P.I.M.E. - Missio

O CAMINHO MISSIONÁRIO DA IGREJA NO BRASIL
(1999-2002)


Luzes para a caminhada

Nos últimos anos, exatamente a partir de 1999, foram vislumbrados alguns horizontes e traçados alguns eixos do caminho missionário da Igreja no Brasil. Esta leitura contempla os encontros nacionais do COMINA (Conselho Missionário Nacional) e os ENOIM (Encontro Nacional dos Organismos e Instituições Missionárias).

Há algumas palavras que constantemente se repetem e que marcam o ritmo da sensibilidade missionária. Profetismo, universalidade, eclesialidade, parceria e outros querem detectar caminhos a serem percorridos e eixos iluminadores. Nasce uma síntese significativa de caminhada.

COMINA: CAMINHOS PARA A MISSÃO

(Assembléia do COMINA, dezembro de 1999) de Giorgio Paleari

O Conselho Missionário Nacional (Comina) é um organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e formado por representantes de instituições atuantes na animação e ação missionária do País, com sede jurídica em Brasília-DF.

A finalidade do organismo é refletir, acompanhar, avaliar e estimular a animação missionária. Seu conselho diretivo é formado por membros de direito e membros eleitos numa assembléia que se realiza a cada quatro anos. O nome do conselho diretivo é "equipe executiva do COMINA", à qual cabe realizar as tarefas e os programas em nome de toda as forças missionárias.

No mês de dezembro de 1999 (de 9 a 12), realizou-se a última assembléia, antes da passagem do milênio e, como previsto, teve um caráter avaliativo e programático, com momentos ricos de celebrações e de entusiasmo, como é costume quando se encontram as forças missionárias. Mas a pergunta que estava na boca de todos era: para onde vai a missão nesta passagem do milênio?

O caráter profético da missão

A missão tem sempre um caráter profético. Nasce da contemplação de Deus que tem um projeto de vida para toda a humanidade (Reino) e se abastece da indignação diante da não vida, miséria e exclusão. Qual o caminho que a Igreja "peregrina, missionária e pascal" deve percorrer neste contexto? A universalidade da missão é crítica profética à globalização porque, antes de tudo, não exclui ninguém e, em segundo lugar`não uniformiza, mas constrói a unidade na diferença (inculturação). É uma universalidade não impositiva, mas dialógica e propositiva (anúncio e diálogo). O sonho do qual a missão se abastece é o mesmo sonho de Jesus que, na fraqueza e na cruz, assume em tudo a condição humana, exceto o pecado, e - através do serviço e da kenosis - torna-se redentor (serviço).

A dimensão universal e o "ad gentes"

Nos próximos anos, entre as várias acepções do significado da missão, o Comina quer privilegiar o âmbito mais específico e próprio da dimensão universal, do "ad gentes" e do "além fronteiras". Os termos não são intercambiáveis. Indicam, porém, que a missão tem seu caráter específico ao aproximar-se de grupos humanos e culturais que não tem uma explícita relação com Jesus Cristo e com a fé cristã.

Os missionários e as missionárias brasileiras "além-fronteiras" são mais de mil e quinhentos. Em vista disso, surgiu no Comina a consciência de que é preciso fazer crescer, acompanhar e aprofundar a experiência de todos eles, que representam a ponta de lança de uma consciência missionária mais específica e que podem contribuir para um crescimento maior do espírito missionário em nossas Igrejas, num caminho de abertura, inculturação, diálogo e serviço. Por causa disso, o Comina, consciente de que é necessário afunilar com mais clareza a dimensão missionária específica`sugeriu a implantação de um Instituto ou Organismo Missionário Nacional que vise, antes de tudo, ao fortalecimento do caráter além-fronteira da missão.

O protagonismo dos leigos na missão

A realidade dos leigos missionários catalisou, em vários momentos, a atenção dos participantes do Comina. Se, de um lado, ainda estamos no começo de uma organização nacional dos leigos, do outro, percebe-se que a missão nos próximos anos exigirá um maior protagonismo dos mesmos. No passado, a questão missionária foi mais uma prerrogativa das congregações e institutos missionários; mais tarde, as Igrejas Locais sentiram-se mais envolvidas, mas nunca se perdeu o caráter hegemônico do clero e dos religiosos. A missão do terceiro milênio é uma missão mais co-responsável, em que leigos/as desempenharão um papel preponderante.

