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BRASIL: 03/07/2008
Indígenas
Os povos do Xingu e a hidrelétrica Belo Monte
"É
teu povo, Senhor, que eles massacram, é tua herança que
eles humilham!"
(Sl 93 (94),5)
O Xingu é um rio peculiar e único. Não
dá para compará-lo com qualquer outro rio da Amazônia.
Só ele faz aliança com o majestoso Amazonas através
de um largo delta. Na foz, suas lindas águas verde-esmeralda se
mesclam com as águas barrentas do rio-mar no qual se perde finalmente
acima do Forte de Santo Antônio de Gurupá. Percorreu 2045
km desde o Mato Grosso, onde nasce a 600 metros acima do nível
do mar na junção da Serra do Roncador com a Serra Formosa.
O Xingu é misterioso. Seu nome até hoje não tem explicação
etimológica. Alguns estudiosos querem traduzi-lo como "casa
dos deuses" ou melhor "Casa de Deus", mas não se
tem certeza qual seria a verdadeira raiz subjacente a este nome. Suas
águas ora são calmas e pacíficas formando extensos
lagos, ora furiosas e indômitas quando se estreitam em perigosas
cachoeiras que já ceifaram muitas vidas de viajantes desavisados
ou afoitos que teimaram enfrentá-las. Pode ser que não seja
a Casa de Deus, mas que é um rio sagrado para os povos que habitam
nas suas margens há milhares de anos, quem teria a ousadia de negar!
O Xingu narra a história do paraíso de antanho e repete
as palavras divinas "E Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito
bom" (Gn 1,31). Mas conta também a história da rebelião
contra Deus, da prepotência e arrogância dos homens que queriam
ser como deuses (cfr. Gn 3,5).
Relata ainda a violência assassina que
ceifou a vida do irmão e brada pelos séculos afora a palavra
de Deus:
- "Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão,
do solo, clamar por mim!" (Gn 4,10).
Na realidade, as águas do Xingu deveriam ter a
cor do sangue por causa das inúmeras chacinas que se perpetraram
ao longo dos séculos passados. A fúria anti indígena
assassinou com armas de fogo a índios munidos apenas de arco e
flecha e bordunas. Os invasores misturaram nas praças das aldeias
com o barro vermelho também o sangue de indefesas mães e
mulheres grávidas, jovens e crianças recém-nascidas.
Milhares tombaram! O mundo que se autodenomina de "civilizado"
fechou os olhos, mostrou indiferença diante do sangue indígena
bradando por justiça, gritando pelo direito de viver, reclamando
a pátria que Deus criou para estes povos, defendendo o chão
de seus mitos e ritos, chorando a terra onde sepultaram os antepassados.
Até hoje o índio é chamado com desprezo de "silvícola",
um termo que insinua tratar-se apenas de algum bípede a mais, sem
inteligência e livre arbítrio. Grande parte da sociedade
envolvente vê ainda os povos indígenas como uma horda de
malfeitores, de agressores hostis, selvagens, traiçoeiros, bárbaros,
cruéis, não-confiáveis. A história dos índios
é uma história de rios de sangue derramado. Assim, tudo
que hoje acontece de desfavorável, de adverso faz emergir do inconsciente
coletivo destes povos todo o sofrimento do passado, toda hostilidade de
que foram vítimas desde que os europeus fincaram o pé neste
continente e os bandeirantes avançaram em todas as direções
abrindo caminho a ferro e fogo. Não faz tanto tempo que o próprio
órgão governamental encarregado de proteger os povos indígenas,
o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), participou
de massacres. Foi extinto por causa da repercussão no exterior
das escandalosas carnificinas e substituído pela Fundação
Nacional do Índio (Funai). Em 1967 veio à tona o assim chamado
"Massacre do Paralelo 11" que aconteceu em 1965. Um seringalista
do Mato Grosso deu ordem para exterminar uma aldeia. Primeiro sobrevoaram
o povoado e jogaram bombas, depois entraram na aldeia e mataram a todos.
Eu mesmo vi uma fotografia que mostra uma mulher indígena presa
pelos pés, de cabeça para baixo, ladeada por dois homens
brancos com facões. Esquartejaram a mulher. A mera lembrança
da foto me causa arrepios. Isso não aconteceu no tempo dos bandeirantes,
mas há apenas pouco mais de quarenta anos. Naquela mesma década
de 60, outra agressão bem planejada aconteceu no Xingu. A ação
criminosa nunca foi investigada. Os criminosos não foram identificados
e punidos por homicídio qualificado cometido em série. Alguns
políticos queriam a todo custo tirar Altamira do ostracismo. A
cidade precisava ser ligada através de uma estrada - mesmo que
fosse apenas uma picada - com Santarém, o portal a dar acesso ao
mundo. O empecilho para concretizar o intento foram os índios Arara,
que viviam na região que hoje coincide com os municípios
de Medicilândia e Uruará. Mas, para não frear o progresso,
"esses selvagens" tinham que ser "eliminados". Se
a expedição avistasse um índio Arara, a ordem era
de executá-lo imediatamente! Não se sabe do número
exato de índios Arara mortos naquele tempo. Só se sabe que
foram muitos. Morreram até eletrocutados quando se aproximaram
do barraco da "força expedicionária" circundado
por uma cerca de arame conectada com um grupo gerador. Os índios
queriam ver os "brancos", seguraram no arame e levaram choques
de 220 volts. A história deste povo que vivia sossegado no meio
da mata entre Altamira e Santarém culminou em outra tragédia
durante a construção da Transamazônica. A nova rodovia
passava a três quilômetros da aldeia dos Arara no igarapé
Penetecaua. Os índios foram até perseguidos por cachorros.
