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EMBRIÃO
HUMANO: sujeito
ou objeto - 10/08/2007
CLONAGEM
E CLONAGEM TERAPÊUTICA:
ALGUMAS QUESTÕES TÉCNICAS NÃO DIVULGADAS PELA MÍDIA
Profa.
Dra. Alice Teixeira Ferreira
Prof. Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos
A clonagem
humana consiste em se retirar o núcleo de um óvulo humano
e substitui-lo pelo núcleo de uma célula de um outro tecido
de uma pessoa a ser clonada. Foi assim que se obteve os clones "Dolly"
(ovelha) , "CC" (gata) e "Marcolino" (bezerro). Para
se ter sucesso foram necessários centenas de óvulos de cada
animal obtendo-se alguns embriões viáveis que foram implantados
em fêmeas, sendo que só uma ovelha, uma gata e uma vaca conseguiriam
levar a gravidez a termo. Com cachorros e macacos tem-se resultado em
monstros. Com camundongos, inicialmente supostamente normais, apresentaram
sérias deficiências e estão todos mortos. A "Dolly"
já apresenta sinais de envelhecimento precoce, pois parece que,
de acordo com a geneticista Dra. Eliane de Azevedo, da célula adulta
da qual se retira o núcleo a ser implantado no óvulo anucleado
leva toda a sua carga de DNA velho, mutado, alterado. A tentativa de clonagem
humana é um fracasso até agora.
No
artigo publicado na conceituada revista científica Scientific American
de janeiro de 2002 (o artigo original foi publicado no J. Regen. Med,
25 de novembro de 2001) e em suas seções de cartas posteriores,
vemos que se conseguiu um conjunto de 6 células, com diferentes
números de Cromossomos:
- constitui
o que se chama de "a fake experiment". O autor de tal feito,
Jose B. Cibelli da Advanced Cell Technology, diz que necessita de pelo
menos 200 óvulos humanos e pretende arranjar fundos para compra-los
de "voluntárias" ao preço de 400 dólares
cada. Para tal é necessário estimular a ovulação
com hormônios, retira-los, quando maduros, por aspiração
por uma sonda introduzida via vaginal e acompanhada por imagens de um
aparelho de ultra-som, de tal modo que a mulher correrá certo risco.
Admitindo que se queira dar utilidade aos embriões humanos excedentes
obtidos na fertilização artificial, que não é
legalmente aceita no Brasil, as células retiradas da blástula
(determinado estágio do embrião humano) tem de ser cultivadas
sobre uma camada de células fetais. No artigo do Science vol 295,
08/03/02, pg 1818-20, as células tronco embrionárias humanas
cresceram sobre uma camada de células fetais de camundongo e estão
pretendendo utilizar células fetais humanas, obtidas da prega gonadal.
Assim ao apoiar
esta linha de pesquisa está-se apoiando o aborto também
pois essas células fetais só podem ser obtidas de fetos
abortados. Na fase de blástula o embrião é uma esfera
oca, possuído num dos pólos um concentrado de células
indiferenciadas, toti-potentes, chamadas células-tronco embrionárias
que originarão os diferentes tecido que constituirão o corpo
humano. São estas células que estão querendo transplantar
para corrigir as lesões tissulares em pacientes com paraplegia,
diabetes, Alzheimer, etc. O resto das células desta esfera constituirão
a placenta. É nesta fase que o embrião se implanta no útero
materno. Histocompatibilidade é a propriedade do tecido aceitar
o transplante do tecido de um doador. Está relacionado com a rejeição.
Por isto estão interessados na clonagem humana: se utilizar células-tronco
embrionárias, que além de serem da espécie humana,
for de um embrião produzido a partir de núcleo celular do
paciente, terá o mesmo DNA deste e portanto não haverá
a rejeição destas células transplantadas.
No caso da
tentativa de clonagem das vacas houve transplante das células tronco
de embriões heterólogos e não houve rejeição,
isto é, houve "pega". Estas células-tronco seriam
sempre histocompativel com o receptor? Os pesquisadores dizem que não
existe tal problema com as vacas, será que com o ser humano é
a mesma coisa? Outro problema, além da rejeição,
seria o risco de surgir cânceres, e o pior deles, o teratoma, decorrente
do fenômeno de diferenciação celular anômala.
É possível acontecer que as células-tronco enxertadas
em um tecido ou órgão doente, em vez de desenvolver os desejados
tecidos normais, venham a desenvolver células cancerígenas.
E esse risco é muito maior quando se utilizam células tronco
de origem embrionária, que nesses casos possibilitam o desenvolvimento
de cânceres bem mais mortais. Os canceres de origem embrionária
não respondem aos tratamentos convencionais. Não se conhece
ainda os fatores que determinam a diferenciação e/ou transdiferenciação
celular.