O caminho missionário da Igreja no Brasil sedimentou-se, nos últimos anos`através de algumas mediações organizativas: Comissões Missionárias Regionais (Comires), Comissões Missionárias Diocesanas (Comidis), e Comissões Missionárias Paroquiais (Comipas). Essa organização não quer ser um paralelismo diante do caminho da ação evangelizadora. Em princípio, sendo a Igreja Missionária, toda sua ação é marcada por seu caráter missionário específico. Na prática, há necessidade de instâncias que estimulem e fomentem constantemente o caráter missionário da Igreja. Os Comires e outras instâncias pretendem ser canais de animação de iniciativas e ardor missionário. Segundo o Comina, é preciso formar e consolidar essas formas organizativas de animação, antes de tudo, dando um estatuto mais preciso a esses canais, de maneira que saibam com clareza qual o papel e a metodologia. Em segundo lugar, essas mediações devem se abastecer de uma teologia mais específica sobre a dimensão missionária, com um processo formativo e operacional gradual que, afinado com os eixos norteadores da missão, ajude numa específica dimensão missionária. A assembléia do Comina falou, também, da necessidade de um maior e mais racional apoio econômico para a consolidação dos Comires, Comidis e Comipas.

O aprofundamento de uma teologia da missão contextualizada

Há certamente bons manuais sobre a teologia missionária. O que falta, no entanto, é um trabalho sistemático para refletir os enfoques básicos da missão à luz de uma especificidade latino-americana. A pergunta que muitos missionários/as brasileiros se fazem diz respeito a uma maneira própria de comunicar e testemunhar a missão em outros continentes. Diante disso, em vários momentos, a Assembléia do COMINA sugeriu a presença de uma assessoria teológica permanente que acompanhasse e desenvolvesse melhor os principais aspectos de uma teologia missionária. Este, no entanto, não é somente um trabalho de especialistas, mas pretende dar conteúdos e aprimorar as reflexões e as práticas missionárias nas várias instâncias dos organismos missionários. O sujeito da ação missionária é a Igreja e suas comunidades cristãs. Todas devem levar adiante um profetismo evangelizador, uma abertura para ale das fronteiras, uma atenção especial à vocação dos leigos, etc. A pergunta que as forças missionárias devem se fazer é "até que ponto estão trazendo algo de determinante e particularmente significativo para a ação evangelizadora da Igreja".

A missão e os meios de comunicação social

À luz do caminho profético e universal da missão, os meios de comunicação podem contribuir para aprofundar e criar uma mentalidade missionária. Atualmente, as revistas missionárias no Brasil estão em rápida afirmação e crescimento. A qualidade do material é um dado de fato. As forças missionárias do país deveriam investir mais na sua difusão e, praticamente, assumir a causa da imprensa missionária. No que se refere às rádios e à televisão, vale a pena reconhecer seu valor como veículo de uma formação universalista e missionária. A missão quer queremos trilhar, nos próximos anos, deve garantir o profetismo, a universalidade, o protagonismo dos leigos, o reforço das instâncias mediadoras da ação missionária, a eclesialidade da missão e a elaboração de uma teologia missionária a partir do contexto latino-americano.

O PASSADO MISSIONÁRIO a partir dos 500 anos

Uma leitura do V ENOIM - Novembro 2000 Giorgio Paleari

O V ENOIM (Encontro Nacional dos Organismos e Instituições Missionárias), realizado na sede das Pontifícias Obras Missionárias, nos dias 23-26 de novembro de 2000, desenvolveu e aprofundou algumas temáticas missionárias que poderão nortear nossos passos no futuro. As pistas poderão enraizar melhor nossa ação missionária

