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BRASIL: 04/12/2006
Direitos Humanos
Relatório analisa direitos humanos
no Brasil em 2006
No ano de 2006 o Relatório Direitos Humanos no
Brasil chega à sua sétima edição. Mais uma
vez, a obra traz um amplo panorama de temas ligados aos direitos humanos
e mostra que no Brasil os direitos fundamentais continuam sendo violados.
São 29 artigos com dados e análises importantes sobre, por
exemplo, o direito à terra, à educação, ao
trabalho e à justiça social ao longo dos últimos
anos, e especialmente em relação a situação
em 2006. Assim como em 2005, foram motivo de preocupação
as atitudes criminosas e violentas por parte da Polícia Militar,
assassinando, agredindo e humilhando indígenas. “Preocupa,
ainda mais, o acobertamento e a impunidade de todos esses atos da autoridade
policial, mesmo com as denúncias devidamente encaminhadas ao Ministério
Público”, diz o assessor político do Conselho Indigenista
Missionário, Paulo Maldos. Entre os anos de 2005 e 2006, mais de
80 indígenas foram processados criminalmente, de maneira ilegal,
em decorrência de conflitos envolvendo a luta pela terra. Além
desses, só na cadeia de Dourados, no Mato Grosso do Sul, estão
presos cerca de 70 indígenas, condenados pelos mais variados delitos.
“Tudo indica um recrudescimento do preconceito, da criminalização,
do ódio étnico e do absoluto desrespeito aos direitos indígenas
para que tal cenário descrito tenha se constituído, envolvendo
inclusive o sistema judicial e o poder policial”, informa o representante
do Cimi.
Pastoral
da terra
Dados da Comissão Pastoral da Terra, de janeiro
a agosto deste ano, apontam para a manutenção da tendência
de diminuição das ações dos movimentos sociais
e dos números da violência. O número de assassinatos
até final de agosto era 18,37% menor que em igual período
de 2005, quando foram assassinadas 29 pessoas. O número de famílias
expulsas baixou de 2.339, de janeiro a agosto de 2005, para 927, em igual
período de 2006, 60,37% a menos. A ação do poder
judiciário foi menos intensa. Foram 31,41% menos pessoas despejadas
de janeiro a agosto de 2006 e 11.065 famílias, contra 16.131 famílias
em 2005. Já com relação aos trabalhadores presos,
deu-se um salto significativo. De janeiro a agosto de 2006, foram presas
749 pessoas, 351,20% a mais do que em igual período de 2005, 166
a mais do que o total dos anos anteriores. O salto deve-se, sobretudo,
pela prisão dos militantes do MLST (Movimento de Libertação
dos Sem Terra), quando da ocupação do prédio da Câmara
dos Deputados.
Reforma Agrária
No que diz respeito à reforma agrária,
os quatro anos do governo Lula foram marcados pelo esvaziamento da proposta
e da concepção da reforma agrária. De acordo com
o professor José Juliano de Carvalho Filho, “estudos mostram
que as metas do programa de reforma agrária não foram alcançadas
e que os dados de famílias assentadas foram divulgados de forma,
no mínimo, enganosa”. “Os documentos informam que os
assentamentos aconteceram principalmente em terras públicas e na
Amazônia. A política agrária posta em prática
não incomodou o latifúndio e chegou a beneficiar o agronegócio”,
escreve.
Trabalho escravo
O relatório também traz críticas
quanto à luta contra o trabalho escravo. Para o padre Ricardo Rezende
Figueira, membro da coordenação do Grupo de Pesquisa Trabalho
Escravo Contemporâneo da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
se houve atitudes positivas para tentar resolver o problema, “persistem
velhos impasses, como a impunidade, a indefinição de competência
para se julgar os aspectos criminais, e a não aprovação,
até o novembro de 2006, da PEC 438-2001, relativa à perda
da propriedade nos casos de trabalho escravo”. Além disso,
diz, faltam medidas preventivas ousadas de geração de renda
para a população mais vulnerável ao aliciamento e
implementação de medidas eficazes de reforma agrária.
Barragens
A situação vivida pelos atingidos por barragens
também está no livro. Segundo Leandro Gaspar Scalabrin,
membro do Setor de Direitos Humanos do Movimento dos Atingidos por Barragem
(MAB), a descaracterização da organização
perante a opinião pública tem sido uma das táticas
utilizadas pelos grandes grupos econômicos contra o MAB, a partir
do momento em que o movimento passou a denunciar o modelo energético
brasileiro, onde o consumidor residencial paga sete vezes mais caro o
preço do KWH (kilowat/hora) do que as grandes empresas. “A
criminalização aumentou depois que o MAB passou a denunciar
os aumentos abusivos no preço da energia (mais de 400% nos últimos
10 anos) e que a população brasileira e os atingidos por
barragens têm pago a conta dos impactos sociais e ambientais das
hidrelétricas que estão sendo construídas para beneficiar
grandes empresas energo-intensivas.”
Educação
O livro mostra que, em relação à
educação, tudo indica que no ano de 2007 permanecerão
excluídas para fim de recebimento de recursos as matrículas
da educação infantil; ensino médio e também
ensino fundamental para as pessoas com mais de 14 anos que o Fundeb (Fundo
de Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica) permitiria contemplar. “De acordo com o Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão responsável
pelo permanente processo de avaliação do programa Brasil
Alfabetizado, o baixo impacto da iniciativa demonstra que não está
suficientemente focalizada no seu público-alvo a parcela da população
que registra analfabetismo absoluto”, escrevem Sérgio Haddad
e Mariângela Graciano, da Ação Educativa. “Para
o exercício de 2006 o MEC definiu como prioridade para o estabelecimento
de convênios os planos pedagógicos que contemplem integração
com iniciativas para a continuidade dos estudos e que atendam segmentos
sociais específicos. Dos 60 mil pescadores artesanais estimados
pelo MEC em situação de analfabetismo absoluto, 6.045 (10%)
freqüentavam o programa em 2006. Dos 10 mil catadores de material
reciclável, 2.013 (20,1%) participavam. Apenas 1.356 (9%) dos 15
mil quilombolas e 3.238 (10,8%) das 30 mil pessoas privadas de liberdade.”
