Na Selva encontrarei de novo a Paz

O sequestro como experiência profunda de conversão espiritual. É o que Rolando del Torchio viveu durante seis meses que foi prisioneiro pelos terroristas islâmicos em Mindanau, ilha no sul das Filipinas e libertado só depois que a família dele pagou o resgate.

Rolando já foi padre missionário do PIME, ordenado pelo cardeal Carlo Maria Martini em Milão. Em meados dos anos 80 ele consegue apaixonar os jovens ao Evangelho mediante várias atividades nas periferias da cidade de Nápoles, no sul da Itália, e de São Paulo.

Nos anos 90 é destinado para as Filipinas onde se engaja a nível social, denunciando a corrupção dos políticos e a violência e exploração sobre os mais pobres e necessitados. Ele sempre teve o desejo de criar cooperativas populares para a moagem de trigo, produção de sardinhas e manga seca.

Deixa a Igreja e o Instituto, mas não Deus, em busca de um caminho diferente. Abre uma pizzaria em Dipolog, no sul de Mindanau.

Depois da experiência do sequestro, Rolando é um homem muito provado fisicamente (perdeu 40 quilos) e psicologicamente. Mas apesar disso, ele amadureceu uma nova consciência como se a experiência do sequestro tivesse alcançado a parte mais profunda da sua pessoa, escrevendo um capitulo novo na própria vida, talvez o mais importante. Um capitulo feito de longas caminhadas na selva junto com os homens armados de Abu Sayyaf, um caminho de silêncio exterior ensurdecedor, mas rico interiormente com um contínuo diálogo para com Deus.

Já no começo da prisão comecei a lembrar de alguns trechos do Evangelho. Por exemplo, as palavras do capitulo 12 de Lucas: Considerai os corvos: eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa, nem celeiro; entretanto, Deus os sustenta. Quanto mais valeis vós do que eles?; Mas qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?. Forte foi também a continua comparação com a ideia religiosa dos terroristas (por ele Deus é um e não Trino).

Quando eles gritavam Allah Akbar, eu rezava em silencio o Pai Nosso. Sentia que precisava viver aquele momento com muito amor e misericórdia. Via essas pessoas rezarem cinco vezes por dia, participarem dos encontros sobre o Alcorão, mas depois, de fato, viviam a própria fé com armas e bombas, matando e morrendo e a pergunta que surgia no meu coração era: onde há conversão em tudo isso?

Mas de qualquer forma essa experiência fez com que eu também me questionasse: e você, Rolando, tem um coração convertido?

Foi a partir daquele momento que comecei um diálogo contínuo e até uma luta com Deus. Sentia forte a Paixão de Jesus: Tirado do meu lugar e preso contra a minha vontade, interrogado, culpado por ter sido missionário e, portanto acusado de ter sido enviado para destruir o Islã. Espancado, humilhado, ridicularizado pelos terroristas assim como os soldados romanos fizeram com Jesus. Perguntavam: “Cadê o seu Deus? Ele não é então tão poderoso como Allah já que te deixa aqui, já que te abandonou, já que não cuida mais de você?”

Confesso que houve momentos que até briguei com Deus por causa disso. Eu também pensava e perguntava: porque me abandonastes? E enquanto brigava com Deus me lembrei da minha ordenação sacerdotal, em junho de 1984. Foi naqueles momentos que no meu coração surgiu silencioso o desejo do martírio.

Esse desejo de Rolando não foi à loucura de um momento. Rolando disse que a vocação “filipina” dele amadureceu depois de um evento dramático e traumático: “o assassinato do amigo padre Tullio Favalli”. A lembrança da própria promessa foi como um relâmpago na mente de Rolando: “Pensei, não há como Deus se esquecer da nossa vida. Ele sabe tudo: que tenho medo, que não quero beber do mesmo cálice do Filho, mas, ao final das contas, Ele é a única pessoa que fala comigo, que me faz pensar, que me dá paz. Por isso: Deus, nas tuas mãos eu me entrego”.

Quando percebe que a família dele possa acabar em falência por causa do resgate do sequestro dele, ele encontra mais um motivo para morrer: “estou disposto a oferecer minha vida pelos meus irmãos, sobrinhos e pelos filhos deles para que ninguém possa sofrer por minha causa. A partir daquele momento senti uma paz interior nunca experimentada”.

Rolando conta também do porque resolveu deixar o sacerdócio: “Larguei porque não conseguia mais reconhecer a autoridade moral da Igreja na minha vida, não conseguia mais ser testemunha do que por muito tempo fui. Depois que larguei o sacerdócio, por dezesseis anos não botei mais um pé na Igreja. Continuava rezando e dialogando com Deus, mas sempre com raiva, sem paz”.

Depois de dezesseis anos de inquietação, na selva, no meio dos sequestradores, Rolando sentiu de novo a presença de Deus: “Ele fez com que passasse pela paixão, que é o coração da nossa fé, agora eu te peço a ressurreição”.

Finalmente libertado. Barba grande, emagrecido, Rolando volta para a Itália. Ele fez um novo trato para com Deus: “Espero continuar a experimentar aquela paz quando estava na selva. Experimentei a paixão e o sofrimento. Ressurgir é para mim como me transfigurar em outro Rolando”.

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