Padre Eliodoro Farronato

Padre Eliodoro Farronato

É dia 10 de outubro de 1926. A igreja de Santa Maria Maior de Treviso está repleta: padre Antonio (Toni) Farronato terminou de celebrar a Missa e cumprimenta amigos e parentes, pronto para partir para a Birmânia (hoje Myanmar) junto a outros companheiros.
Elio, irmão mais jovem, seguiu os seus passos e sempre participou intensamente das etapas do seu caminho, porque percebia, desde menino, que suas vidas eram chamadas para a mesma vocação. Apesar de ter só 14 anos, já tem idéias claras. E assim, dois anos depois, entra no seminário do Pime, em Monza.

Deixar tudo… valeu a pena

Elio não vê a hora de terminar o seminário para se encontrar com o irmão. Mas, em 13 de outubro de 1931 o sonho parece se dissipar: Toni, o “irmãozão”, o mais querido amigo, morre de malária na sua aldeia birmanesa, aos 30 anos de idade. Elio chora como um menino, mas tem a força de confessar aos amigos: “Eu esperava ir para ajudá-lo, mas, se Deus quiser, irei substituí-lo”. E assim, ordenado sacerdote em 22 de setembro de 1934, padre Eliodoro é destinado à Birmânia, justamente na missão do irmão. Na noite de 24 de agosto de 1935, zarpa para o Oriente.

Sem preguiça

Na Birmânia, depois de estudar a língua shan, chega, em abril de 1936, em Mongyong, onde os habitantes o esperam. inicia a sua atividade pastoral. A ele, alto, com músculos de aço e costas maciças, de caráter volitivo como os camponeses da sua terra, é designado o distrito de Mongtsat, o mais afastado e difícil, na Birmânia oriental, distante de Kengtung uma semana de viagem a cavalo.
Chegado à região inóspita, improvisa-se como pedreiro, cozinheiro, horticultor e alfaiate. Constrói igrejas, orfanatos, creches e escolas profssionais. Seus coirmãos o admiram não só porque trabalha ativamente, mas, sobretudo porque se faz respeitar e estimar por todos os shan e lahu, graças ao seu grande potencial de humanidade e de amor.

Confnamento

Em 1940, os missionários de Kengtung sentem as dolorosas repercussões da guerra, confinados em áreas de isolamento pelos ingleses. O primeiro confinamento acontece justamente onde padre Elio organiza escolas profissionais para os missionários forçados à inatividade. Depois de um ano, ele e outros missionários italianos são transferidos para Kaló e, em 1942, são confnados em Katapahar, na Índia, ao sopé do Himalaia. De lá, são levados a Deoli, no Rajasthan. Em 1943, enfm, fcam enclausurados no campo geral em Dhera Dun, com centenas de missionários. Padre Elio é o número 18.522.

Uma “doce fadiga”

Finalmente reconquista a liberdade em 1944. O seu maior desejo é o de voltar o mais rápido possível a Kengtung, mas os ingleses negam-lhe a permissão, porque a Birmânia ainda está sob o controle japonês.
Terminada a guerra, pode retornar a Kengtung em 1946, mas recebe um duro golpe: a missão de Mongtsat foi destruída e é preciso recomeçar do zero.

11 de dezembro

Elio se prepara para chegar a Mongyong, onde pretende celebrar o Natal com sua comunidade cristã. Atravessa vales e montes infestados de bandidos até avistar, finalmente, Mongyong. Tem o coração na garganta. Parece reconhecer a sua casa e, distante apenas 30 metros, separada por uma valeta, o túmulo do irmão. Faltam apenas dez quilômetros ou, no máximo, dois dias de caminhada. Ao retomar o caminho, é surpreendido por guerrilheiros. Sem reagir, é amarrado e conduzido por aproximadamente 800 metros para o interior da floresta. O dia é 11 de dezembro de 1955.
Na noite do dia 14, seu corpo é encontrado, sepultado à flor da terra, sob algumas pedras, na beira de um córrego. O cadáver apresenta três feridas de arma de fogo no peito e uma na nuca. Os braços e o pescoço mostram sinais de fortes ataduras. Ninguém sabe por que ele foi morto, nem por quem.
O corpo de Eliodoro foi colocado na tumba do irmão Toni. Aquele sepulcro testemunha a fé cristã entre as aldeias perdidas da Birmânia.