P.I.M.E. - Missio

SUB REGIONAL DE CAMPINAS
Limeira 01-09.2002

OS CAMINHOS DA MISSÃO

Pe. Giorgio Paleari, PIME
Conselho Missionário Nacional (COMINA)

Notas introdutórias

- Lendo e re-lendo o material da Ata da Assembléia do Sub-Regional de Campinas realizada no dia 16/09 de 2001, percebi que havia dois enfoques básicos: a metodologia pastoral dentro da pastoral orgânica e a proposta de como assumir a proposta do Ano Missionário de 2002.

- No relatório, a um certo ponto, havia algumas questões sobre este Projeto do Ano Missionário:

  • não há necessidade de um outro projeto, já que estamos trabalhando com o SINM
  • o objetivo do projeto é para a Igreja ou para o mundo?
  • o Projeto Missionário, antes de ser aprovado pelos Bispos, deveria ter sido analisado e estudado na Assembléia.

- Junto com estas observações, há a defesa feita pelo Pe. Zotarelli que não devemos esquecer que a Igreja, em seu ser, é missionária.

- A partir destas observações, vale a pena refletir um pouco, ao redor de qautro pontos:

  1. A missão é estar a caminho
  2. A missão e a pastoral de conjunto
  3. A missão é serviço na perspectiva do Reino
  4. Alguns caminhos específicos da missão (o termo "missão")

1.º A missão é estar a caminho

A vida cristã, como caminho, é uma constante que orienta nossa vida. A categoria do caminho é enriquecedora e fundamental em toda a história da salvação.

A missão cria a identidade

A missão é caminho e é no caminho que Deus se revela. O povo de Israel, cansado de ser escravo no Egito, revitaliza-se e constrói a sua identidade. O horizonte se aproxima, os olhos se abrem, as visões mudam, tudo se transforma. A única certeza é que Ele caminha conosco.

Avançar

"Avancem para as águas mais profundas" (Lc 5,4). Deslocam-se para pescar os melhores peixes que estão mais em profundidade. Há o perigo das profundezas. Se não houver o risco não se chega a nenhum lugar. É preciso arriscar-se. Sair do lugar estagnado, da escuridão, da monotonia. É preciso dar passos, confiando somente na força de Deus. Avançar no caminho da missão, indo para as fronteiras do sofrimento humano e mais além ainda, até os confins da terra. É preciso ir para as fronteiras e passar todas as fronteiras.

Sair da própria terra

O Senhor disse a Abrão: "Sai da tua terra, da tua parentela, da casa de teu pai para a terra que eu te mostrarei" (Gn 12, 1). Não é só das coisas e das pessoas que é preciso sair, é preciso sair da própria vida. "Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna" (Jo 12,25). Ela não nos pertence. "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só, Mas, se morre, produz muito fruto" (Jo 12, 24) É preciso morrer para não perder a vida.

"Para onde Senhor?", poderíamos nos perguntar? Logo pensamos ao lugar seguro da chegada. Queremos prever todos os passos. Estabelecer programas e estratégias. Queremos domesticar o caminho dentro de trilhas bem definidas. Mais uma vez destrói-se a história e a revelação do Senhor. É dando cada passo, na provisoriedade do dia a dia que Deus se revela. "Mestre, onde moras?" De novo, a certeza de uma casa, de um endereço, da segurança. "Vinde e vede", responde o mestre. "Eu sou o caminho" (Jô 14,6). É em cada passo que é dado, sem ter tudo claro, que Deus vai se revelando. Maria, mãe de Jesus, caminhava e confiava em Deus sem ter tudo claro. Ela caminhava pela fé e não pela evidência.

O Senhor os precedia no caminho

"Quando o Faraó deixou sair o povo, Deus não o guiou pelo caminho da terra dos filisteus, embora mais curto...Deus fez o povo dar volta pela rota do deserto do mar Vermelho...O Senhor os precedia...para lhes mostrar o caminho" (Ex 13,17.18.21).