A forçada convivência com o mundo dos brancos trouxe doenças
como gripe, tuberculose, malária. Outros tantos morreram. O mundo
lá fora, no Brasil e no exterior, nada soube desta desgraça
que desabou sobre um povo. Continuava a aplaudir "a conquista deste
gigantesco mundo verde", palavras que constaram da placa afixada
no tronco de uma castanheira derrubada quando o presidente da República
deu solenemente início aos trabalhos de construção
da Transamazônica. A que preço! Nunca me esqueço do
dia em corria a notícia de que, finalmente, os "terríveis
índios Arara" haviam sido dominados. Como prova de que o "contato"
tinha sido um sucesso total, trouxeram uns representantes daquele povo
que até então vivia livre na selva xinguara. Nus, tremendo
de medo em cima de uma carroça, foram expostos à curiosidade
popular como se pertencessem a alguma rara espécie zoológica.
Vivemos em outros tempos. Pelo menos assim pensamos. Celebramos 60 anos
de promulgação da Carta Magna dos Direitos Humanos. Qualquer
discriminação racial é condenada. É proclamada
a igualdade de povos e raças. No Brasil temos desde 1988 uma Constituição
Federal em que os direitos indígenas são inscritos no Artigo
231. Foi abolida a tutela de um órgão estatal. Os indígenas,
outrora equiparados aos menores de idade e aos deficientes mentais, alcançaram
plena cidadania, não precisando mais ser tutelados. Tem todo o
direito de ir e vir como qualquer brasileiro. Mesmo assim, enquanto já
estamos festejando os 20 anos da Constituição "cidadã",
parte da imprensa ainda não se inteirou desta novidade constitucional
e há jornais insistindo que "a Polícia Federal deverá
pedir explicações à Funai (...) já que o órgão
é o tutor legal dos índios brasileiros". O salto qualitativo
da letra constitucional para o chão concreto da realidade em que
os povos indígenas vivem ainda não aconteceu. Se uma demarcação
de área indígena é concluída com a homologação
pelo presidente, prevista em lei, um clamor ensurdecedor se levanta pelo
Brasil afora, reclamando que "há muita terra para pouco índio".
E o pior aconteceu há algumas semanas em Altamira. Uma rádio
local se desdobrou em berrar agressões verbais contra os índios,
insultos racistas que fazem inveja ao tratamento destinado aos judeus
pelo regime nazista. Pensávamos que tais excessos pertencessem
a um passado longínquo e tivessem sido, há muito tempo,
extirpados do vocabulário jornalístico. Infelizmente, nos
enganamos. A onda anti indígena assume novamente proporções
alarmantes.
De
Kararaô a Belo Monte
Muitos não recordam o tempo a ditadura militar
e, já que a memória tem fama de ser curta, poucas pessoas
se lembram dos mandos e desmandos dos presidentes plenipotenciários
daquela época. Um deles foi o general Emílio Garrastazu
Médici. Tornou-se célebre pelo Projeto de Integração
Nacional e a construção da rodovia Transamazônica,
inaugurada em setembro de 1972. Foi a década do "Integrar
para não entregar" e de outro slogan que desencadeou uma migração
sem precedência no Brasil. "Terra sem homens para homens sem
terra!", exclamava eufórico o general-presidente, o que não
deixou de ser um tremendo insulto aos povos indígenas que há
milênios habitam a Amazônia. O presidente simplesmente os
ignorou, despojou-os da cidadania, negou-lhes a existência, considerou-os
definitivamente mortos. Milhares de famílias rumaram do Nordeste,
Centro, Sudeste e Sul para a Amazônia. No entanto, o Projeto de
Integração Nacional previu também a construção
de barragens. A rodovia cortou os grandes rios nas proximidades das principais
quedas d’água. Já em 1975 a Eletronorte contratou
a firma CNEC (Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores) para
pesquisar e indicar o local exato de uma futura hidrelétrica. Em
1979 o CNEC terminou os estudos e declarou a viabilidade de construção
de cinco barragens no Xingu e uma no rio Iriri, maior afluente do Xingu.
Ao povo do Xingu negou-se qualquer informação mais detalhada.
Só se sabia que o governo pretendia tocar a construção
o quanto antes possível. Os povos indígenas reagiram pela
primeira vez em 1989. Vieram uns 600 índios para Altamira e hospedaram-se
no centro Betânia da Prelazia do Xingu. Vieram para protestar contra
a decisão do governo de sacrificar o rio Xingu. O encontro que
os índios chamaram de "Primeiro Encontro das Nações
Indígenas do Xingu" realizou-se entre os dias 20 e 25 de fevereiro
de 1989 e alcançou uma enorme repercussão nacional e internacional.
