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BRASIL: 23/06/2008
Refugiados
Africanos são 80% do total de 3.800 que vivem no pais

Há dois anos em São Paulo, Lomama planeja trazer ao Brasil a mulher e os dois filhos, que ainda estão no Congo. Na data em que a ONU celebra o Dia Mundial do Refugiado, ele ainda tem pouco a comemorar. Lomama-Eyo (nome fictício) é africano e vive em São Paulo. Há dois anos, o engenheiro elétrico foi obrigado a deixar a República Democrática do Congo e sabe que fez o melhor, mesmo deixando a mulher e os dois filhos para trás. Se ficasse, provavelmente estaria morto agora. Lomama era um cidadão comum que ousou se manifestar contra o governo de Joseph Kabila, presidente que assumiu o poder no Congo depois que o pai dele, o guerrilheiro Laurent Kabila, foi morto pelo próprio guarda-costas, em 2001.

Com sua guerrilha, Laurent Kabila havia conseguido, em janeiro de 2001, derrubar o ditador Mobutu Sese Seko, que estava havia 32 anos no poder no país, então chamado Zaire. Em meio a esta longa trajetória de instabilidade política, Lomama, assim como outros manifestantes, foi à rua para pedir democracia. “Eu não tinha partido, só queria me manifestar”, explica, numa sala da Cáritas, em São Paulo, instituição ligada à Igreja que apóia refugiados no Brasil. O pedido por democracia custou caro ao congolês. Ele foi preso e, por pertencer à mesma etnia de um líder oposicionista e ter o mesmo nome deste, foi confundido com um membro da família do militante. Em pouco tempo, foi transferido a um presídio destinado a indivíduos mais perigosos. “De lá, a única saída era ...”- Lomama passa o dedo no pescoço, sinalizando uma degola.

“Quando cheguei, os outros presos já me avisaram:

- se for chamado para conversar, faça sua última prece”, conta.

Clandestinos

Lomama passou por todos os trâmites legais e hoje é um dos 3.800 refugiados que vivem no Brasil, dos quais 80% são africanos, principalmente de Angola, República Democrática do Congo, Libéria e Serra Leoa. Nesta sexta-feira (20), a Organização das Nações Unidas comemora o Dia Mundial do Refugiado. “Muitos vêm como clandestinos em navios mesmo”, conta Liliana Jubilut, advogada e assessora da Cáritas. A entidade chegou a abrir um posto em Santos para atender esses imigrantes forçados. O número de colombianos que pedem refúgio no Brasil também tem aumentado recentemente, devido ao conflito entre o governo, grupos paramilitares e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). “Refúgio não é asilo. O asilo é concedido pelo presidente, normalmente para pessoas dos altos escalões de outros países. Refugiados também não são foragidos.

São pessoas que têm um bem fundado temor de perseguição”, explica a funcionária, que acrescenta:

- “Eles são sempre as vítimas, nunca os violadores dos direitos humanos”.

Os tipos de perseguições que os refugiados podem sofrer incluem aquelas motivadas por raça, religião, nacionalidade, classe social ou opinião política. Nesse último caso se enquadra Lomama, que não pode se identificar porque teme que sua família sofra conseqüências. “Pretendo trazê-los para cá, mas está demorando muito para o governo liberar o passaporte”, explica o congolês. Enquanto a família não vem, Lomama procura trabalho e sobrevive com “bicos”, como ele mesmo diz. “Se nem para os brasileiros, que são os donos desta terra, há trabalho, para um refugiado é ainda mais difícil”, lamenta.

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