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TURQUIA: 29/11/2006
Cristãos debaixo de fogo
No início do século XX mais
de 30 % dos turcos professavam a religião cristã
Hoje, num país onde após a pregação
do Apóstolo São Paulo nasceram as primeiras comunidades
cristãs, os fiéis das várias Igrejas cristãs
(católicas, ortodoxas, protestantes) são pouco mais de 200
mil (entre 63 milhões de habitantes) e não chegam a representar
sequer 1% da população. Nos últimos 16 meses, 97
cidadãos turcos compareceram em tribunal para responder a alegadas
violações do controverso art. n.º 301.º do Código
Penal turco que restringe a liberdade de expressão. A União
Européia (UE) voltou a pedir recentemente ao Governo turco que
revisse ou retirasse este artigo, que proíbe "insultos à
nação turca", do Código Penal. Após o
pedido de adesão da Turquia à UE, a Comissão Européia
colocou ao Governo de Ankara várias condições prévias,
entre as quais o reconhecimento da liberdade de religião e a necessidade
de alterações legislativas que não sejam discriminatórias
para as minorias religiosas não muçulmanas. O clima de intolerância
para com os cristãos agravou-se desde 2005, especialmente após
a publicação das caricaturas de Maomé nos meios de
comunicação ocidentais. Acusados de praticarem proselitismo
(conversões forçadas) entre os muçulmanos, os sacerdotes
católicos são alvo de difamação pública
e temem pela sua segurança. São cada vez mais freqüentes
os casos de violência contra o clero na Turquia. É neste
contexto de insegurança – que se agravou com a polêmica
em torno do discurso do Papa na Universidade de Regensburg – que
irá decorrer a histórica viagem apostólica de Bento
XVI à Turquia. O convite partiu do Patriarca Grego Ortodoxo, Bartolomeu
I, e foi depois confirmado pelo Presidente da República turco,
Ahmet Sezer.
O Patriarca Ortodoxo manifestou a sua esperança
de que esta viagem venha acalmar as tensões com o mundo islâmico:
"É uma oportunidade para cultivar o diálogo
e para acabar com mal-entendidos". Atenta ao isolamento e às
dificuldades dos cristãos turcos, a Fundação Ajuda
à Igreja que Sofre publicou o relatório "Turquia, entre
a Europa e o Oriente – Cristianismo silenciado", promovendo
igualmente uma campanha de Natal para apoiar os cristãos mais necessitados
na Turquia e nos países do Médio Oriente.
Clero
em perigo
No dia 5 de Fevereiro de 2006, na cidade de Trebisonda,
um jovem muçulmano de 16 anos, influenciado por fundamentalistas
religiosos, matou a tiro o padre italiano Andrea Santoro, à saída
da Missa dominical na Igreja de Santa Maria. O sacerdote italiano trabalhava
há dez anos no país, numa região marcada pelo tráfico
de mulheres para a prostituição. Nas palavras do próprio,
a sua missão na comunidade de Trebisonda era somente a de “ser
uma testemunha do amor incondicional de Cristo”. D. Luigi Padovese,
Vigário Apostólico da Anatólia, explicou que o P.
Santoro, dias antes de ser assassinado, tinha contactado com o Presidente
da Câmara para que o município cuidasse do cemitério
católico que fora profanado.
No mesmo mês, um grupo de muçulmanos
agredia em Esmirna o sacerdote esloveno, P. Martin Kmetec, gritando:
“Daremos cabo de todos vós! Alá é
grande”.
- o P. Pierre Brunissen, de 75 anos, foi apunhalado na
cidade de Samsun, alegadamente por um esquizofrênico e um jovem
atacou um frade capuchinho numa igreja em Mersin, no sul da Turquia. Este
ataque deu-se dentro da igreja, quando o sacerdote ensaiava com um grupo
de jovens uma peça de teatro sobre a Paixão. O atacante
proferiu insultos contra o P. Hanri Leylek e ameaçou-o depois com
uma faca.
Após a morte do P. Santoro, D. Padovese
declarava aos jornalistas no Vaticano:
“O motivo verdadeiro do homicídio do P.
Santoro é a exaltação religiosa, motivada pelo clima
anti-cristão” que se respira na região, “em
família, na escola, nas leituras”. O prelado considera que
“os jornais tentam agravar a situação para mostrar
os cristãos como inimigos do povo turco”. Após a morte
do P. Santoro – cujo processo de beatificação foi
entretanto iniciado pelo Vaticano – outros seis sacerdotes católicos
foram atacados na Turquia. Num país onde no século I o apóstolo
São Paulo pregou e o cristianismo chegou a ser religião
oficial, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre constatou
como os cristãos na Turquia não têm hoje acesso aos
meios de comunicação, sentindo-se cada vez mais isolados.