A foto que retratou a cena em que a índia Kayapó Tuyra encostou
a lâmina de seu facão no rosto do então presidente
da Eletronorte e hoje presidente da Eletrobrás, José Antônio
Muniz Lopes, percorreu o mundo inteiro e virou a logomarca da oposição
indígena ao projeto de hidrelétrica. Tuyra tornou-se a mulher
mais famosa do mundo Kayapó, mãe carinhosa com seus filhos
e ao mesmo tempo guerreira intransigente quando se trata da defesa sua
terra e seu rio. Pouco depois daquele memorável encontro, o Banco
Mundial negou o suporte financeiro e o projeto foi arquivado. Nunca, porém,
foi abandonado. Já na década de 90 foi desengavetado e veio
à tona com mais força. No inicio do mês de junho de
2007, reuniram-se outra vez representantes de vários povos indígenas
do Xingu no Centro Betânia da Prelazia do Xingu e insistiram que
colaborássemos com eles para promover um Encontro dos Povos Indígenas
semelhante àquele que aconteceu em 1989. Os índios pretendiam
chamar a atenção do Brasil e do mundo, condenando o projeto
faraônico que ameaça imolar ao deus-progresso o rio Xingu
que para eles é sagrado, símbolo da vida, dádiva
de Deus. No dia 3 de junho de 2007, os participantes do encontro foram
para a beira do rio, em Altamira, para uma manifestação
contra o projeto de hidrelétrica ressuscitado que recebeu o nome
"Belo Monte" em substituição à denominação
anterior "Kararaô" que equivale a um grito de guerra do
povo Kayapó. Mudou apenas o nome! O atual governo o considera prioridade
no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente
Lula antes de ser eleito manifestou-se contra Belo Monte. Do mesmo jeito
vários membros do Congresso Nacional, entre eles o deputado federal
Zé Geraldo (PT/PA), eleito pelas comunidades do Xingu, declararam-se
visceralmente contrários, quando estavam em campanha eleitoral.
Mas que surpresa para todos nós: depois de eleitos mudaram de posição.
O que antes condenaram com veemência, de repente, da noite para
o dia, passaram a defender com unhas e dentes. O que estaria por trás
dessa repentina metamorfose camaleônica? Doravante, o povo do Xingu
é informado de que se trata apenas de uma Unidade Hidrelétrica
(UHE) e não mais de um Complexo Hidrelétrico. Não
deixa de ser uma mentira deslavada que se propaga sem nenhum pudor, um
artifício empregado propositadamente para ludibriar o povo. Todo
mundo sabe que seria um incalculável desperdício investir
bilhões de reais em uma usina que durante o verão tropical
não tem condições de funcionar plenamente quando
o volume de águas do Xingu diminui. É a estação
em que extensas praias de areia branca e dourada emergem das águas
cristalinas transformando a região numa paisagem deslumbrante.
Mas os barrageiros não se deixam impressionar pela beleza exótica
do Xingu. Já baixaram a sentença e fim de papo. O rio tem
que ser sacrificado! É o preço a pagar! Outras barragens
serão necessárias e estão programadas! Para adiantar
o serviço, a Eletrobrás já dispõe de todo
o "inventário" do Xingu com o respectivo mapa que prevê
os barramentos e as áreas alagadas até acima da cidade de
São Félix do Xingu. Parece tratar-se de estudos clandestinos,
pois não são acessíveis ou revelados ao público,
algo que deve estar levando o carimbo "matéria altamente confidencial"
ou "segredo de Estado". Por que todo esse sigilo?
No mesmo dia 3 de junho de 2007 um cacique Kayapó
subiu num caminhão estacionado na avenida que margeia o Xingu,
pegou o microfone e indagou gritando:
- "O que será de nossas crianças?"
e acrescentou:
"Não permitimos que as sepulturas de nossos
ancestrais vão para o fundo!".
Enquanto empresários e comerciantes defendem Belo
Monte na acalentada esperança de "chuvas de dinheiro"
desabando sobre Altamira e não se preocupam com as consequências
perniciosas para a vida de milhares de pessoas - mormente a população
das baixadas que terá suas casas e propriedades alagadas, enquanto
os membros desse consórcio empresarial abertamente demonstram que
não lhes causa nenhuma inquietação se áreas
indígenas demarcadas e homologadas são alagadas e o povo
ribeirinho prejudicado - enquanto essa gente que em sua grande maioria
veio de outros estados não tem nenhuma dor de consciência
diante de um programado desastre ecológico irreversível,
um índio, até hoje considerado um supérfluo resíduo
da idade da pedra lascada, esse índio discriminado e tratado com
desdém ou desprezo, é quem dá uma lição
a toda a sociedade. Esse consórcio "comercial, industrial
e agropastoril" só pensa em si. Não mantém laços
nem com o passado, nem os estabelece com as futuras gerações,
não se relaciona nem com quem vivia antes nem com quem vem depois.
É uma associação de gente imediatista, interesseira
e egoísta que aposta apenas em lucros fabulosos e declara guerra
a quem tiver a petulância de se opor a sua ambição
e ganância que não respeita nada e ninguém. De repente,
um índio chama a atenção para o direito das futuras
gerações que também querem viver e estabelece ainda
uma ponte com os antepassados, de quem herdamos este mundo que Deus criou.
O índio teve a coragem de alertar para as consequências nefastas
de um projeto megalomaníaco.
À beira do rio, indígenas e não-indígenas
se deram as mãos para selar o pacto de lutar contra a destruição
do rio e da vida:
- Xingu Vivo para Sempre!
Em 1989 os índios se manifestaram, em 2007 insistiram
de novo num grande encontro e mostramo-nos sensíveis ao pedido
de todos os povos indígenas da bacia do Xingu. Por que representantes
da Eletrobrás ou Eletronorte nunca passaram por uma única
aldeia para ouvir os índios a respeito de Belo Monte? Por que não
pediram ajuda de quem realmente entende do mundo Kayapó para manter
contatos com esses povos que são os primeiros a habitar esta terra?
Por que essa discriminação, exclusão, marginalização
dos povos autóctones? Por quê? Nas audiências chamadas
"públicas" não se fala a verdade nem existe real
possibilidade para o povo manifestar as suas dúvidas, fazer indagações
e apresentar críticas. Essas audiências são apenas
parte de um ritual em que os enviados da Eletrobrás ou do governo
recitam o rosário de vantagens e benefícios. Só vantagens!
Só benefícios! Parece terminantemente proibido criar no
povo a sensação de que possa haver alguma sequêla
negativa ou algum dano irreparável.
