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BRASIL: 00/06/2008
Política
Crime de lesa esperança
Todos os povos procedem a revisões de seus muitos
períodos históricos. Rever o passado com os olhos do presente.
É prática sadia. Permite afastar inúmeras conclusões
tiradas sob efeito de emoções imediatas. O calor dos debates
e as circunstâncias presentes, quando os acontecimentos ocorrem,
não permitem a captação plena das personalidades
em cena. As figuras carismáticas e os discursos inflamados contra
erros políticos e administrativos, em determinados momentos, impedem
reflexão. Todas as pessoas se tornam heróis e figuras símbolo.
Durante vários anos, particularmente no período pós
1968, surgiram na cena política brasileira personagens que, pela
sua audácia e coragem cívica, mereceram o respeito de toda
a cidadania. Não importava o ângulo de visão do observador.
Este sempre respeitava aquelas figuras impávidas
que, com a palavra, ações e atitudes, se colocavam contra
o regime de exceção implantado no país. Criaram uma
literatura expressiva. Uma música de combate duradoura. Cenas teatrais
emocionantes. Conferiram exemplos de persistência e abnegação.
Foram exemplo para milhões de jovens e adultos. Alguns sofreram
exílio e tortura. Outros a inaceitável perda da nacionalidade,
mediante a imposição da hedionda pena de banimento. Tornaram-se
apátridas por desejarem uma pátria respeitada. Tantos são
os nomes de oposição neste período da História
que, arrolá-los, seria tarefa árdua. Desnecessária,
além do mais. Alguns poderiam ser esquecidos. Outros comporem a
galeria dos sem méritos. Quem viveu os últimos quarenta
anos cruzou, muitas vezes, com estes atores políticos de emblemáticos
dos movimentos de época.
A presença destas personagens políticas
impunha respeito. Eram heróis vivos. Quantas vezes se ouviram exposições
arrebatadas. Cuidadosamente proferidas em pequenos recintos. Ou então
em debates realizados nos interior de aparelhos clandestinos. Era a consciência
profunda da cidadania que se pronunciava. Merecia silêncio e reflexão.
Mulheres e homens expunham-se para evitar que os valores da liberdade
e da participação fenecessem. Toda esta gente - mesmo que
eventualmente esquecida - integra o patrimônio cívico de
nossa sociedade. Soube resistir e oferecer o melhor de suas consciências
para a preservação de valores cívicos maiores. Foi
assim nos anos mais amargos. Conservou-se, assim, quando se iniciou o
processo de abertura democrática. Timidamente as primeiras vozes
surgiram em público e expuseram-se perante grupos sociais.
Depois, foram os movimentos cívicos de maior extensão,
como o da Anistia e das Diretas Já. Nas praças, as vozes
antes clandestinas tornaram-se públicas. Atingiram multidões
mediante o uso paulatino do rádio e da televisão. Os primeiros
debates, por meio da mídia eletrônica, causaram perplexicidade.
As audiências eram expressivas e as exibições ao vivo,
o que impedia edições manipuladas. Depois vieram as primeiras
eleições diretas para governador. Uma vibração
incontida. Os perseguidos de ontem tornaram-se candidatos. Foram os favoritos
do voto popular. Nos primeiros pleitos, a explosão de votos para
as oposições ao regime autoritário mostrou-se avassaladora.
Surpreendeu os analistas. Levou intranqüilidade ao sistema de poder.
A cada pleito mais favoráveis às oposições
se mostravam os resultados eleitorais. Aqueles que haviam lutado pelo
retorno à democracia eram os vencedores.
O povo saudava os clandestinos de ontem com o voto. Aclamados
como heróis. O tempo passou. Os quadros administrativos foram preenchidos
pelos vencedores de eleições livres. Como acontece em qualquer
democracia. As esperanças populares eram intensas. As expectativas
imensas. A tragédia aconteceu. Com o passar dos anos, muitos daqueles
combatentes da democracia decepcionaram. Passaram a figurar nos espaços
policiais dos veículos de comunicação. O sentimento
pequeno burguês de posse e propriedade mostrou-se mais forte. As
ideologias e as doutrinas foram soterradas pela volúpia de poder.
A ganância superou princípios e ideais. A perda é
imensa. A frustração da cidadania atinge a perplexidade.
Os impolutos das praças públicas tornaram-se peculatários,
no interior dos gabinetes governamentais, ou corruptos no cotidiano. A
sociedade não merecia esta agressão. Os falsos heróis
não podiam agredir as esperanças tão fortemente lançadas
sobre seus ombros.
Praticaram o pior dos crimes: - o de
lesa esperança.
Claudio Lembo
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