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BRASIL: 03/10/2006
Educação
PROFESSORES APROVAM SISTEMA DE COTAS
Renata Cafardo
Pouco mais da metade dos professores de quatro universidades
públicas pioneiras no sistema de cotas raciais aprovam a iniciativa.
O índice sobe para 66% quando os entrevistados são apenas
os que deram aulas a alunos cotistas. A pesquisa é a primeira que
mostra a opinião dos professores e retrata os três anos das
políticas afirmativas em instituições do País.
Ela foi realizada pelo Programa Políticas da Cor do Laboratório
de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (Uerj). Além da Uerj, foram ouvidos profissionais da Universidade
de Brasília (UnB), Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e Universidade
Federal de Alagoas (Ufal). No total, foram 557 professores. Para 73,7%
deles, o desempenho nas aulas dos estudantes que ingressaram pelas cotas
é bom ou muito bom. E apenas 10% deles acham que o nível
acadêmico da instituição piorou depois da iniciativa.
"Isso acaba com o medo de estarmos abrindo a porta para estudantes
mal preparados", diz o pesquisador responsável pelo estudo,
José Luis Pretruccelli.
Os
cotistas
"Os cotistas me motivam mais ainda. A atitude e
o esforço são visíveis, eles se apegam à chance
que tiveram", completa o professor da Uerj e jurista Luis Roberto
Barroso, que dá aulas no curso de Direito. Para ele, no entanto,
as cotas deveriam ser apenas uma solução transitória.
"A justiça social só se consegue com igualdade de oportunidades
desde o ensino fundamental." A pesquisa mostrou também que
a aprovação ao sistema de cotas muda conforme o curso. Os
índices são maiores entre as áreas menos concorridas
e que já têm mais estudantes negros e carentes, como História
e Pedagogia. Nessa última, 74,7% dos professores se dizem favoráveis
às cotas. Em Medicina, ocorre o inverso: 70,1% são contra.
"Os professores que trabalham com a classe média e alta estão
mais insensíveis à questão", acredita o diretor
da ONG Educafro, frei David dos Santos, que mantém cursinhos comunitários.
"Tenho amigos que fazem Direito, Medicina e Engenharia
e os professores entortam um pouco a cara. Mas nos cursos não elitistas
acho que fomos muito bem aceitos", diz o cotista e estudante de História
na Uerj Paulo Roberto Valdemiro, de 38 anos, que é o primeiro de
sua família a cursar ensino superior. A Uerj foi a pioneira no
País a instituir o sistema de cotas, que teve várias regras
mas, desde 2003, oferece 20% das vagas para negros, 20% para alunos de
escolas públicas e 5% para indígenas e pessoas com necessidades
especiais. A UnB também iniciou sua política afirmativa
em 2003, com reserva de 20% para negros e 10 vagas para indígenas.
Hoje, há quase 2 mil estudantes cotistas na UnB, a primeira universidade
federal a adotar cotas.
Clima
hostil
Segundo o professor e autor do programa de cotas na UnB,
José Jorge de Carvalho, ainda há um "certo clima hostil
entre os estudantes" por causa do sistema de cotas. "Quem é
cotista não gosta de falar sobre isso na aula", diz. "Geralmente,
alunos que entraram pelo sistema convencional acham que as cotas não
vão resolver o problema da desigualdade, mas nós sabemos
que era preciso fazer alguma coisa urgentemente", conta a estudante
de Administração Laura de Araújo Mercês, que
ficou em primeiro lugar do curso na Uneb em 2003, quando a instituição
iniciou o sistema de cotas. Apesar dos relatos, a pesquisa mostrou que
77% dos professores acreditam que as relações raciais na
universidade permaneceram iguais depois das cotas. Os dados mostram também
que quase 80% deles acha importante ou muito importante que haja diversidade
racial nos cursos universitários. "Nossas salas de aula ainda
são muito homogêneas, não são uma fotografia
da nossa sociedade", diz Carvalho. As cotas, como obrigatoriedade
nacional, são objeto de vários projetos de lei no País.
O mais adiantado deles é o PL 73/99 que chegou
a ser aprovado em comissões na Câmara, mas acabou sendo encaminhado
também para o plenário e aguarda votação.
O texto fala em reservar 50% das vagas das universidades federais para
estudantes de escolas públicas e sub-cotas também para negros
e índios, conforme a porcentagem dessa população
nos Estados. As cotas foram previstas na Reforma Universitária,
preparada pelo MEC, mas agora o governo preferiu apoiar o projeto que
já tramita na Câmara. São hoje no País cerca
de 30 instituições de ensino superior que têm ações
afirmativas, a maioria delas com sistema de cotas. Em São Paulo,
apenas a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) adotou a reserva
de vagas em seu vestibular. A Universidade de São Paulo (USP) aprovou
na semana passada um sistema que dá bônus nas notas de estudantes
de escolas públicas, mas não favorece negros. O sistema
lembra o adotado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas
lá há pontos também para negros e índios.
Colaboraram: Biaggio Talento e Clarissa
Thomé
Fonte: www.acaoeducativa.org.br
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