Se alguém se atrever em insistir e opor-se
ao discurso oficial, a resposta repetida até criar náuseas
é e será sempre:
"É o preço a ser pago pelo progresso!"
"É a exigência do desenvolvimento". Instados a
explicar o que entendem por desenvolvimento e progresso, recusam-se a
responder. Dizem que não vieram para discutir questões "ideológicas".
Fato é que a Eletrobrás sabe o que convém à
sociedade, não ao zé-povinho. Causa realmente espécie
a repetição de slogans, chavões pré-fabricados
não com a intenção de esclarecer, mas de cooptar.
Veja-se o caso da índia Xipaia que está sendo aplaudida
pelo pessoal do Consórcio e filmada afirmando que está a
favor de Belo Monte, porque "o índio está no escuro".
Sei quem é essa senhora. Ela mora há décadas na cidade
e há luz na casa dela desde que a energia elétrica chegou
a Altamira. "CIMI não dá dinheiro! Dom Erwin não
dá dinheiro! Eletronorte dá dinheiro, paga conta! Por isso
somos a favor de Belo Monte!" são frases que foram ouvidas
na aldeia de determinado grupo que se distanciou dos outros povos indígenas
do Xingu e não participou mais de nenhum evento. Que maneira mais
esdrúxula de defender a "UHE Belo Monte", cooptando índios
menos avisados e ainda acenando com vantagens financeiras aos que prometem
defender o projeto. Obcecado pela idéia de acelerar o crescimento
da economia, o próprio presidente Lula identificou como "entraves"
a esta medida a questão dos índios, dos quilombolas, dos
ambientalistas e até do Ministério Público. Considerou
ainda "penduricalhos" os artigos da legislação
ambiental pois estes parâmetros legais estariam travando o desenvolvimento
do país. Por isso a ordem é de desconsiderar ou, pelo menos,
não dar tanta importância a impactos sociais e ambientais.
Caso contrário, o país estaria condenado à estagnação.
Já que são exigidos estudos preliminares no caso de uma
hidrelétrica, o governo encarrega os primeiros interessados no
projeto, os grandes empreendedores, de providenciar os estudos de viabilidade
ou de impacto ambiental e social.
Terão a seu dispor cientistas de sua inteira
confiança que na mais cega obediência aos ditames superiores
corroborarão a tese que já é definida antes do estudo:
- o impacto ambiental e social será mínimo
ou praticamente nulo.
Alega-se: - "O Brasil não
pode esperar!"
Ou alguém pensa que uma dessas empresas esteja
interessada em apontar impactos ou danos sociais e ambientais? Isso equivaleria
a cortar o galho em que estão sentadas.
A pergunta chave é: - A quem
mesmo interessa Belo Monte?
Ao Brasil? Vai melhorar o padrão de vida dos paraenses,
dos xinguaras, do povo de Altamira, Vitória do Xingu, Souzel, Anapu,
da Transamazônica, do Baixo Xingu? A energia, a quem será
destinada? Todos sabemos que serão mais uma vez beneficiadas as
multinacionais que vivem às custas do Brasil com todas mordomias
fiscais e facilidades energéticas. O preço da energia para
a família brasileira é escandaloso, é exorbitante,
mas as empresas transnacionais contam com a benevolência magnânima
dos sucessivos governos. O Pará, a Amazônia é considerada
mera "província" energética, mineral, madeireira,
última fronteira agrícola... Nunca saiu dessa categoria
de "província". A metrópole, o centro nevrálgico
das decisões e deliberações, sempre se encontra alhures!
Pouco interessa à metrópole se os povos da "província"
passam bem ou vão de mal a pior. Algumas migalhas sempre caem,
mais por descuido do que por amor aos pobres.
E os nossos políticos, em vez de questionar
esse sistema iníquo, de criticar estruturas prejudiciais aos povos
da Amazônia, de exigir direitos e "royalties", aplaudem
de pé e não hesitam em apelar até para a terminologia
teológica quando falam em "salvação", "redenção"
da região, do Pará e da Amazônia. Infelizmente nada
entendem da máxima do grande Santo Tomás de Aquino:
- "Gratia supponit naturam" (a graça
pressupõe a natureza).
No contexto da Amazônia, jamais haverá redenção
se a criação for arrasada, destruída, aniquilada.
Aí só vai sobrar a desgraça, o caos, o apocalipse.
No dia 19 de maio de 2008 tive o privilégio de fazer a abertura
do encontro Xingu Vivo para Sempre no Ginásio Poliesportivo de
Altamira. Mais de 600 indígenas, mulheres, homens e crianças,
entraram solenemente no recinto, cantando e dançando, erguendo
suas lanças, bordunas e facões. Quem não se emocionou
quando os índios Kayapó cantaram o Hino Nacional em sua
língua materna! A platéia aplaudiu entusiasmada. Apresentei
todos os caciques das 24 etnias presentes e saudamos os outros participantes
do evento chamando-os por município. O ar foi festivo, animado,
algo excepcional, pois não é todo dia que se vê tantos
indígenas, pintados segundo suas tradições, dançando
de acordo com os seus ritos milenares e cantando num idioma ancestral
enquanto se movimentam num ritmo tão peculiar. Volta e meia, uma
ou um Kayapó levanta para fazer sua dança individual erguendo
um facão ou mostrando borduna e lança, os homens com seus
barítonos volumosos e fortes, as mulheres com vozes elevadas, incisivas,
às vezes até estridentes. A beleza exótica das expressões
culturais comove e impressiona. A juventude, presente nas arquibancadas,
vibra com as danças e aplaude com prolongadas salvas de palmas.
Na manhã do segundo dia continuou a apresentação.
