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BRASIL: 00/06/2008
Biodiversidade
Raposa Serra do Sol: um lugar de direito Marina Silva
É muito especial para mim estrear no território
dos internautas, por meio de Terra Magazine, a quem agradeço pela
oportunidade. Espero dedicá-la a um bom diálogo com as críticas
e idéias de todos vocês. Também é especial
por acontecer num momento novo, no Brasil e no mundo, que exige conhecimento,
sensibilidade e intuição para identificar, na massa impressionante
de informações que nos chega, a profundidade dos fatos e
processos, a conexão entre passado e futuro, enfim, o nosso espaço
de escolhas reais, sejam individuais ou coletivas.
Faz parte desse espaço uma interpelação
ética da qual não podem fugir nem os países desenvolvidos
nem os em desenvolvimento, entre eles o Brasil. A Amazônia, com
sua incomparável floresta tropical, sua biodiversidade e sua diversidade
social, talvez seja o maior símbolo dessa interpelação.
Para os países desenvolvidos, a pergunta que se faz é sobre
seu passado. Destruíram sua biodiversidade, arrasaram os povos
originários dos lugares conquistados e provocaram, a partir da
revolução industrial, alterações ambientais
tão extensas que levaram à atual crise ambiental global,
em cujo centro estão as mudanças climáticas.
Embora pareça paradoxal, nossa situação
é bem melhor porque somos questionados sobre o futuro. Quando somos
perguntados sobre o passado, estamos diante do quase irremediável.
Sobre o futuro, temos a chance de projetá-lo. Isso implica dizer
o que vamos fazer com nossa biodiversidade, porque temos 20% das espécies
vivas do planeta; com nossos recursos hídricos, porque temos 11%
da água doce disponível, 80% dos quais na Amazônia;
com a maior floresta tropical e com a maior diversidade cultural do mundo.
O Brasil ainda tem cerca de 220 povos indígenas que falam mais
de 200 línguas.
Essa é uma poderosa interpelação
porque permite escolhas e, portanto, exige que estejamos à altura
da oportunidade de optar. A discussão é de caráter
civilizatório, não se esgota em circunstâncias ou
polêmicas pontuais. O Brasil é uma potência ambiental
e humana e não pode se conformar em querer, séculos depois,
a mesma trajetória que fez dos países desenvolvidos, ricos,
porém com graves desequilíbrios ambientais. Nossa meta deve
ser: desenvolvidos, porém por meio de caminhos diferentes.
A diferença está, em primeiro lugar, em
aceitar a interpelação ética a que me referi, sem
tentar lhe dar respostas banais e evasivas. A falsa polêmica em
torno da demarcação da reserva indígena Raposa Serra
do Sol, em Roraima, resume a radicalidade exigida por essa interpelação.
Como ministra do Meio Ambiente enfrentei, ao lado dos ministérios
da Justiça e do Desenvolvimento Agrário, uma situação
no Pará em que um grande grileiro apossou-se de 5 milhões
de hectares na Terra do Meio.
Conseguimos criar nessa área a maior estação
ecológica do país, com 3 milhões e 800 mil hectares.
Vi a Polícia Federal implodir 86 pistas clandestinas usadas para
tráfico de drogas e roubo de madeira. E nunca ninguém disse
que aquele grileiro era ameaça à soberania nacional. Mas
os 18 mil índios de Roraima são assim considerados por alguns
e muitas vezes tratados como se fossem mais estrangeiros do que os estrangeiros,
porque sequer são reconhecidos como seres humanos em pé
de igualdade com os demais.
Um exemplo: o mundo ocidental tem em Jerusalém
um ponto de referência do sagrado para inúmeras religiões
de matriz judaico-cristã. Ficaríamos chocados se alguém
quisesse destruí-la e a defenderíamos como algo que é
constituinte essencial de nossa cosmovisão. No entanto, em relação
à cosmovisão dos índios, acha-se pouco relevante
considerarem o Monte Roraima o lugar da origem do mundo.
Pode parecer, para quem acompanha o caso de Raposa Serra
do Sol, que a criação da reserva indígena foi um
procedimento autoritário e injusto, que desconsiderou direitos
dos não-índios. Não é verdade. A legislação
brasileira define detalhadamente critérios para demarcação.
O contraditório é garantido por decreto, exigindo que sejam
anexados, ouvidos e examinados os argumentos contrários. Manifestam-se
proprietários de terra, grileiros, associações, sindicatos
de trabalhadores ou patronais, prefeituras, órgãos públicos
estaduais e federais, apresentando tudo o que considerem relevante. Por
isso, a demarcação física das áreas leva,
em geral, muitos anos, o que elimina quaisquer possibilidades de açodamento.
Roraima tem cerca de 400 mil habitantes num território
de cerca de 225 mil quilômetros quadrados. A população
rural não chega a 90 mil pessoas, das quais 46 mil são indígenas,
ou seja, 52% do total, ocupando 47% das terras. Raposa Serra do Sol ocupa
7,7% da área do Estado e abriga 18 mil índios. Por outro
lado, seis rizicultores ocupam 14 mil hectares em terras da União.
Em maio último, o Ibama autuou a fazenda Depósito, do prefeito
de Pacaraima, Paulo César Quartiero, por ter aterrado duas lagoas
e nascentes, além de margens de rios, e por ter desmatado áreas
destinadas à preservação permanente e à reserva
natural legal.
Em 1992, quando foi homologada a reserva Ianomami, seis
vezes maior do que a Raposa Serra do Sol, houve muito estardalhaço,
alimentado pela acusação de que isso representaria ameaça
à soberania nacional e grave risco de internacionalização
da Amazônia. Passados 16 anos, a reserva abriga 15 mil índios
em área de fronteira e não se tem notícia de que
tenham causado qualquer dano à nossa soberania e muito menos que
pretendam ser uma "nação indígena" separada
do território brasileiro, como diziam à época os
opositores da homologação.
Estamos perto da decisão do Supremo Tribunal Federal
sobre a demarcação contínua de Raposa Serra do Sol.
Será um grande desafio para a instituição e para
todo o País, num momento que o mestre Boaventura de Souza Santos
chama de bifurcação histórica. Diz ele que as decisões
do STF condicionarão decisivamente o futuro do país, para
o bem ou para o mal. Que esta decisão seja parte da resposta que
devemos dar à interpelação ética sobre nosso
futuro.
ADITAL
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