Bem-aventurado João B. Mazzucconi

Bem-aventurado João B. Mazzucconi

No verão de 1845, um grupo de seminaristas ouve o padre Supriès, prior de uma cartuxa de Pavia, que tinha sido missionário na Índia antes de se tornar monge, falar sobre a Ásia. Suas palavras sensibilizam os seminaristas ao revelar-lhes o desejo de ver nascer na Itália um seminário para as missões além-fronteiras. Após a volta ao seminário de São Pedro Mártir, perto de Milão, dois seminaristas, João Mazzucconi e Carlos Salério, iniciam intensa correspondência com o prior.

João começa a acalentar o sonho de “ir em frente”, sem se abrir com os colegas. Além de estar estudando o inglês, inicia o estudo do francês e do alemão. Um dia, cheio de coragem, confessa ao diretor espiritual o desejo de ser missionário nas Índias. “Estás louco? As tuas Índias estão aqui!”, é a resposta. Entretanto, a decisão fca reforçada após dez dias de exercícios espirituais, sob a direção do padre Supriès.

Um seminário missionário

No dia 25 de maio de 1850, Mazzucconi é ordenado padre. Dois meses depois, recebe uma carta de dom Ramazzoti, que o convida a participar da inauguração do novo seminário missionário, com sede na sua casa, herdada do pai. A inauguração acontece no dia 31 de julho. Naquele dia, Mazzucconi, Salério, outros três padres e dois leigos, juntos com dom Ramazzoti, iniciam a nova “aventura” e redigem as “Regras” do instituto nascente, “com missões próprias entre as populações mais abandonadas e mais bárbaras da terra”.

Enfim, partir

Sempre juntos, os padres e irmãos leigos preparam-se para partir. Oração, estudo e caridade são os treinos ao espírito missionário de sobriedade e sacrifício. Sonham com a Oceania. Sabem que o imenso continente,
perdido na infinda superfície do Pacífico, representa uma missão virgem, difícil, mas apaixonante.

Em dezembro de 1851, chega a Milão a carta do cardeal Fransoni, de Propaganda Fide, que comunica a atribuição oficial do campo de missão: a Melanésia-Micronésia! No dia 16 de março de 1852, o arcebispo de Milão entrega o crucifixo aos padres Paulo Reina (chefe da expedição), João Mazzucconi, Carlos Salério, Timoleone Raimondi, Angelo Ambrosoli e aos irmãos leigos José Corti e Luiz Tacchini.

Ao meio dia do Sábado Santo daquele ano zarpam, de Londres, em um veleiro que aporta em Sydney, Austrália, no dia 25 de julho, após três meses e meio de viagem. Depois de dois meses, os missionários embarcam na escuna francesa “Jeune Lucie” e zarpam rumo às ilhas de Woodlark e Rook. Sonham de olhos abertos ao avistar o que lhes parece ser o “paraíso terrestre”. Em Woodlark, a comitiva se divide: Salério e Raimondi permanecem na ilha com um leigo. Os demais rumam para a ilha de Rook, acompanhados por um padre marista. Aportam no dia 28 de outubro. É aí que irá viver, por dois anos e meio, o padre João.

O novo lar

Na ilha, os missionários acomodam-se em um galpão, dividido internamente por paredes de cascas de árvore. Um estrado horizontal divide-o em dois andares: em baixo, moradia e, em cima, depósito.

Em sua correspondência, Mazzucconi jamais se queixa do isolamento (apenas uma vez por ano chega de Sidney um navio com cartas, algum alimento e medicamentos), do clima constantemente úmido e quente, dos insetos. A alimentação é  paupérrima, à base de raízes de taro, do qual se tira uma farinha semelhante à da mandioca.

Os missionários fazem de tudo para ajudar os ilhéus a melhorar suas condições de vida: ensinam a preparar cal e tijolos, a trabalhar o ferro e a usar a roda; introduzem novos cultivos com sementes trazidas da Austrália (milho, laranja, tomate,  cenoura, batata e videira), mas não obtêm sucesso satisfatório com uma agricultura mais evoluída. Também não conseguem ensiná-los a cozinhar, a purificar a água do pântano, a aplicar princípios básicos de higiene. É absoluto o respeito dos nativos às próprias tradições, como absoluta é a recusa a qualquer novidade. Eles desprezam os missionários. Não compreendem a razão de sua chegada.

Dor, solidão e martírio

Extenuados pela fadiga e mal-estar, os “hóspedes” são continuamente atormentados por febres e doenças, que pioram pela falta de remédios e de alimentação adequada. Mazzucconi pega malária e se enfraquece pela escassez de comida.

No dia 20 de janeiro 1855, chega o navio com três meses de atraso. Padre Reina ordena que Mazzucconi e o catequista deixem a ilha para se restabelecer na Austrália. Em Sydney, a saúde do missionário melhora e ele zarpa, em 18 de
agosto, de volta, na escuna “Gazelle”. Na praia, nativos decidem desafogar o ódio contra os missionários. Várias canoas cercam a escuna, dois indígenas pulam na Gazelle e um deles, Aviocar, dirige-se ao missionário com a mão estendida em sinal de saudação. Improvisamente retira um machado da tanga e golpeia com violência a cabeça de Mazzucconi.

Em 19 de fevereiro de 1984, 139 anos depois do martírio, João Mazzucconi é beatifcado por João Paulo II, na basílica de São Pedro, no Vaticano.