Faz parte do ritual indígena que cada cacique fale, mesmo que repita
argumentos ou opiniões anteriormente já expressos por um
parente. Aliás, todos se entendem como parentes. A procedência
geográfica não conta nem sequer a etnia ou o tronco linguístico
a que pertencem. Todos se tratam de "õbikwa", familiares!
Se um sofre ou é agredido, todos se sentem atacados. Quando se
apresentam, falam primeiro em sua língua materna e depois traduzem,
eles mesmos, a fala para o português. Uns tem mais facilidade de
expressar-se em português, outros não conseguem fazê-lo
de modo correto. Percebe-se a sua alegria, mas muitas vezes também
a angustia ou indignação por causa de alguma decisão
do governo contrária a eles ou do avanço de latifundiários,
mineradoras, madeireiras, garimpeiros para as terras habitadas por eles
desde tempos imemoriais. São muito sensíveis a qualquer
falta de consideração da parte da sociedade envolvente.
Não ocultam a sua decepção. "Já estamos
cansados de ouvir e não ser ouvidos. Já estamos cansados
de escutar ameaças de construção de barragens na
volta grande do Rio Xingu.
Não estamos só defendendo o rio
Xingu, mas os rios da Amazônia: - moradia dos povos indígenas"
reclama um dos caciques.
Debates
e o incidente
Ao término das apresentações foi
composta a mesa de trabalho para os debates. Foram chamados o professor
Oswaldo Sevá Filho, da Universidade de Campinas (Unicamp); o engenheiro
Paulo Fernando Viana Rezende, da Eletrobrás; Roquivan Alves da
Silva, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB); Jean Pierre Leroy,
da Federação de Órgãos para Assistência
Social e Educacional (FASE) e Glenn Switkes, diretor do Programa Latino-americano
do International Rivers Network (IRD). Oswaldo Sevá é conhecido
nosso e dos indígenas. Veio para mais uma vez alertar sobre as
consequências dos projetos hidrelétricos no rio Xingu. Foi
ele quem organizou o livro Tenotã-Mo, lançado em 11 de agosto
de 2005, uma coletânea de artigos de especialistas de diversas áreas
que pretendia provocar um amplo debate sobre as hidrelétricas na
Amazônia. Fui convidado a escrever o prefácio para este livro.
Para nossa total decepção, a Eletrobrás nunca respondeu
às indagações e críticas da parte do mundo
científico. Percebe-se nitidamente a arrogância de alguns
órgãos do governo. Nós apelamos para argumentos,
eles para o "poder", ostensiva e cinicamente manifestado. Entrei
no ginásio já no final da palestra do professor Oswaldo
Sevá. Chegou a vez do representante da Eletrobrás, o engenheiro
Paulo Rezende. Tive a impressão de que não encontrou tempo
para se preparar. Assim optou por uma sessão "Power Point"
como a Eletrobrás costuma fazer quando é solicitada por
prefeitos, vereadores, comerciantes e empresários. Na tela apareceram
números e estatísticas, dificilmente identificáveis
por causa da claridade do ambiente. A platéia começou a
ficar inquieta e reagiu quando o engenheiro desqualificou o professor
Oswaldo Sevá, chamando-o de "desatualizado". As vaias
se tornaram cada vez mais incisivas.
Falei para a professora Mônica sentada
ao meu lado: - "Por que esse homem não pára,
com todas essas vaias?".
Pareciam antes estimular o engenheiro. Alteou a sua voz,
elevando-a a um tom provocador. O engenheiro cumpriu seu papel dentro
do ritual previsto. Nada de admitir que o projeto possa trazer também
conseqüências adversas, irreversíveis. Aulas de pedagogia
não devem constar da grade curricular de uma faculdade de engenharia.
Assim o engenheiro não teve nenhum preparo para lidar com situações
diferentes das que ele conhece no âmbito empresarial. Não
conseguiu envolver a platéia, de modo especial os indígenas
presentes. Perdeu as estribeiras e apelou para a arrogância. Por
que não fez uma exposição mais simples para todo
mundo entender? Por que não dividiu sua palestra em duas partes?
Poderia, se assim o quisesse, falar primeiro das vantagens e dos benefícios
que Belo Monte pode trazer. Em seguida abordaria com sinceridade e simplicidade
as desvantagens, os prejuízos que, sem dúvida, a hidrelétrica
irá causar. Mas nada disso aconteceu. Faltava franqueza e imparcialidade.
O engenheiro transmitiu à platéia a sua convicção
de que, haja oposição ou não, Belo Monte vai sair
de qualquer jeito! Quando após a palestra do engenheiro, o representante
do Movimento dos Atingidos por Barragens, iniciou sua fala dizendo que
os índios irão defender o Xingu para protegê-lo, ressoou
de repente pelo ginásio um terrível grito de guerra. Os
índios se levantaram e ergueram bordunas e facões e, em
seguida, iniciaram uma dança movimentando-se em direção
ao engenheiro. Vi os índios gesticular com facões e bordunas.
Simbolizaram um ataque. Do lugar, onde eu estava, não pude observar
que um dos facões resvalou no braço do engenheiro, ferindo-o.
Quando consegui ficar mais próximo, percebi o corte no braço
direito do engenheiro. Vi também como ele derramou toda uma garrafa
de água mineral sobre o corte que sofreu. A intenção
que teve, foi sem dúvida a de limpar a ferida, mas o resultado
foi uma imensa poça d’água misturada com sangue que
causou a tétrica impressão de que alguém havia sido
esquartejado ou guilhotinado naquele mesmo instante. Inúmeras vezes
esta mesma cena foi repetida nas reportagens de televisão. Sangue
espalhada por toda parte. O engenheiro foi encaminhado para o hospital.