Caminhar é preciso

O povo disperso de Israel, cansado e massacrado pela escravidão do Egito, torna-se povo de Deus no caminho pelo deserto, lugar de perigo, mas também lugar de encontro com o Senhor. A promessa acompanhava o povo amedrontado, a promessa da Terra Prometida. "Eu te conduzirei ao deserto e falarei ao teu coração". "Onde está a terra prometida?" O Senhor os precedia para lhes mostrar o caminho....É trilhando o caminho que vai se chegar à terra.

Levanta-te e come! Longo é o caminho

"Elias, levanta-te e come, pois é grande o caminho que te resta" (1Rs 19,5-8).
O pão da Palavra e da Eucaristia é a fonte da missão e da vida solidária. È preciso se abastecer da Palavra e da Eucaristia para ter forças suficientes para enfrentar o caminho. É na partilha do pão que reconheceram o Senhor. No dia a dia, pessoalmente e juntos, Deus nos alimenta com a comida certa para recuperar as forças.

Jesus caminha à frente

"Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém" (Lc 19,28).
Jesus caminha junto e à frente. Nunca deixa só os seus discípulos. Ás vezes se queixa que não entendem, fica frustrado, mas nunca deixa o grupo. O itinerário é para Jerusalém, lugar da derrota e da solidariedade extrema com os despossuídos.

O caminho é o lugar da revelação do Senhor

"O próprio Jesus se aproximou e pôs-se a caminhar com eles" (Lc 24,15).
Estamos percorrendo o caminho de Emaús. Às vezes desencantadas, um pouco desanimadas, com as perspectivas encurtadas, ansiosas por não ver os horizontes...Jesus se aproxima e se põe a caminhar conosco. Os discípulos se nutrem da Palavra e da Eucaristia e voltam para Jerusalém para animar os irmãos.

É no caminho que aparece a luz

"Mas no caminho uma luz e uma voz: Saulo, Saulo, por que me persegues?" (At 9,3).
A luz que pode iluminar a nossa vida passa através do deslocamento e da transformação.

Somos pessoas do caminho

"Eram adeptos do caminho, homens e mulheres" (At 9,2).
Os primeiros discípulos começaram a ser chamados de "cristãos" em Antioquia. Antes, e por um longo período, continuavam a ser chamados as "pessoas do caminho". De fato, os primeiros cristãos estavam conscientes de haverem encontrado o verdadeiro caminho que é uma pessoa "Jesus Cristo".

O caminheiro não leva nada consigo

"Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6,33).
A busca incessante de quem se põe nos passos do Mestre é a busca incessante do Reino, sem outras exigências e compromissos. "Não vos preocupeis com a vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o corpo, quanto ao que haveis de vestir...(Mt 6,25ss). Os pais, os irmãos...e até as pessoas mais queridas estão subordinados à busca do Reino de Deus (Mt 7,21).
"Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias pelo caminho" (Lc 10,4). O caminho na pobreza leva a missionária e o missionário a trilhar as veredas com os pobres e os despossuídos.

O método é o caminho

Quando o método missionário é muito preciso e definido encobre o percurso que é cheio de surpresas e ao longo do qual Deus se revela. Deus se revela no caminho e não fora dele. O Reino deve ser buscado num longo itinerário de fé. Há um longo caminho ainda a ser percorrido. "Caminheiro não há caminho. Faz-se o caminho ao caminhar".

Atitudes do caminheiro

É no caminho que a missionária e o missionário se tornam hóspedes na casa do outro e vivem a gratuidade de serem acolhidos. É caminhando que o discípulo continua a buscar o tesouro, escondido no sulco da vida do outro. Aprende a dialogar. A misericórdia de Deus se revela através da semente semeada e o pé descalço nas trilhas dos povos e das culturas. O caminho nos torna itinerantes e mendigos de Deus. A busca é infinita e para sempre. Não há mais retorno!

