama que acendeu o fogo. Menos de um ano depois, eu chegava a Ducenta”.
Em seis de junho de 1925, é ordenado sacerdote em sua terra natal, Monopoli e, em 16 de outubro, zarpa de Nápoles para Kengtung, na Birmânia (hoje Myanmar), com mais 14 missionários. Depois de um ano e meio de estudo da língua, é destinado a Mong Ping, ponto de partida para vilarejos espalhados nas florestas e nos montes.

Vida difícil

Com paciência e amor, pouco a pouco, padre Pietro conquista a estima da população lahu da região. Sobre os montes há tribos nunca alcançadas por ninguém, os Wa, cortadores de cabeças. Desde que cortaram as cabeças de alguns oficiais ingleses que se aventuraram naquela região, também para os missionários tornou-se proibido ultrapassar o limite perigoso. Entretanto, padre Pietro os tem como “vizinhos” e espera um dia poder conhecê-los, ajudá-los e
evangelizá-los. Finalmente, em 1937 as autoridades inglesas lhe concedem a permissão para abrir um novo distrito entre os Wa. Assim, ele se estabelece em Mangphan, a capital do distrito Wa, um grande povoado budista a mais de mil metros de altitude.
Aloja-se sob uma cabana de palha, entre os vendedores de sal e espera. Fala com quem encontra, distribui remédios, cura doentes, recolhe crianças abandonadas… Com o tempo, os cortadores de cabeça se afeiçoam a ele, ajudam-no a construir uma casa, dispensário, orfanato e, mais tarde, até uma capela de bambu!

A guerra

Em 21 de junho de 1940 a Itália declarara guerra à Inglaterra e os missionários italianos que vivem na Birmânia, colônia inglesa, encontram-se, repentinamente, ao lado dos inimigos. O governo inglês da Birmânia, prevendo a invasão japonesa, em 1941 decide reter os civis europeus nos campos de concentração na Índia. Também os padres italianos, na Birmânia há menos de dez anos, devem deixar suas missões. O “veterano” Pietro Manghisi pode permanecer em Lashio, mas inoperante.
Após a retirada dos ingleses, em maio de 1942, sua posição não melhora com os novos invasores, os japoneses. A Kempetai, famigerada polícia secreta japonesa, suspeita que ele seja um espião. Por cinco dias, o missionário é espancado, esbofeteado, maltratado de todas as maneiras, até ser libertado, depois de assinar um pedido de desculpas à armada japonesa e de prometer que não contaria o ocorrido.
Em 15 de abril de 1945, com a derrota dos japoneses, padre Pietro pode retornar a Lashio. Os soldados católicos americanos pedem ao missionário para que seja seu capelão.

Uma cruz na estrada

Em dezembro de 1948, padre Pietro é chamado à Itália, para ser o reitor do seminário de Ducenta. Sua permanência no seminário é brevíssima, apenas suficiente para deixar nos rapazes uma recordação viva e afetuosa. Com a independência da Birmânia, em quatro de janeiro de 1948, a situação política local piora. Pelas novas normas, podem retornar, a partir de 1949, somente os missionários que tinham obtido o visto antes de 1930.
Entre estes, na Itália, só há o padre Manghisi. Assim, ele volta à Birmânia e, em janeiro de 1950, está em Namtu, nos montes carianos.
O missionário se dedica ao tratamento dos feridos. Frequentemente, ele se encontra em pleno campo de batalha. Na manhã do dia 15 de fevereiro de 1953, celebra a Missa para os soldados, em um acampamento, e, em seguida, continua a viagem, de jipe, rumo à fronteira. Ao atravessar uma ponte, ouve-se uma rajada de metralhadora, vinda de um outeiro repleto de guerrilheiros chineses. O jipe atravessa a ponte e espatifa-se contra uma encosta.
Na estrada jaz o corpo do missionário. O crânio está traspassado por dois projéteis.
Desde 1962, naquele lugar, uma cruz branca e uma lápide de mármore lembram aos transeuntes o martírio do padre Pietro Manghisi e testemunham a sua fidelidade à vocação missionária.