Tráfico de pessoas
O tráfico de pessoas é outro tema presente
no Relatório. A antropóloga Márcia Anita Sprandel
traz dados da publicação Trafficking in Persons Report/2006,
do Departamento de Estados dos EUA, analisando que o Brasil é descrito
como um país onde mulheres e meninas são traficadas para
exploração sexual, tanto internamente quanto para América
do Sul, Caribe, Europa Ocidental, Japão, Estados Unidos e Oriente
Médio. “O documento afirma que aproximadamente 70 mil brasileiros,
em sua maior parte mulheres, se prostituem em países estrangeiros,
muitos como vítimas de tráfico. O principal problema do
Brasil, no entanto, seria o pequeno número de condenações
de traficantes de pessoas”, diz a pesquisadora.
Outro tema preocupante
presente na obra este ano é a extração de urânio
em Caetité
Municípios do sertão baiano estão
sofrendo com os nocivos impactos sócio-ambientais causados pela
Indústrias Nucleares do Brasil – INB, responsável
pelo Complexo Mínero-industrial Lagoa Real/Caetité, que
produz urânio para as usinas nucleares brasileiras. “Os sertanejos
vêem com preocupação a política energética
brasileira anunciar a reativação do programa nuclear, inclusive
com a construção de usinas no Nordeste”, avalia a
jornalista Zoraide Villasboas, do Movimento Paulo Jackson Ética,
Justiça, Cidadania. “Mais de uma dezena de ‘eventos
nucleares usuais’ e várias paralisações, que
podem somar mais de dois anos de inatividade, desnudam os desafios técnicos
e administrativos que a INB vem enfrentando para operar com segurança
e lucratividade. Mais que isto, alimentam as dúvidas quanto à
competência científica da empresa para lidar com produto
tão perigoso”, escreve.
O professor Marcio Pochmann, do Instituto de Economia
da Unicamp, escreve sobre o desemprego no país. Ele avalia que,
enquanto permanecer baixo o ritmo de crescimento econômico, o Brasil
tende a se especializar na produção e comercialização
de bens de baixo valor agregado, contido conteúdo tecnológico
e dependente do reduzido custo da mão-de-obra. “Nesse sentido,
o crescimento da atividade econômica pode demandar mais trabalhador,
porém o perfil dos ocupados tende a estar associado à baixa
remuneração e às precárias condições
de trabalho, nem sempre acessíveis à mão-de-obra
de escolaridade e qualificação profissional superiores.”
Para Pochmann, é preciso que a economia nacional cresça
pelo menos 5% ao ano somente para absorver os 2,3 milhões de pessoas
que anualmente ingressam no mercado de trabalho. “Sem isso, a competição
no interior do mercado de trabalho, mesmo para postos mais simples, termina
levando à queda salarial e ao desemprego em massa.”
Migrantes
e trabalhadores na cana-de-açúcar
Migrantes e trabalhadores na cana-de-açúcar também
são temas da obra. O Serviço Pastoral do Migrante estima
que haja entre 150 e 200 mil bolivianos em situação irregular
na Grande São Paulo. A maioria, mais de 90%, trabalha em pequenas
confecções de propriedade de coreanos, brasileiros e de
outros bolivianos. “São jornadas de até 18 horas diárias,
sendo que os imigrantes recebem 30 centavos por peça costurada.
O local onde trabalham, e geralmente vivem, são escuros, úmidos,
totalmente insalubres. Muitos passam a ter problemas respiratórios
e tuberculose”, escrevem Luis Bassegio e Luciane Udovic. A professora
Maria Aparecida de Moraes Silva, da Unesp, faz uma análise sobre
o trabalho na cana-de açúcar. Ela informa que a maioria
dos trabalhadores na cana é constituída de migrantes, provenientes
dos estados do nordeste e do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. “Quando
migram, em geral, são trazidos pelos gatos, viajam em ônibus
clandestinos e, em alguns momentos, são submetidos às condições
análogas às de escravo, segundo denúncias da Promotoria
Pública.
Do Ministério do Trabalho e da Pastoral do Migrante,
veiculadas pela imprensa local e regional, nacional e até mesmo
internacional”, diz. De 2004 a 2006, a Pastoral do Migrante registrou
17 mortes, ocorridas supostamente em função do desgaste
excessivo da força de trabalho. Segundo a professora, depoimentos
de médicos mostram que a sudorose, provocada pela perda de potássio,
pode conduzir à parada cardiorrespiratória. Outros casos
se referem à ocorrência de aneurisma, em função
de rompimento de veias cerebrais. Dados da Delegacia Regional do Trabalho
de São Paulo dão conta de 416 mortes de trabalhadores rurais
do setor sucroalcooleiro em 2005. Segundo o professor Francisco Alves,
do departamento de Engenharia de Produção da Universidade
Federal de São Carlos, essas são mortes em decorrência
do excesso de trabalho. As políticas internacionais e os direitos
humanos são os destaques do último capítulo do Relatório
Direitos Humanos no Brasil 2006. Estão ali análises sobre
os programas de crédito fundiário do Banco Mundial no Brasil,
as dívidas interna e externa e os impactos para os direitos humanos
e as conseqüências para o continente da militarização
no Paraguai.
CIMI
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