Levou seis pontos e recebeu alta. Padre Renato Trevisan que tem uma larga
experiência com o povo Kayapó, além de falar muito
bem seu idioma, solicitou a um cacique que apaziguasse na língua
Kayapó os espíritos excitados. O cacique pegou prontamente
o microfone e falou a seu povo. Nós, da coordenação
e responsáveis pelo evento, ficamos espantados, muito aflitos e
angustiados ao extremo. Imaginávamos logo a repercussão
do acidente nos meios de comunicação. Havia gente nossa
chorando convulsivamente. Ninguém se conformara com o acontecido.
Tudo estava correndo tão bem, sem sobressaltos. E agora? Afirmo
com toda a ênfase e convicção que o corte com o facão
que o engenheiro sofreu foi acidental. Muito lamentável, sem dúvida,
mas jamais foi tentativa de homicídio, pois se os índios
quisessem matar o engenheiro não o teriam atingido apenas no braço.
Aliás, o próprio engenheiro em entrevista gravada para o
programa "O Fantástico" da TV Globo admitiu que foi um
acidente. Repúdio e rejeito por uma questão de consciência
a afirmação de que a agressão foi premeditada ou
programada. São as forças anti indígenas que mais
uma vez vêm à tona e agora se deleitam no macabro prazer
de sustentar essa tese absurda. A coordenação do evento
veio imediatamente a público e falou do incidente lastimável.
Redigimos uma nota em que lamentamos profundamente o ocorrido. Fui procurado
por jornalistas e dei várias entrevistas a diversos canais de televisão.
Mesmo assim, parte da mídia optou pela divulgação
sensacionalista dos fatos o que engendrou todo tipo de comentário
ao longo dos dias e semanas subseqüentes. Condenaram sumariamente
a Prelazia do Xingu e o seu bispo e as outras entidades coordenadoras
do evento. Pensávamos por alguns momentos até em encerrar
o encontro, julgando que não houvesse mais clima para a continuação,
mas, finalmente, decidimos cancelar apenas a passeata pelas ruas da cidade
de Altamira e substituí-la por uma manifestação à
beira do rio Xingu. No dia 23 de maio, representantes dos povos indígenas
e gente que vive ao longo do Xingu e seus afluentes, gente do campo e
da cidade e representantes dos movimentos sociais se deram mais uma vez
as mãos à beira do rio Xingu. Mais uma vez os índios
discursaram e dançaram. As mulheres com as crianças entraram
n’água para demonstrar como amam o rio e como dependem dele.
Acabou o encontro Xingu Vivo para Sempre, mas não acabou a luta
em defesa desse rio maravilhoso e dos povos do Xingu. Foi lido o documento
final em que os índios fazem questão de manifestar-se como
"cidadãos e cidadãs brasileiras". "Vimos
a público comunicar a nossa decisão de fazer valer o nosso
direito e o de nossos filhos e netos a viver com dignidade, manter nossos
lares e territórios, nossas culturas e formas de vida, honrando
também nossos antepassados, que nos entregaram um ambiente equilibrado.
Não admitiremos a construção de barragens no Xingu
e seus afluentes, grandes ou pequenas, e continuaremos lutando contra
o enraizamento de um modelo de desenvolvimento socialmente injusto e ambientalmente
degradante, hoje representado pelo avanço da grilagem de terras
públicas, pela instalação de madeireiras ilegais,
pelo garimpo clandestino que mata nossos rios, pela ampliação
das monoculturas e da pecuária extensiva que desmatam nossas florestas".
Dom
Erwin Krautler
Adital
"Queremos o Xingu vivo para sempre!"
indígenas
Estados europeus desalmados
A "Diretiva do Retorno" também chamada
de "Diretiva da Deportação ou da Vergonha", da
Comunidade Européia acerca dos extra comunitários ilegais
desmascara uma faceta desumana que a cultura européia sempre teve
e que dificilmente consegue disfarçar. É uma cultura identitária.
Possui dificuldade imensa de conviver com o diferente. Ou o agregou, ou
o submeteu ou o destruiu. Invadiu praticamente todo o mundo conhecido,
subjugando e matando com a cruz e a espada. Foi ela que, nos primórdios
da modernidade, provocou o maior genocídio da história humana,
segundo o historiador Oswald Splengler em seu O declínio do Ocidente.
Onde na América Latina havia 23 indígenas, diz-nos o antropólogo
Darcy Ribeiro, após um século, restou apenas um. Depois
dominou as populações restantes, explorou todos os recursos
naturais possíveis que serviram de base para a industrialização
e seu enriquecimento que são suas injustas vantagem até
os dias de hoje. Atrás de seus feitos comerciais e técnicos
há rios de sangue, de suor e de lágrimas. É uma cultura
montada sobre o poder-dominação. Agora, passando por cima
de vários artigos da Declaração dos Direitos Humanos
de 1948 (quando foi que a respeitaram?) maltratam imigrantes, consideram-nos
criminosos a serem encarcerados, mesmo menores, sem precisar de mandato
judicial, apenas mediante um procedimento administrativo. Prevêem-se
campos de concentração para eles. Esses imigrantes escondem
tragédias em suas vidas. Estão lá porque querem sobreviver
e ajudar a suas famílias que deixaram em seus países.
Vejam a contradição:
- no século XIX os sobrantes do processo de industrialização
europeu, aqueles que poderiam desestabilizar o capitalismo selvagem nascente,
previsto por Marx, foram destinados à exportação.
