P.I.M.E. - Missio
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SUB REGIONAL DE CAMPINAS OS CAMINHOS DA MISSÃO Pe. Giorgio Paleari, PIME Notas introdutórias - Lendo e re-lendo o material da Ata da Assembléia do Sub-Regional de Campinas realizada no dia 16/09 de 2001, percebi que havia dois enfoques básicos: a metodologia pastoral dentro da pastoral orgânica e a proposta de como assumir a proposta do Ano Missionário de 2002. - No relatório, a um certo ponto, havia algumas questões sobre este Projeto do Ano Missionário:
- Junto com estas observações, há a defesa feita pelo Pe. Zotarelli que não devemos esquecer que a Igreja, em seu ser, é missionária. - A partir destas observações, vale a pena refletir um pouco, ao redor de qautro pontos:
1.º A missão é estar a caminho A vida cristã, como caminho, é uma constante que orienta nossa vida. A categoria do caminho é enriquecedora e fundamental em toda a história da salvação. A missão cria a identidade A missão é caminho e é no caminho que Deus se revela. O povo de Israel, cansado de ser escravo no Egito, revitaliza-se e constrói a sua identidade. O horizonte se aproxima, os olhos se abrem, as visões mudam, tudo se transforma. A única certeza é que Ele caminha conosco. Avançar "Avancem para as águas mais profundas" (Lc 5,4). Deslocam-se para pescar os melhores peixes que estão mais em profundidade. Há o perigo das profundezas. Se não houver o risco não se chega a nenhum lugar. É preciso arriscar-se. Sair do lugar estagnado, da escuridão, da monotonia. É preciso dar passos, confiando somente na força de Deus. Avançar no caminho da missão, indo para as fronteiras do sofrimento humano e mais além ainda, até os confins da terra. É preciso ir para as fronteiras e passar todas as fronteiras. Sair da própria terra O Senhor disse a Abrão: "Sai da tua terra, da tua parentela, da casa de teu pai para a terra que eu te mostrarei" (Gn 12, 1). Não é só das coisas e das pessoas que é preciso sair, é preciso sair da própria vida. "Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna" (Jo 12,25). Ela não nos pertence. "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só, Mas, se morre, produz muito fruto" (Jo 12, 24) É preciso morrer para não perder a vida. "Para onde Senhor?", poderíamos nos perguntar? Logo pensamos ao lugar seguro da chegada. Queremos prever todos os passos. Estabelecer programas e estratégias. Queremos domesticar o caminho dentro de trilhas bem definidas. Mais uma vez destrói-se a história e a revelação do Senhor. É dando cada passo, na provisoriedade do dia a dia que Deus se revela. "Mestre, onde moras?" De novo, a certeza de uma casa, de um endereço, da segurança. "Vinde e vede", responde o mestre. "Eu sou o caminho" (Jô 14,6). É em cada passo que é dado, sem ter tudo claro, que Deus vai se revelando. Maria, mãe de Jesus, caminhava e confiava em Deus sem ter tudo claro. Ela caminhava pela fé e não pela evidência. O Senhor os precedia no caminho "Quando o Faraó deixou sair o povo, Deus não o guiou pelo caminho da terra dos filisteus, embora mais curto...Deus fez o povo dar volta pela rota do deserto do mar Vermelho...O Senhor os precedia...para lhes mostrar o caminho" (Ex 13,17.18.21). Caminhar é preciso O povo disperso de Israel, cansado e massacrado pela escravidão do Egito, torna-se povo de Deus no caminho pelo deserto, lugar de perigo, mas também lugar de encontro com o Senhor. A promessa acompanhava o povo amedrontado, a promessa da Terra Prometida. "Eu te conduzirei ao deserto e falarei ao teu coração". "Onde está a terra prometida?" O Senhor os precedia para lhes mostrar o caminho....É trilhando o caminho que vai se chegar à terra. Levanta-te e come! Longo é o caminho "Elias, levanta-te e come, pois é grande o caminho que
te resta" (1Rs 19,5-8). Jesus caminha à frente "Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo
para Jerusalém" (Lc 19,28). O caminho é o lugar da revelação do Senhor "O próprio Jesus se aproximou e pôs-se a caminhar
com eles" (Lc 24,15). É no caminho que aparece a luz "Mas no caminho uma luz e uma voz: Saulo, Saulo, por que me persegues?"