2.º A missão e a pastoral de conjunto

Existe um equívoco de fundo que deve ser esclarecido. Em muitos lugares se diz que nas comunidades já existem tantas outras pastorais. Por que desenvolver mais uma pastoral missionária? Outras dúvidas se referem ao tipo de trabalho que esta pastoral deve fazer. A coisa complica ainda mais quando um sub-regional, como o de Campinas, pensa em levar adiante um "projeto de animação missionária", quando já foi assumido um Projeto de conjunto que é o SINM. São todas dúvidas que estão presentes nas observações da última Assembléia do sub Regional. Não sei como foram resolvidas e que tipo de apoio está tendo o "Projeto de Animação Missionária".

Algumas clarificações:

  • A missão e a dimensão missionária não é algo de facultativo para a Igreja. Ela é constitutiva da comunidade cristã. A Igreja é, por sua natureza, missionária. Não há comunidades que possam se eximir de aprofundar e desenvolver esta dimensão.
  • Não é também tarefa de algumas pessoas ou de alguns grupos, incluídas as Congregações Religiosas, mas é de todos, enquanto batizados. Não há Igreja sem missão, E a missão é condição para o amadurecimento cristão das comunidades.
  • Missão, portanto, é uma dimensão que perpassa todo o dinamismo da pastoral e deve sempre mais envolver todas as pastorais. Neste sentido não há liturgia, catequese, pastoral social, etc., que não possam ser imbuídas da abertura missionária.
  • Percebe-se aqui, antes de tudo, que a missão não é uma atividade a mais, mas um dinamismo de abertura que movimenta, a partir de dentro, toda a vida da Igreja. È um ardor, é um dinamismo, é uma força que não permite às pastorais e às comunidades de se fecharem sobre si mesmas. Antes, portanto, de estar no lado do agir, a missão é uma espiritualidade que indica "envio, deslocamento, caminho, abertura, encontro", até os últimos confins da terra.
  • Neste sentido, não há caminhos paralelos, mas um fervor novo de abertura para toda a ação pastoral. Os grupos missionários, onde estiverem presentes, têm a única finalidade de estimular, no sentido do ardor missionário, toda a vida da Igreja. Neste sentido, se nossa Igreja do Brasil está sendo re-vitalizada pelo Projeto SINM, a missão contribui para esta revitalização e incentiva mais ainda as comunidades a se tornarem mais dialogantes, mais anunciadoras, mais voltadas para o serviço e para a comunhão.
  • Nenhum medo, portanto, de ver sobre-posições ou paralelismos. A dimensão missionária pretende, somente, resgatar o sentido profundo da Igreja para que não se feche sobre si mesma.
  • Um dos mais fundamentais caminhos da missão da Igreja do Brasil é que, ela mesma, tem no seu ser e na sua estrutura básica a dimensão missionária. A diferença de outros países, a Igreja do Brasil reúne um Conselho Missionário Nacional em que convergem organismos, instituições e organizações intermediárias (COMIREs) para animar missionariamente a Igreja. Também as POM, organismo da Igreja Universal, é parte da articulação missionária da Igreja do Brasil.

Até aqui, pensamos de estar todos de acordo!

3.º Uma missão que tem como horizonte o Reino de Deus

Quando nas intervenções passadas emergiram algumas preocupações a respeito do objetivo do projeto missionário, alguém sublinhava que a ótica da missão não deve estar voltada para dentro da Igreja, mas aberta ao mundo. Muitos receios vêm do fato que se vê a missão como um movimento de conquista espiritual, voltada para dentro da Igreja, e não tanto um dinamismo a serviço do reino de Deus.

Aqui vale a pena refletir um pouco mais.

O esquema mental que temos sobre a missão condiciona a nossa percepção e suscita dúvidas a respeito de sua dinâmica. Talvez estejamos atrelados a uma perspectiva pré-Vaticano II. As dúvidas e as desconfianças surgem a partir do imaginário que temos sobre a questão missionária.