A memória e a história

A partir de 1500, quando os primeiros missionários começaram a chegar ao Brasil e à América Latina, um longo caminho foi percorrido no meio de muitos percalços e contradições. A história é mestra de vida e, através dela, novos erros podem ser evitados e novas veredas podem ser trilhadas. Um dos erros a ser evitado é a associação entre o poder temporal e a ação missionária, a espada e a cruz. A memória desses quinhentos anos de evangelização reafirma um compromisso com um maior respeito das culturas e dos povos em vista de uma autêntica inculturação do Evangelho. O outro e o diferente têm, em nosso continente, rostos e feituras bem precisas: são os negros, os índios, os camponeses pobres, os excluídos da globalização, os moradores das cidades, etc. Somente uma evangélica opção preferencial pelos pobres e excluídos nos permitirá trilhar caminhos proféticos da missão. O ponto de partida de nossa missão é o mesmo Jesus, pobre e misericordioso que acolhe a todos, propriamente porque se coloca ao lado dos que não têm esperança e que são excluídos. A Igreja missionária, no seguimento de Jesus, penetra nas brechas e nas rachaduras do sistema neoliberal, excludente e causador de morte, para implantar os sonhos dos pobres e excluídos. A mensagem missionária não faz nenhuma redução ética ao Evangelho e não atenua o anúncio radical do Reino de Deus.

O profetismo

O termo que melhor consegue iluminar o caminho missionário é o "profetismo". Jesus, o profeta por excelência, revela alguns traços peculiares. Antes de tudo, o profeta é quem tem uma proximidade com Deus. As palavras pronunciadas são palavras de Deus com um timbre humano. É propriamente essa intimidade profunda com Deus que legitima a denúncia e o anúncio do profeta. Ele mesmo não diz as próprias teorias e nem transmite as próprias idéias. É Deus que faz o julgamento sobre os acontecimentos e a história.

O profeta é, também, alguém que está sintonizado com os acontecimentos da vida e está mergulhado no sulco da história. É alguém atento aos sinais dos tempos. A denúncia da injustiça e o anúncio da esperança fazem com que o profeta seja, quase sempre, denegrido e perseguido. O martírio é o preço a ser pago, como o foi por Jesus. Na trilha dos missionários profetas da América Latina (frei Antônio de Montesinos, Bartolomeu de las Casas, dom Oscar Romero, Margarida Alves, dom Hélder Câmara e tantos outros), a Igreja missionária se faz pobre, itinerante e pascal, calçando as sandálias do pescador. Hoje, diante das muitas exclusões e da morte dos pobres, a Igreja não enfeita seu discurso, mas, a exemplo do Mestre, anuncia a presença do Reino em sua radicalidade, até o martírio.

A eclesialidade e a universalidade

A missão não é uma aventura individual e solitária. Surge no âmago de um Deus, que é comunhão trinitária, e é confiada à Igreja que se põe a serviço da missão. A Igreja é toda ela missionária e missão é tarefa de todo um povo de profetas, de reis e de sacerdotes.

A missão, neste sentido, está entrelaçada no mesmo ser da Igreja e encontra sua vitalidade em todo o dinamismo de sua ação evangelizadora. Guiadas pelo Espírito de Deus, todas nossas comunidades se tornam os sujeitos da missão. No texto das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (1999-2002), a palavra "missão" parece ter entrado no vocabulário e no imaginário da Igreja. Fala-se de "missão da Igreja", de "missão evangelizadora" e, também, de "abertura universal". Há uma necessidade de captar melhor a missão em sua dimensão de "além-fronteiras", de "ad gentes" e de universalidade. A pérola mais preciosa do caminho missionário é propriamente sua abertura universal até os confins do mundo.

A abertura missionária não é, primeiramente, uma conseqüência da maturidade da comunidade cristã, mas é a condição para sua maturidade. Não se pode esperar que tenhamos tudo acertado para sair para a missão. As comunidades amadurecem, abrindo-se e partilhando sua fé. A universalidade é estímulo para o surgimento de novos agentes de evangelização, para servir nas situações de fronteira e para fazer explodir um novo ardor. O surgimento de um Organismo Missionário Nacional para a dimensão "ad gentes" poderá contribuir para dinamizar mais a abertura para a universalidade.

A organização e a animação

Se, de um lado, o caminho da missão dá graças a Deus pelo fato de que nossa Igreja está se tornando cada vez mais missionária, do outro, reafirma o compromisso de incentivar mais a animação missionária de nossas comunidades.