(At 9,3). Somos pessoas do caminho "Eram adeptos do caminho, homens e mulheres" (At 9,2). O caminheiro não leva nada consigo "Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas
as coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6,33). O método é o caminho Quando o método missionário é muito preciso e definido encobre o percurso que é cheio de surpresas e ao longo do qual Deus se revela. Deus se revela no caminho e não fora dele. O Reino deve ser buscado num longo itinerário de fé. Há um longo caminho ainda a ser percorrido. "Caminheiro não há caminho. Faz-se o caminho ao caminhar". Atitudes do caminheiro É no caminho que a missionária e o missionário se tornam hóspedes na casa do outro e vivem a gratuidade de serem acolhidos. É caminhando que o discípulo continua a buscar o tesouro, escondido no sulco da vida do outro. Aprende a dialogar. A misericórdia de Deus se revela através da semente semeada e o pé descalço nas trilhas dos povos e das culturas. O caminho nos torna itinerantes e mendigos de Deus. A busca é infinita e para sempre. Não há mais retorno! 2.º A missão e a pastoral de conjunto Existe um equívoco de fundo que deve ser esclarecido. Em muitos lugares se diz que nas comunidades já existem tantas outras pastorais. Por que desenvolver mais uma pastoral missionária? Outras dúvidas se referem ao tipo de trabalho que esta pastoral deve fazer. A coisa complica ainda mais quando um sub-regional, como o de Campinas, pensa em levar adiante um "projeto de animação missionária", quando já foi assumido um Projeto de conjunto que é o SINM. São todas dúvidas que estão presentes nas observações da última Assembléia do sub Regional. Não sei como foram resolvidas e que tipo de apoio está tendo o "Projeto de Animação Missionária". Algumas clarificações:
Até aqui, pensamos de estar todos de acordo! 3.º Uma missão que tem como horizonte o Reino de Deus Quando nas intervenções passadas emergiram algumas preocupações a respeito do objetivo do projeto missionário, alguém sublinhava que a ótica da missão não deve estar voltada para dentro da Igreja, mas aberta ao mundo. Muitos receios vêm do fato que se vê a missão como um movimento de conquista espiritual, voltada para dentro da Igreja, e não tanto um dinamismo a serviço do reino de Deus. Aqui vale a pena refletir um pouco mais. O esquema mental que temos sobre a missão condiciona a nossa percepção e suscita dúvidas a respeito de sua dinâmica. Talvez estejamos atrelados a uma perspectiva pré-Vaticano II. As dúvidas e as desconfianças surgem a partir do imaginário que temos sobre a questão missionária. Por longos anos, até o Vaticano II, o modelo missionário estava quase que exclusivamente centrado na Igreja. Aqui não se julgam as consciências dos missionários, mas se quer entender o dinamismo teológico. a) Horizontes da missão antes do Vaticano II (1962-1965) Nesta época o projeto missiológico se fundamentava neste esquema
Expande-se quantitativamente, mas não qualitativamente. Tudo está completamente estabelecido.
Todos têm que ser trazidos para dentro da Igreja para se salvarem. A Igreja era o centro de tudo e nela havia a totalidade da salvação
(Fora da Igreja não há salvação). Expandia-se
quantitativamente, mas não qualitativamente, porque os bens da
salvação já eram dados uma vez por todas. O projeto
missionário visava levar a salvação que se realizava
através da conversão das pessoas. Era necessário
trazer para dentro da Igreja. Tratava-se de um projeto eclesiocêntrico
e exclusivista. Pode-se visualizar todo este caminho a partir de alguns termos-chave que sintetizam toda esta teologia da missão.
b) Novos horizontes da missão No momento atual a reflexão e o projeto missiológico está
caminhando para outras perspectivas e não está mais diretamente
ligado a uma perspectiva eclesiocêntrica. O esquema poderia ser:
O Concílio Vaticano II, com os seus variados documentos, especialmente o Ad Gentes e a Gaudium et Spes, e mais tarde com a Evangelii Nuntiandi, a Redemptoris Missio e os vários sínodos continentais, desencadeou um novo processo da missão, às vezes no sentido de continuidade e, outras vezes, de reformulações.