Não veio qualquer tipo de gente. Tinham primazia
os empobrecidos e os doentes, como meus avós italianos. Todos de
sua leva eram acometidos de tracoma, na época de difícil
cura. Eu mesmo quando criança passei por esta doença bem
como todos de nossa região no interior de Santa Catarina, onde
se situa hoje a Sadia e a Perdigão, conhecidas por seus bons produtos.
No Brasil foram acolhidos com generosidade. Ganharam terras, ajudaram
a construir esta nação e agora, com a riqueza natural com
que Deus nos galardoou, podemos ser a mesa posta para as fomes do mundo
inteiro. As políticas da Comunidade européia de hoje, não
mostram nenhuma reciprocidade. Com ações articuladas, se
revelam cruéis e sem piedade. Relata-nos o príncipe de nossos
jornalistas, Mauro Santayana, no JB de 22/06, que nos anos 80 economistas
e sociólogos norte-americanos e europeus sob o patrocínio
de banqueiros concluíram que era necessário afastar do consumo
4/5 da humanidade, a fim de garantir a gestão do planeta e manter
os privilégios dos 20% de ricos. Os demais deveriam ser marginalizados
até a sua extinção. Parece que o genocídio
está inscrito no código genético deste tipo de gente
que está por detrás de quase todas as guerras dos últimos
séculos. A eles que gostam de cultura como pura ilustração
lhes recordo o que Immanuel Kant(+1804) diz em sua A paz perpétua
(1795). A primeira virtude de uma república mundial é a
"hospitalidade geral", como direito e dever de todos. Todos
estão sobre o planeta Terra, diz ele, e têm o direito de
visitar suas regiões e seus povos, pois a Terra pertence comunitariamente
a todos. Só espíritos anti-cultura ocidental como Francisco
de Assis, João XXIII. Luther King e Madre Tereza podem oferecer
um paradigma que resgate e salve estes Governos da maldição
da vida e da ira divina que pairam sobre ele.
Leonardo Boff
Adital
Exercício
de paciência
O noviço indagou do mestre como exercitar a virtude
da paciência.
O mestre submeteu-o ao primeiro dos três exercícios:
- caminhar todas as manhãs pela floresta vizinha ao mosteiro.
Disposto a conquistar a paciência e livrar-se da
ansiedade que o escravizava - a ponto de ingerir alimentos quase sem mastigá-los,
tratar os subalternos com aspereza, falar mais do que devia -, durante
nove meses o noviço caminhou por escarpas íngremes, estreitas
fendas entre árvores e cipós, pântanos perigosos,
enfrentando toda sorte de insetos peçonhentos e bichos venenosos.
Nove meses depois o mestre o chamou.
Deu-lhe o segundo exercício:
- encher um tonel de água e carregá-lo
nos braços todas as manhãs, ao longo dos cinco quilômetros
que separavam o rio da fonte que abastecia o mosteiro.
O noviço tampouco compreendeu o segundo exercício;
mas, julgando a sua desconfiança sintoma de impaciência,
resignadamente aplicou-se na tarefa ao longo de nove meses.
Chegou o dia do terceiro e último exercício:
- atravessar, de olhos vendados, a corda que servia de
ponte entre o abismo em se encravava o mosteiro e a montanha que se erguia
defronte.
Com muita reverência, por temer estar ainda tomado
pela impaciência, o noviço indagou ao mestre se lhe era permitido
fazer uma pergunta. O velho monge aquiesceu. "Mestre, qual a relação
entre os três exercícios?"
O mestre sorriu e seu rosto adquiriu uma expressão
luminescente:
- "Ao caminhar pela floresta, você aprendeu
a perder o medo da paciência.
Soube vencer meticulosamente cada um dos obstáculos
e não se deixou intimidar pelas ameaças. Agora sabe que,
na vida, o importante não é disputar na pressa quem chega
primeiro. O que vale é chegar, ainda que demore mil anos. Observou
também a diversidade da natureza e dela tirou a lição
de que nem todas as coisas são do jeito que preferimos." "Ao
trazer água do rio, você fortaleceu os músculos do
corpo e aprendeu a servir. A impaciência é a matéria-prima
da intolerância, do fundamentalismo, do desrespeito, da segregação.
A paciência exige humildade, generosidade, solidariedade."
O noviço compreendeu, mas ainda uma dúvida pairava em sua
mente. O mestre o percebeu. "Agora você quer saber por que
atravessar de olhos vendados a corda que nos serve de ponte, não
é?", indagou o velho monge.
E acrescentou:
- "Com a paciência impregnada em seus pés
que trilharam a floresta inóspita; a força impregnada em
seus braços, que aprenderam a servir; agora você fará
o exercício da fé.
Não poderá enxergar, mas confiará
que a corda permanecerá sob seus pés.
Não poderá apoiar-se, mas se entregará
à certeza de que seu corpo é como a água que você
trazia:
- movimenta-se, mas não cai.
Não poderá fugir ao abismo que se abre
abaixo, mas andará convicto de que, do outro lado, há a
montanha sólida a esperá-lo e acolhê-lo. Assim é
o Pai de Amor quando nos dispomos, na escuridão da fé, a
ir ao encontro Dele."
Após uma pausa de silêncio, o mestre
completou: - "Sem fé não há tolerância;
sem tolerância, impossível a paciência."
O noviço dilatou os olhos como que assustado.
"O que foi?", indagou o velho monge. "Mestre, os fundamentalistas
não são pessoas de muita fé? E não se caracterizam
pela intolerância?" O mestre sorriu de modo suave e replicou:
"Os fundamentalistas não têm fé, que é
confiar incondicionalmente em Alguém. O que têm é
pretensão; confiam apenas em si mesmos. Eles são o objeto
da própria fé. Ao atravessar o abismo, você estará
percorrendo o itinerário que conduz do seu homem velho ao seu homem
novo. E o fará para o bem dos outros. E confie, Alguém o
conduzirá pela mão, livrando-o de todos os riscos."