Na busca de
alternativas éticas para realizar a terapias celulares para doenças
crônico-degenerativas tais como diabetes, lesões cardíacas,
neurológicas, etc, que no futuro substituirão os transplantes,
pesquisadores da UNIFESP - entre os quais a autora desse documento -,
como também os Drs. Antonio Campos de Carvalho, Masako Masuda,
Radovan Borojevic, Hans Fernando Dohmann, Rosália Mendez-Otero
da UFRJ, Ricardo R. dos Santos da FioCruz de Salvador, este último
coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual, estão
estudando a possibilidade do uso das células tronco retiradas de
adultos, levando em conta não só o problema da histocompatibilidade
como o da transdiferenciação. Devido ao risco de cancerização,
a equipe da UFRJ desenvolve atualmente estudos para o tratamento de coração
lesado, visto que o tecido cardíaco parece não apresentar
esse risco (quem já ouviu falar de câncer de coração
?), estudo esse que já apresenta resultados positivos, com dados
já divulgados na revista Época de 6 de maio de 2002 e apresentados
no Seminário sobre Terapia Celular em Cardiologia realizado em
20/09/02, em São Paulo.
Também
desenvolvemos pesquisas de engenharia tissular (área nova que já
vem sendo discutida na revista Nature - volume 414, 01/11/01), com a utilização
de animais de laboratório, envolvendo recuperação
de tecidos nervosos. Para tanto utilizam-se células tronco originárias
da medula óssea (Nature - volume 417, 20/06/02) de animais adultos
isogênicos (animais de uma dada linhagem, produzido por vários
cruzamentos interfamiliares de tal maneira que são praticamente
clones). A técnica consiste na perfusão de femures dos animais
com solução fisiológica. Este material é coletado
e cultivado em garrafas de cultura com meio adequado. As células
que surgem suspensa são elementos figurados do sangue e são
descartadas quando se renova o meio de cultura. É no estroma que
fica aderido à garrafa de cultura que ficam as células-tronco
adultas. Quando se tiver entorno de 106 células estamiais/mililitro,
esta suspensão é injetada, através de uma cânula
ou catéter na região lesada.
Em se tratando
de animais pequenos, como camundongos isogênicos, a suspensão
de células-tronco cultivadas é injetada na artéria
caudal. Devo frisar que, em se tratando de animais isogênicos o
transplante de células cultivadas obtidas de um animal e injetadas
em um outro não tem problema de histocompatibilidade, pois um é
clone do outro, Estuda-se o papel da matriz celular na neoneurogenese
que ocorre no hipocampo lesado com pilocarpina, onde as células-
tronco locais podem substituir as lesadas e refazer as conexões
adequadamente se soubermos que ezimas dessa matriz devem ser ativados
ou inibidos. Essas pesquisas tem demonstrado resultados promissores para
a solução de crises epiléticas, da paraplegia, entre
outros problemas neurológicos. Assim, afirmamos que para reparar
tecidos lesados é possível utilizar outras fontes de células-tronco
que não as embrionárias.
IMPLICAÇÕES
ÉTICAS E ECONÔMICAS
Concordamos
que o embrião, mesmo com algumas horas de existência, já
é um ser humano. A partir desse fundamento, as pesquisas que envolvam
o sacrifício de embriões humanos, eufemisticamente denominadas
de clonagem "terapêutica", são inaceitáveis
pois desvirtuam o próprio sentido da investigação
científica. Aceitamos que existe limites éticos para a pesquisa
científica e admitimos que é legítimo se buscar as
soluções para os males que comprometem a humanidade - paraplegia,
diabetes, Parkinson, etc - e os cientistas devem se empenhar nessa busca,
mas não admitimos, como Jeramy Bentham, que TUDO se justifica para
se atingir a maior felicidade do maior número de pessoas.
Justaponho
à esta idéia de sacrifício de alguns para a felicidade
de todos a outra posição do materialista Sartre:
- é
impossível se fazer o BEM à todos, como ele procura demonstrar
em sua peça "O Diabo e o Bom Deus". Reafirmamos que para
reparar tecidos lesados é possível utilizar outras fontes
de células-tronco que não as embrionárias humanas
e estamos demonstrando com fatos resultante de nossos resultados experimentais.
O Código de Nuremberg (1947) estabeleceu internacionalmente o princípio
ético que não se deve realizar experimentos que envolvam
seres humanos cuja avaliação de riscos e benefícios
não estejam suficientemente comprovadas e mensuradas em pesquisas
pré-clínicas.
Este
código baseia-se na afirmação kantiana sobre a DIGNIDADE
HUMANA:
- o ser humano
não deve ser utilizado como um meio para atingir outro objetivo
que não a sua própria humanidade. Esta afirmativa exclui
categoricamente qualquer instrumentalização de seres humanos
para outros objetivos que não a sua própria existência.
Como este principio de Immanuel Kant norteando a DIGNIDADE HUMANA proibe
a procriação de um embrião humano com o propósito
de pesquisa científica ou médica, no Sexto Congresso Internacional
de Bioética, realizado em Brasilia de 30/10 à 03/11 de 2002
houve muitos discursos ideológicos explorando os justos sentimentos
da população que anseia pela solução de seus
problemas de saúde.
