Padre Emilio Teruzzi

Padre Emilio Teruzzi

Ainda não se passou um ano desde que, em oito de dezembro de 1941, o exército japonês atacara e ocupara a colônia inglesa de Hong Kong. Se, na cidade, miséria, fome e abusos se sucedem, no continente a situação é caótica. A vastidão das regiões ocupadas não permite aos japoneses o seu controle total; por isso, frequentemente, muitas áreas voltam para as mãos chinesas. Guerrilheiros, bandidos, comunistas: todos praticam rapinagem. Mortes, desavenças, vinganças são diárias. Vilas inteiras são arrasadas.
Padre Emilio está transtornado. insistira junto ao bispo para voltar a Cairn e não sabe se foi por coragem ou por inconsciência. O certo é que sentia o dever de voltar. Durante um tempo, acompanhara o bispo de Hong Kong, dom Enrico Valtorta, em atividades pastorais e assistenciais, enquanto dois padres chineses substituíam-no na paróquia. Entretanto, os substitutos foram trucidados por guerrilheiros comunistas, junto com outras oito pessoas. Ao saber disso, o missionário pediu ao bispo para retornar à paróquia. Afnal, quem melhor que ele, que conhecia o local e seus perigos, poderia ajudar aquela gente, necessitada de tudo e abandonada a si mesma?
Perplexo com a decisão firme, o bispo cedeu, recomendando: “Lembre-se que só vai para estudar a situação. Ainda não me veio a mínima ideia a respeito de Cairn. Ordeno absoluta prudência e não se exponha ao perigo da captura”.
“Farei o possível”, respondeu o missionário, consciente dos riscos. Mas como é possível, em nome da prudência, deixar de visitar as aldeias?

Sempre disponível

Corajoso, o missionário defendia os seus chineses de vexames e injustiças. Uma vez precisou da polícia inglesa (temida pelos moradores) para defendê-lo de um “mandachuva” do lugar. Em outra, entrou no covil de bandidos para tratar a libertação de um refém.
Em 1937, retornou à Itália para festejar o vigésimo quinto aniversário de sacerdócio. Os superiores pediram-lhe que trabalhasse em um seminário italiano. Retornou a Hong Kong em 1938. Apesar do desejo irrefreável para
chegar rápido a Cairn, esperou a autorização do bispo, aceitando encargos provisórios na cúria e em âmbito diocesano.

Com “seus” pobres até o fim

As pernas não são ágeis como outrora; entretanto, tão logo a lama permitir, recomeçará, infatigável, a percorrer os caminhos de um tempo. Não teme os guerrilheiros. Na primeira semana, encontra-se com um piquete de soldados irregulares: “Pararam-me e fizeram perguntas. Visto que eu era uma besta sem dentes e sem garras, deixaram-me em paz. Aqui somos dispensados como bons amigos, graças a Deus… – escreve a dom Valtorta, para tranquilizá-lo -. Posso visitar tranquilamente as aldeias. Os doentes não são poucos e é preciso atenuar os abusos que sofrem. Há uma
necessidade extrema de um missionário permanente por aqui”.

Em Roma, a Congregação para a Evangelização dos Povos (Propaganda Fide), em dois de janeiro de 1943, publica um telegrama lacônico de dom Valtorta: “Pe. Teruzzi foi assassinado, ao que parece, por bandidos chineses no distrito de Cairn”.
As primeiras notícias são lacunosas e ignoram data, local e detalhes do delito. Baseiam-se no relato, escrito em latim, provavelmente por um padre chinês, de três de dezembro de 1942: “Oito dias atrás, ou talvez antes, Han Ah Kung (o porteiro da igreja de Cairn) aconselhou o padre Teruzzi a não visitar as pequenas aldeias, porque o yiu-kit-dui (grupo de guerrilheiros) considerava-o um traidor da China. O padre, porém, respondeu que não era traidor, mas simplesmente cuidava das almas dos cristãos e, por isso, não tinha nada a temer. No mesmo dia foi visitar Taitung, Tsengtau e Wukaisa, dizendo que voltaria dois dias depois. Não voltou. Ontem à tarde um cristão da ilha, que comercia com Cairn, disse a Ah Kung que o padre fora morto. O cadáver já tinha sido encontrado e fora sepultado, mas onde, quando e como não se sabe”.
Notícias de testemunhas, vindas mais tarde, ajudam a reconstruir o que acontecera. Padre Emilio fora capturado enquanto se preparava para celebrar a Eucaristia em uma casa de cristãos. Conduzido ao mar em uma barca, lá foi morto a pedradas na cabeça, em 26 de novembro de 1942.