Por longos anos, até o Vaticano II, o modelo missionário estava quase que exclusivamente centrado na Igreja. Aqui não se julgam as consciências dos missionários, mas se quer entender o dinamismo teológico.

a) Horizontes da missão antes do Vaticano II (1962-1965)

Nesta época o projeto missiológico se fundamentava neste esquema

Expande-se quantitativamente, mas não qualitativamente. Tudo está completamente estabelecido.

Todos têm que ser trazidos para dentro da Igreja para se salvarem.

A Igreja era o centro de tudo e nela havia a totalidade da salvação (Fora da Igreja não há salvação). Expandia-se quantitativamente, mas não qualitativamente, porque os bens da salvação já eram dados uma vez por todas. O projeto missionário visava levar a salvação que se realizava através da conversão das pessoas. Era necessário trazer para dentro da Igreja. Tratava-se de um projeto eclesiocêntrico e exclusivista.

Mesmo se situando neste esquema básico, na primeira metade de 1900 mudou a finalidade da missão. Não mais simplesmente converter as pessoas, mas implantar a igreja e as comunidades cristãs (plantatio Ecclesiae). No fundo, porém, o objetivo está no interior da Igreja e em sua expansão. A fonte e o fim da missão eram situados na e a partir da Igreja.

Pode-se visualizar todo este caminho a partir de alguns termos-chave que sintetizam toda esta teologia da missão.

  • Converter
    O processo de conversão indica uma mudança radical da própria visão de mundo, dos horizontes de sentido, e das formas de comportamento. Era necessário "deixar para trás" as próprias crenças e a maneira de viver para aceitar o modelo missionário dentro dos moldes ocidentais.
    Em muitos casos se tratou de "conquista espiritual" e do "compelle entrare" a qualquer custo.
  • "trazer para dentro"
    O modelo teológico colocava a Igreja como "centro". O axioma do Concílio de Florença de 1442 elevou a dogma o "Fora da Igreja não há salvação". Mesmo que este dogma surgiu em época específica e num contexto determinado, orientou, depois, todo o caminho da missão em sentido restritivo.
    È preciso notar que houve algumas exceções emblemáticas para a aplicação deste axioma.
  • Salvar as almas
    A terminologia já indica que deve haver uma separação profunda entre a alma e o corpo. A herança de uma filosofia platônica, assimilada por Sant'Agostinho, reduziu a corporeidade e a materialidade da vida a um nada diante da consistência da alma.
    Criou-se, portanto, uma dissociação entre a parte espiritual e a parte material. Somente a alma era eterna.
    O processo através do qual se dava a salvação vinha através do batismo que devia ser dado a quem o pedia ou também compulsoriamente.
    Em nome deste princípio, aconteceram também absurdos: tolerava-se a escravidão, o tráfego escravagista e muitas outras coisas desde que fosse permitido cuidar das almas das pessoas.
  • Expandir a Igreja
    O sentido da expansão incluía alguns elementos: antes de tudo um crescimento quantitativo e não tanto qualitativo. Tudo era perfeito e estabelecido. Quem estava fora não devia acrescentar nada e não acrescentava coisa nenhuma. O outro era "tabula rasa" a ser preenchido. "Catequizava-se" no sentido de preencher um vazio que existia.
    Em segundo lugar, o avanço do cristianismo se dava não tanto em sua capacidade de servir os valores do Reino, mas impondo-se como uma instituição que era identificada com o Reino de Deus. Em alguns casos o processo se afirmou como "expandir a fé e o império". Não havia esta coisa de "respeito do outro", porque o outro não tinha nada a oferecer. O dar significava a imposição de um conteúdo já pronto e definido. A identificação da Igreja com o Reino pode ser bem caracterizada a partir de um texto da obra de T. Zapelena (De Ecclesia Christi, 1955): "Integra ecclesiologia posset ehiberi et ordinari sequenti quadrilátero: regnum dei = ecclesia Christi = ecclesia romana catholica = corpus Christi mysticum in terris".
    O modelo era uma eclesialização do mundo, sendo a plenitude do Reino a expansão da Igreja. Ainda não havia clareza e nem prioridades a respeito da missão de Deus, o Reino, a Igreja, e a globalidade de salvação.
  • Batizar para salvar
    Já foi afirmado que o processo pelo qual se alcançava a salvação era o batismo, que era como a porta de entrada. Batizava-se todo mundo sem nenhuma preocupação na evangelização. E todos, obrigatoriamente, aceitavam o batismo, mesmo não tendo suficientemente consciência do que estava acontecendo. Verificou-se uma camada superficial de informações cristãs sem atingir os núcleos mais profundos.
    Ainda hoje, o batismo é, em muitos casos, o que sobrou no direito de muita população, como porta de entrada.
  • Plantatio Ecclesiae
    A expressão "implantar a Igreja" adquiriu sua força na primeira metade do século XX, quando o empreendimento missionário teve um novo redirecionamento. Não se tratava mais de "converter", mas de "fazer surgir as comunidades cristãs" no mundo conhecido. Qual era a finalidade da missão: "Plantatio Ecclesiae", si dizia.
    O projeto, como se nota, é ainda eclesiocêntrico. E ainda, muitas vezes, se tratava da implantação do modelo ocidental. Outras vezes, sobretudo a partir do processo de descolonização, falava-se na implantação de Igrejas autóctones, com clero e com um mínimo de adaptação.