Os debates
foram desde uma re-interpretação da filosofia kantiana até
a categorização do ser humano, que obviamente privilegia
a categoria adulto produtivo tornando descartáveis os embriões,
os doentes, os velhos. Com isto tivemos francas ( para não dizer
descaradas) defesas da eutanásia, da eugenia (seleção
de embriões e clonagem humana) e obviamente da clonagem terapeutica
pelos "filósofos do milênio": Peter Singer, Julian
Savulescu, John Harris, Fermin Roland Schramm. Em suas argumentações
não aceitavam a oposição de fatos, pois eram tão
frágeis que esvaneciam-se frente a realidade de dados expeimentais.
Não
valia para eles o ditado: -
"frente à dados não se opõe argumentos".
Com isto procuraram
criar um clima cultural que favorecesse a condenação de
todos aqueles que levantavam prudentes objeções àquelas
pesquisas que, supostamente, necessitam desses embriões para alcançar
aquelas descobertas científicas tão almejadas por todos.
Estes últimos passaram a ser rotulados de "moralistas retrógrados",
"fundamentalistas" ou "dogmáticos". Assim,
os verdadeiros realistas - aqueles que apenas desejam que todos os fatores
da realidade sejam considerados em prol do benefício de todos -
são apresentados como os vilões da história, pois
estavam engessando a Ciência. Mas a quem, então, interessa
a liberação do uso de embriões humanos nessas pesquisas?
Hoje, no Brasil, podem existir entre 10 a 20 mil embriões humanos
congelados, excedentes dos processos de reprodução assistida.
Essa superpopulação de embriões gera despesas e constitui-se
em um problema sem solução, a não ser que se "legitimize"
- moral e legalmente - seu uso. Pior ainda, "legitima-se" também
o aborto, fonte de embriões e células fetais.
Essa legitimização,
além dos conseqüentes benefícios financeiros para aqueles
que custosamente precisam manter congelados embriões excedentes
e que passariam a ter onde escoar seus estoques, também representaria
um incentivo indireto para a prática da reprodução
assistida, uma vez que deixariam de existir objeções à
utilização dessas técnicas devido ao incômodo
moral ou sentimental da produção dos embriões excedentes,
o que aqueceria o mercado de oferecimento dessas técnicas. E, ainda
pior, não podemos deixar de considerar a catastrófica possibilidade
de se estabelecer - com ou sem o apoio da lei - um mercado de embriões
humanos. O aborto passa também a interessar a um mercado sedento
de embriões e fetos humanos. O desenvolvimento de novas terapêuticas
é desejado.
O século
passado está repleto de relatos de pesquisas que envolveram pessoas
hiposuficientes ou com autonomia comprometida - prisioneiros, etnias desprovidas
de direitos civis, populações miseráveis de países
subdesenvolvidos, etc - que se tornaram público alvo de pesquisadores
(e seus patrocinadores) sem escrúpulos que escolhiam tais grupos
populacionais para constituir os grupos amostrais de suas pesquisas, justamente
porque essas pessoas, nas precárias condições que
se encontravam, não poderiam cobrar dos pesquisadores as responsabilidades
éticas e legais que esses tem para com aqueles que colaboram com
suas pesquisas, principalmente se os resultados não forem bons.
Mais ainda, para os patrocinadores da pesquisa (industrias e/ou governos),
que depois vão deter as patentes e os direitos comerciais dos bons
resultados da pesquisa, interessa a utilização desses sujeitos
que dificilmente saberão ou poderão exigir os seus direitos
de participação nestas patentes.
Nessa lógica
utilitarista, nada mais cômodo que a utilização de
embriões humanos, desprovidos de "identidade civil" e
voz própria para fazer valer seus direitos. O respeito pelo ser
humano nos coloca em oposição aos esforços em reduzir
a vidas humanas ao status de meras ferramentas de investigação,
patentes e produtos industriais. No documento Reflexões sobre a
Clonagem, da Pontifícia Academia para a Vida (L'Osservatore Romano,
n.º 27, 05.07.97) afirma-se, muito propriamente, que "o progresso
da investigação científica não se identifica
com o despotismo científico emergente, que hoje parece tomar o
lugar das antigas ideologias". O mesmo documento afirma que "a
solicitação mais urgente, neste momento, é a de recompor
a harmonia das exigências da investigação científica
com os valores humanos inalienáveis."
Extremamente
pertinente a declaração de Mary Jane Owen, pessoa cega e
paraplégica, diretora executiva do National Catholic Office for
Person with Disabilities no Congresso Americano, em 26/4/2000:
- "Eu
penso que perdemos nosso senso de moralidade e de maravilha sobre a vida
humana. Nos tornamos tão utilitaristas que aparentemente parece
ser apropriado fazermos pesquisas que sacrificamos uma vida futura para
o benefício de alguém. Isto é o que se está
propondo na produção de embriões humanos para propósitos
utilitários, pondo de lado as regras éticas".
E finaliza:
"Eu aqui imploro:
Não
faça isto em nome do benefício das pessoas deficientes,
não justifique a destruição de embriões humanos
na pesquisa de clonagem terapêutica dizendo que vai salvar vidas,
pois tal prática além de imoral é desnecessária".
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