As várias comunidades cristãs (ortodoxas, católica-caldeia,
católica-arménia e síriocatólica) sentem-se
impotentes perante as campanhas de difamação de que são
alvo e indefesas face ao aumento dos ataques fundamentalistas a sacerdotes
e fiéis. “Nós somos uma realidade sem voz!”,
lamentou numa entrevista o Vigário Apostólico de Anatólia.
Liberdade
Religiosa e UE
Para a entrada da Turquia na União Européia
a Comissão Européia colocou condições ligadas
à defesa da liberdade religiosa por parte do Governo de Ancara:
- o reconhecimento da plena “liberdade de religião”
e “a adoção de uma lei” que remova os obstáculos
que afetam “as minorias religiosas não muçulmanas
e as suas instituições, em conformidade com os elevados
parâmetros europeus”; “suspender a confiscação
e a venda dos bens” das entidades religiosas não islâmicas;
reconhecer e garantir “a efetiva liberdade de pensamento, consciência
e religião, quer para o indivíduo quer para a comunidade,
em conformidade com a Convenção Européia para os
Direitos do Homem”. Como assinala o Relatório 2006: Liberdade
Religiosa no Mundo, publicado pela Fundação Ajuda à
Igreja que Sofre, as confissões religiosas minoritárias
não foram ainda reconhecidas juridicamente pelo Estado e não
existe ainda uma lei sobre o direito de propriedade das comunidades religiosas,
que permita a estas confissões manter as actuais propriedades e
recuperar as que foram confiscadas ao longo dos últimos 70 anos.
Para além da ausência de legislação que defenda
as minorias religiosas – e apesar da Constituição
turca garantir tanto a liberdade religiosa e de consciência como
a liberdade de expressão – a conversão de um muçulmano
ao cristianismo é vista socialmente como uma traição.
Em Março de 2005, o Ministro para os Assuntos
Religiosos, Mehmet Aydin, declarava no Parlamento:
“Os missionários ameaçam a unidade
da nação”, acrescentando que “o objectivo destas
actividades é pôr em perigo a unidade cultural, religiosa,
nacional e histórica do povo turco”, mesmo se, nos últimos
cinco anos, tenham ocorrido apenas 368 conversões ao cristianismo.
“Antigamente, ouvíamos algumas histórias sobre padres
assassinados, mas isso acontecia sempre em países distantes. Nunca
suspeitámos que tal pudesse acontecer aqui, em solo turco. E, no
entanto, a Turquia foi terra de grandes mártires” - Carta
de uma cristã turca, enviada em Abril de 2005 à agência
de notícias católica AsiaNews.
As reformas legislativas introduzidas durante
o regime nacionalista de Kemal Ataturk entre 1924 e 1957 conduziram à
transformação da Turquia num Estado laico moderno:
extinção dos tribunais islâmicos,
expressões religiosas retiradas da Constituição,
símbolos e trajes religiosos banidos em público, atribuição
do direito de voto às mulheres. Um Estado “moderno”
no seio de uma sociedade tradicionalista. Contudo, estas reformas não
são, ainda hoje, aceites entusiasticamente por toda a população
e provocaram o surgimento de um Islã “alternativo”,
ensinado nas madrassas privadas (escolas islâmicas habitualmente
ligadas às mesquitas), que se opõe ao Islã “oficial”,
ensinado nas escolas públicas. Entre os muçulmanos existem
grupos que criticam o Estado por não se ocupar dos assuntos religiosos,
enquanto outros defendem que um Estado “secular” não
consegue seguir o “genuíno Islã”. A partir dos
anos 80, os tradicionalistas começaram a ocupar cargos na função
pública, especialmente nas áreas da defesa e da educação.
O seu peso político é cada vez
maior e o seu objetivo é implementar um regime político
fiel ao Corão:
“A nossa Constituição é o
Corão”, é o seu lema. Na visão dos grupos tradicionalistas
Cristianismo e Ocidente são a mesma realidade e teme-se que a influência
da cultura e do estilo de vida cristão levem o povo turco a adoptar
os costumes ocidentais. Para alguns sectores do nacionalismo islâmico,
a entrada da Turquia na União Européia constitui uma “traição
ao Islã”.
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