b) Novos horizontes da missão

No momento atual a reflexão e o projeto missiológico está caminhando para outras perspectivas e não está mais diretamente ligado a uma perspectiva eclesiocêntrica.
O Concílio Vaticano II assumiu o Mistério trinitário como fonte e fim da missão. Isto traz um outro objetivo da missão.

O esquema poderia ser:

O Concílio Vaticano II, com os seus variados documentos, especialmente o Ad Gentes e a Gaudium et Spes, e mais tarde com a Evangelii Nuntiandi, a Redemptoris Missio e os vários sínodos continentais, desencadeou um novo processo da missão, às vezes no sentido de continuidade e, outras vezes, de reformulações.

  • O mistério trinitário

Com a inserção da missão no Mistério Trinitário, não somente em sua origem, mas também em sua fundamentação, em sua motivação, em seu dinamismo, em sua metodologia e em sua sustentação, novas perspectivas se abrem.

"A Igreja peregrina é por sua natureza missionária. Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito santo, segundo o desígnio de Deus Pai" (AG 2). Nos n. 2, 3 e 4 do Ad Gentes, são explicados os termos das fundamentações trinitárias: desígnio do Pai, a missão do Filho e a missão do Espírito Santo.

Algumas conseqüências:

  • A Missão é de Deus (Missio Dei).
    "O conceito de 'missio Dei' foi mutuado da escolástica por Karl Barth em 1932. De lá pra cá, o conceito assumiu um leque bastante amplo de significados, às vezes contrários aos intentos de Barth. Em todo caso a idéia ajudou a expressar a convicção que a Igreja não é autora e a detentora da missão. Esta última é, antes de mais nada e fundamentalmente, obra de Deus uno e trino." Cf. BOSCH, D. La trasformazione della missione, p.538-543).
    É ele o protagonista da missão. Esta missão se revela como o plano de Deus na história humana e leva a termo o projeto do Reino.A Igreja continua o caminho missionário, mas não se substitui a Deus. Somente Ele é a fonte, o método e o fim da missão.
    A iniciativa de Deus antecipa, acompanha e leva a termo a atividade missionária.
    Os Atos dos Apóstolos põem toda a ação missionária sob a responsabilidade do Deus Trinitário.
    "Nem quem planta nem quem rega é alguma coisa, mas Deus é que faz crescer" (Mt 13, 24-30).
  • O Espírito de Deus atua na missão
    Desde a criação do mundo, o Espírito de Deus é atuante. Ajudou na criação e mantém a vida viva. Desde o começo, o Espírito age na história e nas culturas. Daí surge a atitude de escuta, respeito e silêncio, para não abafar a ação do Espírito. O Evangelista que deu destaque à inspiração do Espírito santo é Lucas. Abrir-se ao Espírito é perder todos os medos, porque a ele cabe conduzir e direcionar toda a obra missionária.
  • O olhar de Deus sobre o mundo
    Na perspectiva do mistério trinitário, aos missionários cabe assumir a visão que o mesmo Deus tem com relação à realidade e à história. Não se trata de impor um próprio modelo e as próprias convicções. "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito, e quando o conseguis, fazeis dele um filho da Geena, duas vezes pior que vós mesmos" (Mt 23,15).
