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BRASIL: 26/06/2008
Vida Eclesial
Santo Antonio, São João e São Pedro
Os três santos populares são celebrados
no mês de junho, respectivamente nos dias 13, 24 e 29. Um olhar
histórico sobre o catolicismo português e brasileiro, ainda
que superficial, constará como eles adquirem um caráter
festivo e até folclórico. Basta ver a profusão de
cores, sons, luzes e imagens que marca sua passagem pelo calendário
civil e religioso. A mesma profusão está presente nas mesas
fartas, nos feriados prolongados, nas bandeiras e enfeites e nos fogos
de artifício. Se, de um lado, esse espetáculo evidencia
a dimensão alegre e expansiva da fé popular, de outro, tende
a ofuscar a fisionomia originária das figuras em destaque. Assim,
o rosto de São João corre o risco de diluir-se em meio à
fumaça e ao brilho dos fogos; São Pedro, com sua enorme
chave a tiracolo, pode ser reduzido ao porteiro do céu, ou ao homem
do tempo; Santo Antonio converte-se facilmente num bem sucedido casamenteiro.
Fé e magia acabam tendo seus contornos borrados,
confundindo-se e mesclando-se perigosamente. Nada contra as festas do
padroeiro, as procissões e romarias, as fogueiras e quermesses,
os arraiais e celebrações ao ar livre, as vestes chamativas
e coloridas. Menos ainda contra esse entusiasmo sadio, contagiante e genuíno
de um povo tão rico e variado em danças, coreografias e
manifestações religiosas. Tudo isso é expressão
viva de fé e cultura, embora, não raro, distorcidas ambas
pelos holofotes míopes da TV. Entretanto, para além de tais
festividades comemorativas, por trás desse enorme mosaico de gestos,
sinos, flores e música, no interior mesmo de sua alma calorosa
e múltipla, convém não perder de vista os três
personagens principais das comemorações.
E convém não perder de vista, de modo especial,
a relação profunda de cada um deles com o mistério
da Encarnação e com a Boa Nova de Jesus Cristo. Antonio
é o homem da palavra e do pão. Da palavra, porque sabia
encantar as multidões pela forma como traduzia a novidade do Evangelho
para o povo de sua época; do pão, por seu braço sempre
estendido aos pobres e necessitados. Foi contemporâneo de Francisco
de Assis e, como ele, apaixonado pelas criaturas e pelo Criador. Homem
da palavra e do pão, da pregação brilhante e da eucaristia
como alimento. João é a "voz daquele que clama no deserto".
Ponte entre o antigo e o novo Testamento, elo de ligação
entre a antiga e a nova aliança.
Profeta de poucas e duras sentenças, com o machado
afiado sobre toda raiz estéril, chamado a preparar o caminho do
Senhor. Nas palavras do próprio Jesus, "o maior entre os nascidos
de mulher", um exemplo de fé inabalável. Contraste
vivo com a sociedade atual, em que tropeçamos diariamente com tantas
"canas agitadas pelo vento". Pedro aparece como uma figura,
a um só tempo, rude e espontânea, impetuosa e sincera. Um
dos mais íntimos companheiros de Jesus e o primeiro a ser por Ele
chamado e escolhido, passa pela experiência profunda do amor e da
negação, do reencontro e da reconciliação.
Frágil por sua condição humana e forte pela graça
divina, como Saulo-Paulo, também como este se converte num dos
grandes pilares da Igreja florescente.
Intrépidos e incansáveis nos caminhos da
evangelização, irmanados pelo martírio. Com o olhar
focalizado sobre estas três figuras, extraindo de cada uma a água
viva que brota do próprio coração de Jesus e lhes
anima os gestos, as palavras e as obras, então sim voltamos a esse
tempo junino, de grandiosas comemorações. Tempo de festa
e de gratuidade, simultaneamente religioso e cultural, propicio para encontros
e intercâmbios enriquecedores. Mas nossos olhos devem permanecer
fixos no núcleo central da fé cristã, origem e motor
primeiro do testemunho dos santos, bem como de sua memória celebrativa
e sacramental.
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