Com a inserção da missão no Mistério Trinitário, não somente em sua origem, mas também em sua fundamentação, em sua motivação, em seu dinamismo, em sua metodologia e em sua sustentação, novas perspectivas se abrem. "A Igreja peregrina é por sua natureza missionária. Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito santo, segundo o desígnio de Deus Pai" (AG 2). Nos n. 2, 3 e 4 do Ad Gentes, são explicados os termos das fundamentações trinitárias: desígnio do Pai, a missão do Filho e a missão do Espírito Santo. Algumas conseqüências:
A centralidade do Reino O Reino é a ótica e o caminho para o qual se movimenta
o caminho da missão. Foi sobretudo a Encíclica Redemptoris Missio (1990), em seu segundo capítulo sobre o Reino de Deus, que trouxe mais claramente a doutrina do Reino. O Reino, preparado desde o Antigo testamento, trazido por Cristo e em Cristo e proclamado a todos os povos pela Igreja, que trabalha e reza pela sua perfeita e definitiva realização" (n.º 12). Não se pode separar o Reino da pessoa de Jesus, como também não se pode identificar a Igreja com o Reino. Ela está no mundo a serviço do Reino já acontecendo na história e aberto ao futuro. O reino, neste sentido, é mais amplo do que a Igreja. O caminho da missão, portanto, terá no Reino de Deus seu objetivo. Percorre as trilhas do Reino, reconhece-o nas pegadas dos povos e culturas e colabora na construção de sua plenitude. Os cristãos, portanto, abrem-se a esta perspectivas do Reino através da descoberta das sementes do Evangelho (inculturação), do serviço para a justiça (serviço-libertação), através do testemunho de vida e do anúncio explícito de Jesus.
"Se a missão é fundamentalmente de Deus, e não propriamente da Igreja, esta é vista como instrumental pra tal missão. Existe a Igreja porque existe missão por parte de Deus e não vice-versa. Ela é chamada a participar do movimento do amor de Deus para com a humanidade, pois Deus é a fonte de amor que envia e se auto-envia" (RASCHIETTI, S., A dimensão universal da missão. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Assunção, 2002). Portanto "a atividade missionária não é outra coisa, nem mais nem menos, que a manifestação ou epifania dos desígnios de Deus e a sua realização no mundo e na história" (AG 2). Por ser missionária por sua natureza, a Igreja não envia, mas é enviada. Não representa a finalidade última, mas o instrumento para o "advento do reino de Deus e o estabelecimento da salvação de todo gênero humano" (GS 45). A Igreja não mais é apresentada, no Concílio, como sociedade perfeita, mas como mistério da presença de Deus no mundo, como "sacramento, isto é sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo gênero humano. As metáforas da Igreja são: sal da terra e luz do mundo (Inter Mirifica 24, LG 9, AG 36. Somente "luz do mundo" SC 9), sinal de fraternidade levantado entre as nações (SC 2/2, AG 36, GS 92), fermento da sociedade (GS 40; 44), germe do reino (LG 5; LG 9), instrumento da redenção universal (LG 1; LG 9; GS 42). Com certeza, o sentido mais pleno e histórico da Igreja é concentrado na categoria do "povo de Deus". 4.º Alguns caminhos específicos da missão Se aquilo que falamos até agora são dados relevantes para fundamentar e nortear o sentido da missão, somos chamados agora a entender como ela está sendo levada adiante e quais caminhos está percorrendo. Cada área e lugar geográfico tem sua especificidade. Cabe a todos desvendar caminhos. Nos projetos do Sub-Regional de Campinas, no que se refere à Animação Missionária, estão indicados estes elementos:
Gostaria de refletir um pouco mais sobre tudo isso, à luz daquilo que o Conselho Missionário Nacional quer implantar. Nos últimos anos, sobretudo a partir de 1999, o COMINA está focalizando alguns eixos norteadores da missão. Diante do fato de que o termo "missão" está sendo muito usado, sentiu-se a necessidade de precisar melhor o seu conteúdo semântico. "Se tudo é missão, nada é missão". O termo, um pouco inflacionado, exige uma re-contextualização semântica. O COMINA, entre os vários âmbitos, privilegia alguns conteúdos específicos.
Um dos âmbitos mais específicos da missão é a dimensão universal. O "ad gentes" e o "ad extra" marcam prioritariamente o sentido específico. Esta abertura até os confins do mundo revela o sentido primeiro da missão. O Brasil tem, atualmente (2002) 1556 missionárias e missionários além de sua próprias fronteiras e representam a ponta de lança da questão missionária. Trata-se de um âmbito muito específico e vem ao encontro do Senhor que no grande envio falou de "ir ao mundo todo para pregar o Evangelho". A pérola mais preciosa do caminho missionário é propriamente sua abertura universal até os confins do mundo. Esta abertura missionária não é, primeiramente um conseqüência da maturidade de uma comunidade cristã, mas é condição para sua maturidade. Neste sentido, as comunidades cristãs são convidadas a abrir-se para além de sua próprias fronteiras e tem uma responsabilidade com a missão universal.