    Tudo é amado por Deus. A misericórdia de Deus é anterior ao pecado do mundo. Anunciar é tornar presente esta profunda realidade que Deus nos quer bem. Êxodo 3,14: "Eu sou aquele que estou aí, convosco". Jesus é ele mesmo a misericórdia de Deus.
  • O método trinitário
    O dinamismo da missão assume como método o caminho trinitário. A união, a inter-comunicação, o diálogo, a escuta e a complementaridade são assumidos como métodos no fazer a missão. O outro, em sua diferença, é assumido no diálogo e na complementaridade. Ameaça e atração constituem-se em polaridades no processo da inter-relação.

A centralidade do Reino

O Reino é a ótica e o caminho para o qual se movimenta o caminho da missão.
O Concílio Vaticano II colocou claramente a continuidade e a separação que existe entre a Igreja e o Reino de Deus. A Igreja é "na terra, a semente e o começo do Reino (huiusque Regni in terris germen et initium constituit, LG 5).

Foi sobretudo a Encíclica Redemptoris Missio (1990), em seu segundo capítulo sobre o Reino de Deus, que trouxe mais claramente a doutrina do Reino. O Reino, preparado desde o Antigo testamento, trazido por Cristo e em Cristo e proclamado a todos os povos pela Igreja, que trabalha e reza pela sua perfeita e definitiva realização" (n.º 12).

Não se pode separar o Reino da pessoa de Jesus, como também não se pode identificar a Igreja com o Reino. Ela está no mundo a serviço do Reino já acontecendo na história e aberto ao futuro. O reino, neste sentido, é mais amplo do que a Igreja.

O caminho da missão, portanto, terá no Reino de Deus seu objetivo. Percorre as trilhas do Reino, reconhece-o nas pegadas dos povos e culturas e colabora na construção de sua plenitude. Os cristãos, portanto, abrem-se a esta perspectivas do Reino através da descoberta das sementes do Evangelho (inculturação), do serviço para a justiça (serviço-libertação), através do testemunho de vida e do anúncio explícito de Jesus.

  • A Igreja servidora da Missão

"Se a missão é fundamentalmente de Deus, e não propriamente da Igreja, esta é vista como instrumental pra tal missão. Existe a Igreja porque existe missão por parte de Deus e não vice-versa. Ela é chamada a participar do movimento do amor de Deus para com a humanidade, pois Deus é a fonte de amor que envia e se auto-envia" (RASCHIETTI, S., A dimensão universal da missão. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Assunção, 2002).

Portanto "a atividade missionária não é outra coisa, nem mais nem menos, que a manifestação ou epifania dos desígnios de Deus e a sua realização no mundo e na história" (AG 2).

Por ser missionária por sua natureza, a Igreja não envia, mas é enviada. Não representa a finalidade última, mas o instrumento para o "advento do reino de Deus e o estabelecimento da salvação de todo gênero humano" (GS 45).

A Igreja não mais é apresentada, no Concílio, como sociedade perfeita, mas como mistério da presença de Deus no mundo, como "sacramento, isto é sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo gênero humano.