Toda ação evangelizadora e todas as pastorais devem assumir o dinamismo missionário como elemento vital. A catequese e a liturgia, como toda atividade eclesial, devem ser marcadas pelo ardor missionário. A animação missionária é propriamente esse dinamismo que impulsiona toda evangelização.

A organização missionária, por sua vez, nos seus diferentes níveis, põe-se a serviço da animação da Igreja e suscita, com seu dinamismo, uma abertura constante para a universalidade. Nenhuma Igreja basta-se a si mesma. Tornar-se-ia um gueto fechado e sufocante. A missão dinamiza e impulsiona para abrir todas as comunidades às situações missionárias e ao além fronteiras.

Junto com a animação e a organização, há necessidade de um processo de formação em todos os níveis, incluindo os sacerdotes e os bispos, para aprofundar e suscitar o espírito da missão.

A Palavra de Deus

A Palavra de Deus, antes de representar uma das tantas temáticas, é o ponto focal que ilumina e torna consistente o caminho da missão. É palavra escrita, mas, antes de tudo, é a mesma pessoa de Jesus Cristo, Palavra encarnada do Pai.

Seguindo o projeto "Ser Igreja no Novo Milênio", o livro dos Atos dos Apóstolos foi escolhido para aprofundar o caminho de nossa Igreja. Desde o começo, as comunidades cristãs constituíram-se como missionárias e fizeram da missão sua razão de ser. O Cristo pascal e seu Espírito impulsionaram os cristãos a saírem do círculo estreito do judaísmo e a se espalharem por todos os recantos do mundo conhecido. Esparramando-se no contexto grego e helenista, tendo no apóstolo Paulo seu importante protagonista, as comunidades cristãs enfrentaram as primeiras dificuldades para a inculturação do Evangelho, para responder aos desafios das novas situações e do mundo urbano, para reconstruir uma comunhão na missão e para tornar mais efetivo o serviço no meio dos pobres. Como pessoas pobres e sem recursos, os primeiros missionários percorreram os caminhos da missão, tendo como única certeza a presença de Jesus. Seduzidos pelo amor do Mestre, ofereceram suas próprias vidas, até o martírio, pela causa missionária.


COMINA: PROFETISMO E ORGANIZAÇÃO de Giorgio Paleari

Assembléia do COMINA - Novembro 2001

O termo profetismo continua ser repetido nas Assembléias do COMINA (Conselho Missionário Nacional). Desta vez, no mês de dezembro de 2001, foi introduzido num estudo aprofundado sobre a realidade Indígena do Brasil. Coube a Dom Franco Masserdoti, presidente do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) apresentar o tema: A fraternidade e os povos indígenas, cujo lema, na perspectiva da Campanha da Fraternidade de 2002, é "Para uma terra sem males".

A realidade dos povos indígenas no Brasil nos coloca no âmago da questão missionária. Antes de tudo, foram e são minorias esmagadas, antes por uma colonização violenta, e, agora, pelo sistema globalizado e pelo neoliberalismo. De um ponto de vista social e cultural, os povos indígenas continuam tendo pouca relevância. Um participante falou que: "a morte, o aniquilamento e a destruição dos povos indígenas continuam sendo uma tônica da história de hoje".

O que questiona mais diretamente, no entanto, é o caminho da evangelização, com seus métodos e com sua prática. A atuação de tantos missionários se, de um lado, demonstrou a dedicação e ardor pela causa do Reino, de outro, significou uma profunda ligação com o poder colonial. Houve missionários que tomaram a defesa dos índios (como Bartolomeu de Las Casas), outros que denunciaram as injustiças (como Frei Antônio de Montesinos) e muitos outros, ainda, que ingenuamente serviram de suporte à destruição dos povos indígenas. Nos últimos trinta anos, a ponta de lança da Igreja missionária tem sido o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) que, numa atenta visão crítica e movendo-se dentro de uma renovada teologia da missão, torna-se presente profeticamente no meio das populações indígenas.

O caminho da missão, como até agora foi percorrido, levanta questões sobre a consistência da evangelização. O anuncio explícito do Evangelho não pode ser desvinculado da realidade da vida, da inculturação, da libertação e do diálogo. Foi a partir destas premissas que o COMINA, junto com o CIMI, decidiu articular melhor as forças missionárias e, estimulado pela Campanha da Fraternidade do 2002, sugeriu que em todas as Assembléias dos COMIREs houvesse, como momento de estudo, a realidade dos povos indígenas no Brasil. Além disso, programou-se um seminário sobre a questão da evangelização na ótica do anúncio e, em fim, a realização de um evento para concluir a CF e fazer memória dos 30 anos do CIMI e do COMINA. Também as Revistas missionárias, a partir da experiência positiva já intraprendida, decidiram preparar um subsídio para a Campanha Missionária do mês de Outubro de 2002, tendo com o tema: Os povos indígenas no mundo.

A dimensão profética e a opção pelos pobres

Há grandes riscos, hoje, que a dimensão missionária assuma um caráter exclusivamente festivo, um ardor desencarnado e ingênuo. Além de o termo missão ficar diluído e perder sua conotação específica, pode manifestar, também, um sentido de superficialidade. Fala-se de missão evangelizadora, de missão popular, de trabalho missionário, de missão em todos os sentidos. Cada um tem sua missão, como cada pastoral tem uma missão. O termo é tão diluído que precisa de novo ser focalizado. Deve ser entendido dentro de alguns eixos norteadores, entre os quais se destaca a universalidade (ad gentes e além-fronteiras) e a opção pelos pobres. Se for verdade que o que a abastece a missão é o projeto de Jesus, é também certo que, o que a inspira, é o caminho do Mestre. Dom Franco nos lembrou que o nosso Deus é o "Deus da vida", é "amor-comunidade" e "se fez pessoa humana", a partir da exclusão. A opção evangélica pelos pobres deve sustentar profundamente o caminho da missão. Profetismo e opção pelos pobres são inseparáveis. Jesus pôde vislumbrar a visão do Reino, como amor misericordioso do Pai, a partir de sua inserção efetiva no meio dos excluídos. Ele mesmo se fez excluído. Jesus nem tinha lugar para apoiar sua cabeça. Quem não tem um lugar para amparar-se é alguém que fez da rua e do caminho sua morada, cruzando fronteiras e margens, residindo além das razões civilizadas, preferindo a não-vida para desencadear a vida em abundância. O sonho do Reino que fervia e queimava na vida de Jesus podia acontecer somente em sua proximidade histórica e humana com os oprimidos. É por causa disso que não se pode separar a vida real de Jesus, como concretamente a viveu na proximidade com os deserdados, com o sonho de ver eliminada qualquer discriminação e exclusão por causa do amor infinito de Deus que acolhe a todos.

O tema de estudo do COMINA sobre os povos indígenas, fez com que a Igreja missionária no Brasil re-afirmasse seu compromisso com o profetismo e com os pobres. E, por isso, que as celebrações, durante o encontro, resgataram o louvor e o empenho de tantos missionários e missionárias que sacrificaram e estão sacrificando a vida, em solidariedade completa com os povos indígenas.

A revisão do regulamento

Se o primeiro tema básico do COMINA foi o estudo dos "povos indígenas", o segundo verteu sobre a re-atualização do Regulamento. Após vários anos, percebeu-se a necessidade de rever e adaptar aos novos tempos a dimensão missionária deste Organismo. Antes de tudo, foi importante entender que o dinamismo missionário não pode ser codificado uma vez por todas. Nunca pode perder seu caráter de provisoriedade. Missão é sopro do Espírito que não pode ser encapsulado. Depois, em seu novo contexto, a missão deve dar conta da renovada teologia e do sentido da parceria. Sobretudo, após o Vaticano II, a dimensão missionária é percebida como uma sinfonia coral de todo o povo de Deus e, não somente uma atividade de alguns especialistas.

Quais as novidades introduzidas? Com mais clareza foi entendida a natureza e a finalidade do COMINA, como organismo da CNBB. Não se trata de uma entidade anexa ou ligada à Conferência dos Bispos, mas é a expressão direta da missionariedade da Igreja. É formado pelos representantes das Instituições que atuam na animação, formação e serviço missionário no Brasil.

No momento em que a dimensão missionária está sempre mais definindo o seu rosto e um novo fervilhar missionário se alastra em nosso país, baste pensar aos vários projetos da "missão além-fronteira", novas forças emergentes foram incluídas na composição do COMINA. Além do CIMI, o CNIS (Conselho Nacional dos Institutos Seculares), a PBE (Pastoral dos Brasileiros no Exterior), o CNP (Comissão Nacional dos Presbíteros), as Missões Populares, as Associações de Missiólogos e das Instituições Acadêmicas Missiológicas foram convidados a ser parte, a pleno direito, do Conselho Missionário Nacional. Também a Secretaria Executiva ficou enriquecida com a presença permanente do Presidente do CIMI, ou de um seu representante. Dando destaque ao enraizamento do caminho dos COMIREs (Conselhos Missionários Regionais), formulou-se a necessidade que, ao menos, um dos membros eleitos surja dos quadros dos coordenadores dos mesmos. Evidentemente, este novo quadro exigirá uma racionalização maior das atividades e das atuações dos membros da Secretaria Executiva.

O que fica claro é que o caminho da dimensão missionária da Igreja no Brasil está cada dia mais encontrando seu espaço e sua organização. Após trinta anos da existência do COMINA, damos graças a Deus pelo passos dados e reafirmamos nosso compromisso pela causa missionária.

A DANÇA DA PARCERIA

Encontro com as coordenações dos COMIREs - Fevereiro de 2002 de Giorgio Paleari

Entre as Instituições e os grupos missionários no Brasil está sendo gerado um novo sentido para o caminho da missão. Fala-se em missão como "parceria".

A parceria pode representar um avanço qualitativo na questão missionária. O COMINA (Conselho Missionário Nacional) articula-se com o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), com a CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil). Pede-se aos COMIREs (Conselhos Missionários Regionais) de comporem as forças com outros grupos de maneira de não encapsularem a missão, mas de torna-la um dinamismo de todas as forças vivas da Igreja.

Um pouco mais difícil é a definição do termo Anne Reissner, missióloga norte americana, usa a metáfora da dança para visualizar o que vem a ser a missão no século XXI. Paulo Suess, renomado missiólogo, fala que "a comunidade missionária deve articular redes e desarticular pirâmides". A renovada teologia da missão, por sua vez, afirmando a iniciativa de Deus na missão (missio Dei), aprofunda o sentido de que a missão é "a sinfonia coral" de todo o povo de Deus.

A metáfora da dança

Foi Ana Reissner (Missiology, XXIX, 1, 200) a primeira a usar a metáfora da dança para visualizar o que vem a ser a missão no século XXI.

Deverá ser uma parceria em que os missionários partilharão com que os hospeda as próprias experiências e todos empreenderão uma busca comum. Os dois, enviado e destinatário, trilharão os mesmos caminhos e Deus será encontrado no ponto de intersecção entre os dois parceiros (indwelling).

Neste intercâmbio não haverá uma direção única, mas numa atitude de reciprocidade, permitir-se-á a gratuidade da relação. Um ensina e aprende, ao mesmo tempo e, o outro, oferece e recebe os dons (indirection).

Na busca empreendida, as expectativas se fragmentam e os pontos de vista se reformulam e se aprofundam. Há necessidade de trilhar novos caminhos e abrir novos horizontes. Este processo de re-criação nos permitirá que nos percebamos em rede na construção do Reino. Mesmo situados em planos diferentes e, às vezes, assimétricos, a parceria torna-se um caminho a ser percorrido com encontros e desencontros, crises e reformulações (imagination).

Diarmunid O' Murchu (Quantum Theology, New York: Crossroad, 1997), usa a metáfora da dança:

Meu par, quer dançar comigo?
Eu envolvo minhas mãos com as suas,
Antes o pé direito, depois o esquerdo,
Movimentando-se ao redor, de novo, de novo ainda

Esta imagem revela a iniciativa de Deus, uno e trino, que precede, acompanha e dirige o caminho dos missionários.. É no caminho da missão e da parceria que Deus se revela na inter-relação com o outro.