A missão tem sempre um caráter profético. Nasce da contemplação de Deus que tem um projeto de vida para todos (o Reino) e se abastece da indignação diante da não-vida, da miséria e exclusão. Profeta é alguém que, segundo a acepção bíblica, tem uma proximidade grande com Deus e está inserido no sulco da história. Não fala as próprias palavras, mas lhe são inspiradas por Deus, a partir dos acontecimentos da vida humana e da história. Como Jesus, o missionário, coloca-se junto com os pobres e torna-se pobre, para revelar a solidariedade extrema com os oprimidos. Aqui nasce toda uma espiritualidade missionária, a partir da solidariedade e do abandono, para testemunhar a esperança e a vida. Os missionários mártires, como Jesus, revelam o cara´ter profético da missão e não fazem nenhuma redução ao sonho evangélico. Um dos desafios mais contundente que a missão é chamada a responder é, propriamente, o da "globalização excludente". A missão universal é crítica permanente à globalização: não exclui ninguém e se afirma nas particularidades das culturas.
Missão não é um empreendimento individual e solitário. Tem sua raiz num Deus que, como comunhão trinitária, se debruça com misericórdia sobre as pessoas. È confiada à Igreja que, como servidora, se pões a serviço da missão. Missão é tarefa de todas as comunidades e de todo batizado. É dentro do caminho da Igreja que é continuada a ação missionária. A Igreja é comunhão e missão (Doc. 40 da CNBB). Não existem, ou pelo menos não devem existir planos missionários, se não a partir da caminhada da Igreja. A missão se insere no projeto de SINM para revitaliza-lo e leva-lo adiante e contribui, também, para que a Igreja do Brasil se abra para a universalidade. O destaque que é dado ao livro dos Atos dos Apóstolos, como base do SINM, é aprofundado pela dimensão missionária no sentido de caracteriza-lo como base para a missão. A CF de 2002, sobre a questão indígena, é retomada pela dimensão missionária para abri-la a todos os povos indígenas do mundo.
A missão, antes de ser tarefa de algum grupo específico,
é uma sinfonia coral de todo o povo de Deus, de uma Igreja ministerial,
toda ela enviada. As Diretrizes da Ação Evangelizadora-CNBB
(1999-2002) falam que é preciso incentivar a responsabilidade dos
leigos para o além-fronteiras. Há um crescimento missionário
dos Regionais da CNBB e das dioceses, mas faltam ainda canais para que
os leigos assumam, de primeira mão, a missão além-fronteira.
Há algumas dificuldades, como a preparação, o acompanhamento,
a ajuda econômica, os planos de saúde...mas, mais do que
isso, uma vontade política de abrir espaço maior aos leigos.
Estamos vivendo, no Brasil, um momento particular de graça. Os organismos intermediários da organização missionária, como os COMIREs - Conselhos Missionários Regionais) estão sempre mais crescendo e articulando a missão nos vários regionais. Há regionais que já estão abrindo caminhos para o além-fronteira (Piauí-Maranhão, Rio Grande do Sul, Paraná). Há outros trabalhando na perspectiva da inter-ajuda entre o Norte e o Sul (São Paulo, Rio Grande, etc). Um dos caminhos é avançar mais para organizar nas dioceses os COMIDIs, nas paróquias, os COMIPAs, sempre dentro desta perspectiva. Quem contribuiu muito para o avanço da questão missionária no Brasil foi a organização da Infância Missionária e as missões populares. Seja a primeira, como a segunda, no entanto, devem estar mais enraizadas no contexto latino-americano e contribuir para a universalidade da missão. A organização chama para uma articulação maior comas forças vivas da Igreja. A CRB, o Conselho Nacional dos Presbíteros, a catequese, a pastoral da juventude, as CEBs, etc., devem ser alvo prioritários de um caminho missionário de conjunto. Junto com todo o processo organizativo, não se pode deixar de lado a "formação específica" para a missão. As dioceses, os seminários, as congregações religiosas deveriam aprimorar mais uma formação missionária específica. Cursos de missiologia estão pipocando, mas ainda são precários. I imaginário missionário está ainda se abastecendo de uma teologia pré-Vaticano II. Os fundamentos bíblicos e teológicos, os novos desafios e suas respostas, uma espiritualidade missionária específica devem ainda ser aprofundados com mais esforço. A questão do diálogo inter-religioso, o anúncio inculturado e as várias práticas de inculturação, a libertação como resposta crítica à globalização excludente...apelam para novos aprofundamentos e reflexões. Conclusão Após discorrer um pouco sobre esta questão missionária, com mais propriedade podemos, agora, descer ao concreto. Aqui se encontram alguns eixos e alguns horizontes a partir dos quais estamos em condições de dar melhor alguns passos.
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