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INGLATERRA: 24/06/2008
Igreja e Política
Governo britânico abandona as confissões religiosas
O governo britânico falha com uma parte da sociedade
civil devido a sua falta de compreensão da religião. Esta
é a acusação apresentada por um informe preparado
para a Igreja da Inglaterra pelo Von Hügel Institute, um centro de
pesquisa da Universidade de Cambridge. Em uma nota de imprensa de 9 de
junho da Comunhão Anglicana, recolhiam-se alguns detalhes do informe,
"Moral, But No Compass - Government, Church, and the Future of Welfare").
O informe é resultado de uma grande quantidade de entrevistas com
pessoas da política, das igrejas, de outros credos, do setor de
serviço social e de voluntariado. «Temos encontrado, por
parte do governo», diz o informe, «uma significativa falta
de compreensão ou interesse na contribuição atual
ou potencial da Igreja da Inglaterra à esfera pública.»
O informe também acusa a comissão de voluntariado
de dados e sistemas de classificação muito pobres. Em combinação
com uma ênfase deliberada nas comunidades minoritárias, isto
dá como resultado uma relativa exclusão da Comunhão
Anglicana e de centenas de outras organizações caritativas.
Os pesquisadores concluem que o governo subestima de forma crítica
o número de organização de caridade cristã,
sem ter em conta milhares delas, e, em conseqüência, seu impacto
e potencial social, econômico e civil. O Times publicava, no dia
7 de junho, um comentário sobre o informe, observando que a pesquisa
revelava que mais de 50 mil fiéis anglicanos estão implicados
de forma regular na ação social respaldada pela Igreja.
A Igreja Anglicana quer que isto se reconheça e receba o financiamento
apropriado do governo.
O artigo do Times observa, no entanto, que isto agora
se converterá em um problema devido às novas diretrizes
da Comissão de Voluntariado. O informe aparece em um momento em
que os últimos dados apontam uma piora da situação
na Grã-Bretanha das Igrejas estabelecidas. Segundo um artigo publicado
no dia 8 de maio no Times, o número de cristãos que assistem
a Igreja diminui rapidamente. Uma análise publicada por Christian
Research, cujos dados foram postos em dúvida por Lynda Barley,
diretora de pesquisas da Igreja na Inglaterra, mostra que para 2050 o
número de muçulmanos que participarão de serviços
religiosos de forma regular será superior ao de todos os que vão
às Igrejas cristãs. Para meados do século, haverá
2.660.000 muçulmanos ativos na Grã-Bretanha --cerca de três
vezes o número dos que vão à igreja aos domingos,
segundo a projeção.
As projeções alarmantes sobre o futuro
do cristianismo na Grã-Bretanha são apenas a última
de uma série de advertências sobre o perigo que o país
enfrenta devido à crescente secularização e ao fato
de deixar de lado a religião. No dia 6 de junho, o periódico
Catholic Herald publicava que a agência de adoções
da diocese de Salford está a ponto de fechar, devido à lei
que exige entregar crianças em adoção a pares do
mesmo sexo. A Catholic Children's Rescue Society proporciona serviços
de adoção desde sua fundação, em 1886. «O
governo lamentará o dia em que perseguiu esta linha de ação.
É um ataque laicista contra a Igreja Católica», afirmava
Jim Dobbin, membro do parlamento por Heywood e Middleton. O arcebispo
de Westminster, cardeal Cormac Murphy-O'Connor, também falou há
pouco sobre o tema dos valores religiosos e a sociedade laica.
Em um discurso na catedral de Westminster, pediu que
se melhore o diálogo entre crentes e não crentes. O cardeal
comentava que, na Grã-Bretanha de hoje, há um considerável
vazio espiritual, com gente que está em uma espécie de exílio
de qualquer experiência de fé. «Para alguns, que isto
se tenha estendido é efeito da privatização atual
da religião. A religião se vê ameaçada como
um tema de necessidade pessoal mais que como uma verdade que nos coloca
perguntas inevitáveis», observava. O cardeal Murphy-O'Connor
indicava que uma pessoa moderna poderia pensar que a religião é
um tema privado, porque, segundo a tradição do catolicismo,
nossa fé cristã é algo profundamente social. O primeiro
mandamento de amar a Deus está ligado com o segundo de amar nosso
próximo.
Acrescentava o prelado que claramente o cristianismo
se orienta para a implicação pública e faz sentir
sua presença na sociedade. «Nossa vida em comum na Grã-Bretanha
não pode ser uma área livre de Deus e não devemos
permitir que a Grã-Bretanha se converta em um mundo privado da
fé religiosa e de sua poderosa contribuição ao bem
comum», sustenta o arcebispo de Westminster. Em parte, os intentos
de marginalizar o cristianismo vêm da incapacidade de alguns para
enfrentar a idéia de que o cristianismo possa ser inteligente e
não nos separa da pesquisa racional. De fato, a tradição
católica, explicava o cardeal Murphy-O’Connor, caracteriza-se
pela relação próxima entre a compreensão racional
e a fé religiosa. Ele defendia que, ainda que a fé cristã
não se baseia nas conclusões da razão, é compatível
com o pensamento racional.
Bento XVI comentava a importância da fé
em um mundo secularizado em seu discurso de 29 de maio aos bispos italianos
reunidos em assembléia geral. É necessário, insistia
o pontífice, resistir às pressões que consideram
a religião, e em especial o cristianismo, como um assunto unicamente
privado. «As perspectivas que surgem de nossa fé podem dar
uma contribuição fundamental ao esclarecimento e solução
dos maiores problemas sociais e morais da Itália e da Europa de
hoje», comentava o Papa. Fez referência à importância
do trabalho da Igreja em áreas como a educação e
a família, em um momento em que a sociedade está marcada
por um agressivo relativismo que debilita as esperanças que surgem
dos valores e das certezas da fé.
Bento XVI recomendava que a Igreja na Itália siga
com seus esforços no meio de uma «cultura que põe
Deus entre parênteses e desalenta qualquer opção verdadeiramente
comprometedora e, em particular, as opções definitivas,
para privilegiar, em contrapartida, nos diversos âmbitos da vida,
a afirmação de si mesmos e das satisfações
imediatas». O Papa concluía dizendo que a Igreja tem perante
si a oportunidade de entrar no debate público sobre as preocupações
da sociedade moderna no espírito de sincera comunhão. Uma
comunhão que só pode enriquecer a sociedade em seu conjunto
se as elites que governam estiverem dispostas a deixar lugar ao cristianismo
na arena pública.
Zenit
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