Articulação de redes e alianças

Paulo Suess (Contextualidade, gratuidade, universalidade, mímeo) prefere usar os termos "articulação e alianças", em vez de "parceria". Escreve: "As articulações não são meras 'parcerias'. São alianças de causas e movimentos afins". Efetivamente, o termo 'parceria' pode indicar uma junção de elementos díspares que poderiam dificultar o processo de alcançar objetivos comuns. Os termos "alianças" e "articulação", por sua vez, pressupõem um ponto de partida comum a partir do qual se convidam os sujeitos a interagirem entre si. O ponto de partido, para Suess, é o fato de "a missão articular os sonhos dos pobres e desmanchar o 'grande relato' da desigualdade natural do neoliberalismo". A missão, neste sentido, 'articula uma rede de esperanças'. As alianças empreendidas visam construir uma rede alternativa de projetos na perspectiva da conseguir se opor à globalização excludente.

Toda esta abordagem quer distinguir o caminho missionário na ótica dos pobres e do profetismo. Fazer parceria, neste caso, não significa juntar num mesmo caldeirão todo e qualquer tipo de ingredientes, fazendo uma mistura sem sabor e sem identidades que só contribui em reforçar a exclusão e a atenuar o discurso. Tecer alianças permite articular e tornar efetivo o sonho dos pobres. Não é necessário juntar as forças a qualquer custo, é preciso entrelaçar redes para um mundo alternativo, mais justo e solidário.

O caminho da missão em parceria

A teologia da missão, hoje mais do que nunca, reafirma o primado de Deus e seu protagonismo no caminho missionário. A expressão "missio Dei", na língua latina, significa que a missão tem como sujeito principal o mesmo Deus. Todos os cristãos tornam-se colaboradores e parceiros de Deus na atividade missionária. "Como o Pai me enviou, eu também vos envio" (Jo 20,21), diz Jesus.

Além disso, a missão foi confiada à Igreja toda. Cabe a ela ser servidora do Reino de Deus. A missão, neste sentido, é uma "sinfonia coral" de todo o povo de Deus. Ninguém e nenhum grupo podem reter para si a missão, mas todos vivem e devem se envolver no dinamismo missionário. A missão não é propriedade de ninguém, mas um sopro e um ardor confiado a toda Igreja. Todos são colaboradores e parceiros da atividade missionária.

Trilhando o caminho

O que está emergindo de novo na Igreja do Brasil é o caminho da parceria na animação e atividade missionária. È interessante ver como o COMINA e os COMIREs, depois de um período de sedimentação, estejam resgatando o sentido de alianças com as forças mais vivas da Igreja. A CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil) está reforçando e abastecendo seu caminho na junção de forças com as instâncias missionárias específicas. O CIMI, o organismo missionário que está presente no meio dos povos indígenas, está junto ao COMINA nos seminários de formação e nas celebrações dos 30 anos de sua existência. O fato de as forças se juntarem exige, no entanto, uma maior clareza de objetivos e de métodos. Suess alerta para que a ótica dos pobres e do profetismo não seja colocada em segundo plano. O ponto de base sobre o qual articular as alianças é o compromisso de uma Igreja pobre, itinerante e pascal. Há outras forças vivas que devem ser incluídas no caminho da missão.

Uma experiência de destaque é a articulação entre a CRB de São Paulo e o COMIRE SUL 1, em vista de um serviço maior aos missionários brasileiros além- fronteiras. Encontros e iniciativas estão marcadas para receber e acolher os missionários para torna-los forças vivas de animação missionária da Igreja. Um outro fato, não menos importante, é a junção das revistas missionárias, entre as quais Mundo e Missão, para preparar um material de primeira qualidade para o mês missionário de Outubro. São todos caminhos de parceria em vista da causa maior da missão.

O COMIRE Norte 1, reunido em Manaus, viu a presença ativa de representantes do clero, bispos e religiosos no aprofundamento da espiritualidade missionária. O encontro dos assessores da Infância missionária do Estado do Paraná, reunidos em Cornélio Procópio, conseguiu entrelaçar a parceria com os Conselhos Missionários Diocesanos, os catequistas e os líderes da Pastoral da Juventude.

É tempo rico de amadurecimento missionário da Igreja no Brasil. O caminho da maturidade passa, neste momento histórico, através da parceria, da articulação e de novas alianças. "Meu par, quer dançar comigo?".

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar