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BRASIL: 03/10/2006
Educação
RESERVAS DE VAGAS NAS UNIVERSIDADES PROJETO
DE LEI N.º 73-B, DE 1999 (DA DEPUTADA NICE LOBÃO – PFL-MA)
A Comissão de Educação e Cultura
da Câmara dos Deputados promoveu no dia 26/4/2006, uma audiência
pública para discutir o Projeto de Lei 73/99, que cria o sistema
de reserva de vagas para universidades públicas baseadas no desempenho
dos alunos no Ensino Médio. O substitutivo do deputado Carlos Abicalil
ao projeto original destina 50% das vagas para quem cursou o Ensino Médio,
em escolas públicas, reservando um percentual para alunos negros,
pardos e indígenas, de acordo com a participação
dessas etnias no conjunto da população de cada estado. O
substitutivo foi aprovado em três comissões permanentes da
Câmara e já poderia ter seguido para o Senado, por ter sido
aprovado, em caráter conclusivo. Um requerimento do deputado Alberto
Goldman, aprovado em Plenário, solicitou que o projeto fosse discutido
e votado em Plenário. O Colégio de Líderes entrou
em acordo para que houvesse uma audiência pública para ouvir
especialistas sobre a questão.
O Deputado Abicalil acredita que o único objetivo
do recurso foi retardar a implementação de reserva de vagas.
Enfatiza que os argumentos contrários para adoção
do sistema de reserva de vagas, como o que privilegia a questão
do mérito, já foram desmontados por pesquisas nas universidades
que já adotam o regime (a UFBA, UERJ, por exemplo). O Ministro
da Educação e a Ministra da Secretaria Especial de Promoção
da Igualdade Racial (Seppir), professores universitários e líderes,
os Conselheiros da Seppir, Estudantes da Educafro, MSU, professores e
assessores dos diversos Ministérios estiveram presentes. Representavam
opiniões divergentes. Foi debate muito bom e caloroso. O projeto,
após a audiência, foi encaminhado para a votação
na Câmara no mês de maio. Muito trabalho ainda por fazer,
para desfazer o que a imprensa publica de negativo.
Algumas
Considerações
1 – A participação da Comunidade
Negra foi muito boa. Os ouvintes convidados: a EDUCAFRO (muitos animados
e participantes), MSU (bastante participante, foram até expulsos
pelos seguranças, a pedido do Deputado Goldman), Conselho do Negro
do DF; Instituto Pe. Batista, Pastoral Afro-brasileira da CNBB.
2 – A fala do Ministro da Educação
foi favorável. Ele declarou que, antes de ser Ministro, era contra
as cotas. Agora, como Ministro, tendo conhecimento dos resultados positivos
dos cotistas nas Universidades, é favorável. Idem a Ministra
da Seppir, favorável às cotas e contra toda forma de racismo
que é gerador de desigualdades. O Dr. Fábio Konder Comparato
fez uma belíssima defesa a favor das cotas; falou da igualdade
proporcional, que o combate à exclusão não elimina
o racismo. É necessário levantar a dignidade do povo negro.
Outros a favor: Valdélio Santos Silva (UNEB); Dr Hédio Silva
Jr (PUC/SP); Renato Pedrosa (CONVEST/UNICAMP); Ivonne Maggie (UFRJ); Gustavo
Lemos Petta (UNE); Renato Ferreira (LPP/UERJ). Contra: Eunice Duran (USP);
Timothy Mulholland (UNB); Demétrio Magnoli (Jornalista). Foi um
debate de alto nível e aprendemos a escutar os que são contrários.
O sistema de reservas de vagas é a representação,
isto é, a visibilidade dos grupos excluídos em ambientes
onde eles não podem entrar.
3 – Atualmente 24 Universidades têm projeto
de reserva de vagas (9 delas, federais; 15, estaduais). A primeira turma
de alunos que ingressou na universidade por um sistema de reserva de vagas,
em 2003, se forma no final deste ano. O acompanhamento de alunos feito
na UFBA mostrou que não houve diferenças em relação
ao restante da turma, tanto na pontuação da seleção,
quanto nas avaliações durante as aulas. Relacionada à
questão do mérito está a reinvidicação
por igualdade dos grupos historicamente excluídos do acesso ao
Ensino Superior e igualdade de condições.
4 - As medidas afirmativas são instrumentos para
apressar a inclusão dos grupos desfavorecidos, jamais haverá
solução para as desigualdades. Não significa que
os alunos cotistas entrarão sem passar no vestibular.
5 – Devemos derrubar muitos mitos sobre as cotas,
tais como:
Introduz uma característica de distinção
racial extremamente perigosa;
Baixam o nível acadêmico das nossas universidades;
A sociedade brasileira é contra as cotas porque constituem
uma medida inócua, porque o verdadeiro problema é
a péssima qualidade do ensino público do país;
As cotas não podem incluir critérios raciais ou
étnicos devido ao alto grau de miscigenação;
Favorecem aos negros e discrimina mais aos brancos pobres;
Vão fazer da nossa, uma sociedade racista;
São inúteis porque o problema não é
o acesso, senão a permanência;
São prejudiciais para os próprios negros, já
que os estigmatizam como sendo incompetentes e não merecedores
do lugar que ocupam nas universidades.
6 – Faz-se necessário esclarecer que não
é só a cota, queremos para todos um ensino de qualidade;
escola para todos; educadores bem remunerados; ensino infantil, fundamental
e médio, de qualidade. Superar a desigualdade porque 75% dos negros
e 55% dos brancos, não concluem o segundo grau. O debate não
é racismo e não-racismo. Ter coragem ativa para superar
os preconceitos. Ser homem, mulher, negro ou indígena no Brasil
é um enfrentamento de questões. É preciso garantir
a permanência na universidade através de bolsa e pesquisa.
Divulgar mais as práticas que existem em relação
às cotas, pré-vestibulares, interajudas. Temos que ter a
esperança de um Brasil diferente.
7 – Precisamos aproveitar a ocasião das
eleições para participar de debates com candidatos/as negros/as.
Temos que derrubar o mito: “No Brasil, negro não vota em
negro”. Falar do que acontece de positivo e louvar pela luta do
povo organizado, que quebra as barreiras que o impedem de vencer:
Eletrosul – Centrais Elétricas S.
A. lançou no dia 12/4 um concurso público com reserva
de 20% de vagas para candidatos afro-descendentes e 5% para pessoas
com deficiências.
O Banco Itaú está capacitando 52 jovens funcionários
negros/as, visando sua formação como futuros executivos
juniores do Banco. São cursos ministrados pela UNICAMP;
A primeira indígena a chegar ao doutorado no Brasil é
Maria das Dores de Oliveira. Tirou nota máxima, com louvor,
na Universidade Federal de Alagoas, defendendo a tese na área
de lingüística, sobre o povo Ofayé. Esse povo
está em extinção, só restam onze pessoas
da tribo. Ela chegou ao doutorado porque foi beneficiada por um
programa de Ações Afirmativas.
8 – Frases que estavam no plenário da audiência,
na Câmara dos Deputados:
Não importa a cor. Não importa
a raça. Só queremos dignidade. Direitos na nossa
Pátria.
Os 300 anos de escravidão, já não foram suficientes?
Por que exclusão?
Assinaram a abolição, esqueceram a inclusão.
Chega de escravidão. Todo negro tem direito à educação.
Fonte: Pastoral Afro-brasileira
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