Padre Alfredo Cremonesi

Padre Alfredo Cremonesi

“Faz seis anos que estou forçado ao silêncio. A guerra tem sido longa e o desafio, extremamente árduo. Nunca
tive uma gota de óleo para tempero; não se viu mais pão; por anos nos faltou açúcar, veio-nos a faltar até o sal.
Tive que usar de tudo como roupa e tamancos como sapatos. Todos os mercados devastados e saqueados. Os meios de comunicação em mãos dos japoneses e as estradas, vigiadas e destruídas continuamente pelos aviões ingleses. Agora me sinto cansado. Mas é um cansaço que se pode vencer. Estou vivo! isto é uma grande graça, depois de ter enfrentado a morte quase todos os dias. O Senhor visivelmente tem-me protegido” (carta do padre Alfredo Cremonesi, 20/2/1946).

O incansável andarilho

Anos antes, ninguém apostaria em Alfredo. Afetado por linfatismo e com leucemia, teve que ficar acamado por longos tempos no seminário diocesano de Crema, Itália, sem chance de restabelecimento. Mas tinha certeza que sararia completamente: confiara-se à Santa Teresinha do Menino Jesus e sabia que lhe seria concedida a graça da saúde. Então, recuperado o vigor, deixa o seminário diocesano para entrar no seminário missionário.
Em 12 de outubro de 1924 é ordenado sacerdote e, exatamente um ano depois, zarpa de Gênova para Toungoo, na Birmânia. Tem só 23 anos. Durante um ano se dedica ao estudo da língua e do novo estilo de vida.
O bispo confia-lhe um distrito e lá, Donoku, um vilarejo perdido entre montanhas, torna-se o ponto de partida para muitas de suas expedições. Começa a vida de andarilho entre aldeias pagãs e católicas, tornando-se um dos mais incansáveis viajantes entre seus coirmãos.

O depoimento que comove

Após dez anos, escreve: “Minhas pobres pernas já penam demais para subir essas árduas montanhas. Quando caminho uma semana, passo por tantas doenças que, ao voltar, maravilho-me por ficar ainda de pé. E tenho somente 35 anos! É uma vergonha, não é? Ser tão fraco com esta idade. Talvez a culpa seja do clima; talvez da comida, talvez das demais
preocupações. Mas é, sobretudo, culpa de minha irremediável pobreza.
Continuo fazendo furos no cinto de minha calça e renuncio a um montão de coisas, convencendo-me que são inúteis. Somos verdadeiramente nada, nós, missionários. O nosso é o mais misterioso e maravilhoso trabalho confiado ao homem, não a fazer, mas para vivê-lo. Entrever algumas almas converter-se é o maior de todos os milagres”.
E assim continua suas “peregrinações apostólicas”, aceitando que Deus o plasme, agindo, não somente por fora, mas também no seu interior. De fato, mesmo com suas crises interiores, consegue ser sempre prestativo, feliz: irradia tanta alegria e serenidade, que as pessoas chamam-no de “o sorriso da missão”.

Cercado de ciladas

Em 1941, com a invasão dos japoneses no território birmanês, os ingleses detêm os missionários nos campos de concentração na Índia, exceto os seis anciãos que estão no lugar há mais de dez anos. Entre estes está
padre Cremonesi, que permanece em Mosò até o final da guerra.
Depois, no último mês de guerra, assim escreve padre Alfredo: “fui preso por um oficial extremamente cruel, que comandava os derradeiros pelotões japoneses que, tudo indicava, deviam ser formados por ladrões e assassinos, liberados dos cárceres para o último abate. Fiquei preso por uma noite e um dia e, depois, não sei por qual milagre, fui libertado. Então, tive que me esconder no bosque. Na ocasião, roubaram-me tudo”.

O cerco se fecha

No início de janeiro de 1947 a Birmânia já está livre da invasão japonesa e independente da Inglaterra, e o padre Alfredo pode voltar a Donoku. Com novo entusiasmo, põe-se a reconstruir o que tinha sido devastado. Ensina catecismo e língua inglesa, assiste e cuida de doentes, retoma suas atividades pastorais. Mas, logo, acontecem novas provações.
As tribos carianas, principalmente as formadas pelos protestantes batistas, rebelam-se contra o poder constituído e lançam-se numa guerra partidária. Os católicos, mantendo-se féis ao governo, são malvistos pelos rebeldes. Assim, o missionário, após uma invasão de rebeldes na aldeia de Donoku, é obrigado a abandonar seu trabalho e a refugiar-se em Toungoo.

A rajada de metralhadora

Na Páscoa de 1952, durante uma trégua entre rebeldes e governistas, padre Cremonesi ousa voltar a Donoku. Mas a paz dura pouco. É furiosa a raiva das tropas regulares contra as aldeias carianas, suspeitas de favorecer os rebeldes. E padre Alfredo está entre dois fogos.
Assim, depois de uma derrota sofrida pelo exército oficial, as tropas, durante a retirada, irrompem improvisamente na aldeia de Donoku, acusando o missionário e os habitantes de favorecerem os rebeldes. De nada servem as palavras do padre, que defende a inocência da sua gente. Cegos pela raiva, os soldados não lhe dão chance de terminar o discurso e respondem com uma rajada de metralhadora. Atingem o chefe da aldeia e, depois, o padre Cremonesi. Atingido em pleno peito, ele cai por terra. É dia 7 de fevereiro de 1953.