Frei
Betto
Adital
Brasil
- Peregrinação ao santuário do coração
Em Goiás, durante esta semana, milhares de romeiros
viajam dos mais diferentes recantos do Estado em direção
ao santuário do Divino Pai Eterno em Trindade. Nestes mesmos dias,
no sertão da Bahia, o santuário do Bom Jesus da Lapa reúne
milhares de peregrinos, em mais uma Romaria da Terra e da Água.
Também em outros continentes, santuários de peregrinação,
do Cristianismo e de outras religiões, registram grande aumento
no número de visitantes. Em um mundo no qual, cada vez mais, o
sentimento religioso parece rarear e a fé é vista como sentimento
restrito à vida privada, multidões fazem o caminho de Santiago
de Compostela, visitam a Virgem de Lourdes, como também a cada
ano, aumenta o número dos muçulmanos, peregrinos a Meca
e dos hinduístas que visitam as fontes do Ganges, onde, conforme
a tradição sagrada, o céu se encontra com a terra.
Em alguns desses santuários, as autoridades tomam medidas especiais
de segurança para evitar violências e roubos. Em todas as
religiões, as pessoas cumprem rituais de peregrinação,
mas nem sempre, ligam a relação com Deus com a atitude interior
de compaixão e cuidado com a Paz. Desde os tempos da Bíblia,
os profetas chamavam a atenção para ocorrência de
crimes durante peregrinações (Cf. Jr 7 e 23).
É destas profecias que vem as queixas
de Jesus:
- "Minha casa é casa de oração
e fizeram dela um covil de ladrões" (Jo 2, 13 ss) ...
"Este povo me honra com os lábios, mas o
seu coração está distante de mim" (Mt 15, 8).
O próprio Jesus gostava de romarias e fez muitas
peregrinações ao templo, como era o costume religioso do
seu povo; Entretanto, como profeta, ensinou que somos todos chamados a
uma peregrinação permanente e mais radical, não a
um santuário construído de pedras e sim de carne e de amor
que é o sacrário do próprio coração.
Na Bíblia, os profetas insistiram que a principal devoção
querida por Deus é a conversão do coração.
Deus é luz do universo, é maior do que tudo e nenhum de
nossos templos ou santuários pode cabê-lo. Podemos, sim,
ir a santuários, como sinal e expressão de que o queremos
morando no mais profundo de nosso coração.
E esta é a peregrinação
essencial: - ir ao mais íntimo do nosso eu e ali escutar
a sua Palavra e cumprir a sua vontade.
No mundo atual, isso ainda é mais urgente, visto
que a civilização técnica se desenvolveu muito "para
fora" e, cada dia, as pessoas têm mais dificuldade de silêncio
e interioridade.
Mas, Jesus insiste: - "Quando quiseres
orar, entra no quarto íntimo da casa e o Pai que vê o mais
secreto te escutará" (Mt 6, 6).
Esta oração do coração vai
além do culto. É uma atitude fundamental de vida. É
um compromisso de constante transformação interior.
Paulo escreveu aos romanos: - "Não
vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos interiormente"
(Rm 12, 1).
Esta opção de se converter permanentemente
é a caminhada que se faz não com os pés, mas com
o coração e a vida. A romaria do coração precisa
ser alicerçada em uma opção ética de relação
humana e cuidado com a natureza. Ética é uma palavra que
vem do grego ethos (modo de viver) e significa os fundamentos e critérios
do comportamento humano. Muita gente vive um caminho ético, sem
necesssidade de referência direta a Deus ou a alguma religião.
Outras pessoas se colocam no caminho da justiça e da paz por reconhecerem
nesta direção o apelo divino. O gesto de peregrinar é
pessoal, mas a tradição das romarias é sempre comunitária.
A festa é coletiva. A fé e a conversão também
precisam desta abertura ao outro.
Jesus esclarece:
- "se estiveres no santuário para apresentar
tua oferenda e te lembrares que teu irmão tem qualquer coisa contra
ti, deixa ali mesmo tua oferenda e vai primeiro te reconciliar com teu
irmão" (Mt 5, 24).
Sem cuidado com a justiça e reconciliação
com o outro, a oração é inútil. A interioridade
é alimentada pelo cuidado com o outro. Hoje, vivemos em um mundo
no qual as peregrinações são diversas, como são
muito diferentes entre si as culturas, religiões e opções
de vida. Deus nos chama a conviver com estas diferenças e não
somente respeitá-las, como mais ainda: aprender a amá-las
e seguir Jesus Cristo através da comunhão com os outros
diferentes de nós. Nas comunidades cristãs primitivas, costumava-se
dar ao irmão que viajava a uma terra distante um pedaço
de um jarro de barro. Na volta, ele seria reconhecido quando aquele fragmento
fosse reunido aos outros fragmentos e conseguisse formar o jarro. Que
simbolismo bonito e atual. Até hoje, cada peregrino ou peregrina
do Divino viaja, fiel ao pedaço de jarro que carrega consigo. Mas,
deve saber que não tem consigo o jarro inteiro. Tem apenas um pedaço.
Para cada um de nós, o todo, o conjunto, ainda é desconhecido.
O meu pedaço de verdade não é a mistura de tudo.
É um fragmento que precisa do outro para ser compreendido corretamente.
Como a verdadeira divindade, também o mais íntimo do ser
humano é secreto e somente no encontro com o diferente descobre-se
a si mesmo.
Marcelo
Barros
Adital
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