As metáforas da Igreja são: sal da terra e luz do mundo (Inter Mirifica 24, LG 9, AG 36. Somente "luz do mundo" SC 9), sinal de fraternidade levantado entre as nações (SC 2/2, AG 36, GS 92), fermento da sociedade (GS 40; 44), germe do reino (LG 5; LG 9), instrumento da redenção universal (LG 1; LG 9; GS 42). Com certeza, o sentido mais pleno e histórico da Igreja é concentrado na categoria do "povo de Deus".

4.º Alguns caminhos específicos da missão

Se aquilo que falamos até agora são dados relevantes para fundamentar e nortear o sentido da missão, somos chamados agora a entender como ela está sendo levada adiante e quais caminhos está percorrendo. Cada área e lugar geográfico tem sua especificidade. Cabe a todos desvendar caminhos.

Nos projetos do Sub-Regional de Campinas, no que se refere à Animação Missionária, estão indicados estes elementos:

  • A Equipe Missionária do sub-regional tem uma representação junto à executiva do COMIRE:
  • Implantação da Infância Missionária nas diocese do sub-regional; Projeto do Ano Missionário;
    Projeto Norte1/Sul1 que passa por uma revisão.
  • Um maior entendimento por parte das comissões e pastorais sobre o projeto;
  • Aguardar respostas das pastorais e comissões.

Gostaria de refletir um pouco mais sobre tudo isso, à luz daquilo que o Conselho Missionário Nacional quer implantar. Nos últimos anos, sobretudo a partir de 1999, o COMINA está focalizando alguns eixos norteadores da missão. Diante do fato de que o termo "missão" está sendo muito usado, sentiu-se a necessidade de precisar melhor o seu conteúdo semântico. "Se tudo é missão, nada é missão". O termo, um pouco inflacionado, exige uma re-contextualização semântica. O COMINA, entre os vários âmbitos, privilegia alguns conteúdos específicos.

a) a universalidade da missão

Um dos âmbitos mais específicos da missão é a dimensão universal. O "ad gentes" e o "ad extra" marcam prioritariamente o sentido específico. Esta abertura até os confins do mundo revela o sentido primeiro da missão. O Brasil tem, atualmente (2002) 1556 missionárias e missionários além de sua próprias fronteiras e representam a ponta de lança da questão missionária. Trata-se de um âmbito muito específico e vem ao encontro do Senhor que no grande envio falou de "ir ao mundo todo para pregar o Evangelho". A pérola mais preciosa do caminho missionário é propriamente sua abertura universal até os confins do mundo. Esta abertura missionária não é, primeiramente um conseqüência da maturidade de uma comunidade cristã, mas é condição para sua maturidade. Neste sentido, as comunidades cristãs são convidadas a abrir-se para além de sua próprias fronteiras e tem uma responsabilidade com a missão universal.

b) O caráter profético e a opção pelos pobres

A missão tem sempre um caráter profético. Nasce da contemplação de Deus que tem um projeto de vida para todos (o Reino) e se abastece da indignação diante da não-vida, da miséria e exclusão. Profeta é alguém que, segundo a acepção bíblica, tem uma proximidade grande com Deus e está inserido no sulco da história. Não fala as próprias palavras, mas lhe são inspiradas por Deus, a partir dos acontecimentos da vida humana e da história.

Como Jesus, o missionário, coloca-se junto com os pobres e torna-se pobre, para revelar a solidariedade extrema com os oprimidos. Aqui nasce toda uma espiritualidade missionária, a partir da solidariedade e do abandono, para testemunhar a esperança e a vida. Os missionários mártires, como Jesus, revelam o cara´ter profético da missão e não fazem nenhuma redução ao sonho evangélico. Um dos desafios mais contundente que a missão é chamada a responder é, propriamente, o da "globalização excludente". A missão universal é crítica permanente à globalização: não exclui ninguém e se afirma nas particularidades das culturas.

c) A eclesialidade da missão

Missão não é um empreendimento individual e solitário. Tem sua raiz num Deus que, como comunhão trinitária, se debruça com misericórdia sobre as pessoas. È confiada à Igreja que, como servidora, se pões a serviço da missão. Missão é tarefa de todas as comunidades e de todo batizado. É dentro do caminho da Igreja que é continuada a ação missionária. A Igreja é comunhão e missão (Doc. 40 da CNBB).

Não existem, ou pelo menos não devem existir planos missionários, se não a partir da caminhada da Igreja. A missão se insere no projeto de SINM para revitaliza-lo e leva-lo adiante e contribui, também, para que a Igreja do Brasil se abra para a universalidade. O destaque que é dado ao livro dos Atos dos Apóstolos, como base do SINM, é aprofundado pela dimensão missionária no sentido de caracteriza-lo como base para a missão. A CF de 2002, sobre a questão indígena, é retomada pela dimensão missionária para abri-la a todos os povos indígenas do mundo.

d) O protagonismo dos leigos

A missão, antes de ser tarefa de algum grupo específico, é uma sinfonia coral de todo o povo de Deus, de uma Igreja ministerial, toda ela enviada. As Diretrizes da Ação Evangelizadora-CNBB (1999-2002) falam que é preciso incentivar a responsabilidade dos leigos para o além-fronteiras. Há um crescimento missionário dos Regionais da CNBB e das dioceses, mas faltam ainda canais para que os leigos assumam, de primeira mão, a missão além-fronteira. Há algumas dificuldades, como a preparação, o acompanhamento, a ajuda econômica, os planos de saúde...mas, mais do que isso, uma vontade política de abrir espaço maior aos leigos.
Hoje se fala sempre mais de "parceira", de "articulações" e de "alianças". A missão deve ser partilhada e não retida. Há grupos que se sentem donos da missão em vez de serem solidários. Há necessidade de novos caminhos.

e) A organização e a formação missionária

Estamos vivendo, no Brasil, um momento particular de graça. Os organismos intermediários da organização missionária, como os COMIREs - Conselhos Missionários Regionais) estão sempre mais crescendo e articulando a missão nos vários regionais. Há regionais que já estão abrindo caminhos para o além-fronteira (Piauí-Maranhão, Rio Grande do Sul, Paraná). Há outros trabalhando na perspectiva da inter-ajuda entre o Norte e o Sul (São Paulo, Rio Grande, etc). Um dos caminhos é avançar mais para organizar nas dioceses os COMIDIs, nas paróquias, os COMIPAs, sempre dentro desta perspectiva.

Quem contribuiu muito para o avanço da questão missionária no Brasil foi a organização da Infância Missionária e as missões populares. Seja a primeira, como a segunda, no entanto, devem estar mais enraizadas no contexto latino-americano e contribuir para a universalidade da missão.

A organização chama para uma articulação maior comas forças vivas da Igreja. A CRB, o Conselho Nacional dos Presbíteros, a catequese, a pastoral da juventude, as CEBs, etc., devem ser alvo prioritários de um caminho missionário de conjunto.

Junto com todo o processo organizativo, não se pode deixar de lado a "formação específica" para a missão. As dioceses, os seminários, as congregações religiosas deveriam aprimorar mais uma formação missionária específica. Cursos de missiologia estão pipocando, mas ainda são precários. I imaginário missionário está ainda se abastecendo de uma teologia pré-Vaticano II. Os fundamentos bíblicos e teológicos, os novos desafios e suas respostas, uma espiritualidade missionária específica devem ainda ser aprofundados com mais esforço. A questão do diálogo inter-religioso, o anúncio inculturado e as várias práticas de inculturação, a libertação como resposta crítica à globalização excludente...apelam para novos aprofundamentos e reflexões.

Conclusão

Após discorrer um pouco sobre esta questão missionária, com mais propriedade podemos, agora, descer ao concreto. Aqui se encontram alguns eixos e alguns horizontes a partir dos quais estamos em condições de dar melhor alguns passos.

  1. Que luzes a dimensão missionária traz para a pastoral a que pertenço?
  2. Quais iniciativas comuns no sub-regional?

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar