Padre Carlo Osnaghi

Padre Carlo Osnaghi

O sol, enfim, escondeu-se para lá dos pântanos de Yejigang. Faz frio na noite de 1° de fevereiro de 1942. Chuvisca e sopra um forte vento do norte. inquieto, Pe. Carlo Osnaghi revira-se na esteira. Desde a adolescência, sofre de insônia. Na missão, passou numerosas noites em claro. As horas da noite são sempre mais longas, mas também as mais “frutuosas”, sobretudo para quem imerge facilmente em recordações. E padre Carlo lembra as noites transcorridas, curvado sobre cadernos amarrotados, a corrigir lições e problemas. De fato, logo que chegara a Kaifeng, em 1924, o bispo encarregara-o de ensinar latim e matemática a seminaristas. Era algo jamais pensado durante os anos de formação.

A hora da agonia

Desta vez, porém, as vozes que vêm de fora da cabana é que o preocupam. São roucas e iradas, às quais o enésimo copo de vinho de arroz infunde uma violência ainda maior. insultam-no, insultam o bispo e todos os padres que parecem não ter consideração pela vida, já que não atendem a seus pedidos de resgate. Procura não pensar nisto. Vira-se para o catequista chinês, que o olha com olhos arregalados. Padre Carlo admira profundamente o companheiro de desventura, cristão simples e corajoso, que decidiu permanecer a seu lado, quando poderia sair livremente. O catequista também não prega olhos. Sabe que, de um momento a outro, os raptores poderão decidir o destino de ambos.
Padre Carlo entende que seu superior está fazendo o possível para libertá-lo, mas também sabe que é impossível aos coirmãos reunir os 500 mil dólares pedidos para seu resgate. Os raptores começam a discutir. No meio da gritaria, padre Carlo ouve seu nome. Procura o terço nos bolsos do pijama, o mesmo que usava quando foi sequestrado, no meio da noite. Encontra-o e, com afã, começa a desfiar Ave Marias. Os olhos cansados miram o vazio.

O começo do fim

Quase vinte dias de sequestro e Carlo ainda não entende o motivo. Desta vez não há “saídas de emergência” e o rosário escorre entre os dedos, velozmente. Deve enfrentar a realidade: a dos bandidos que discutem seu destino. Um calafrio percorre seu corpo, quando o pensamento leva-o a seus coirmãos recém assassinados.
A oração de Carlo é mais tranquila. Não se ouve voz alguma. Parece que todos adormeceram, inclusive o catequista. As primeiras luzes da aurora avançam entre redemoinhos de areia fina, levantada pelo vento que sopra das margens do rio Amarelo. De repente, escancaram a porta: “De pé, rápido. Levantem-se! Hoje serão libertados!”. Esperançosos, os prisioneiros já estão de pé. Conduzidos para fora, encaminham-se escoltados. Padre Carlo se sente lépido, como se lhe tirassem um grande peso das costas. Brevemente será libertado. Mas, não muito longe do barraco param diante de um fosso com dois metros de profundidade, escavado recentemente.
A um aceno do líder dos bandidos, amarraram as mãos e os pés dos prisioneiros. O jovem Huang começou a chorar e a gritar. Com um ríspido pontapé fizeram rolar o padre Osnaghi no fosso; o segundo pontapé fez rolar o catequista, que caiu em cima do padre. Rapidamente começaram a cobrir o fosso com terra. (…) E enquanto a terra se acumulava sobre os corpos, padre Osnaghi e o catequista choravam até seu pranto se extinguir, lentamente”.