Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Madeleine Delbrêl
a apóstola das ruas

por Ana Maria Pisani

UMA MULHER ESCOLHIDA POR DEUS


Madeleine Delbrêl

"Nós, o povo das ruas,
acreditamos que esta rua, que este
mundo, onde Deus nos colocou,
é para nós o lugar de nossa
santidade"

adeleine Delbrêl nasceu em 24 de outubro de 1904 em Mussidan, cidadezinha da França, filha única, de uma família da pequena burguesia. Herda do pai dinamismo, senso de organização e o dom da comunicação; da mãe, sensibilidade, firmeza e charme cativante.

A carreira de ferroviário, do pai, faz a família viver como nômades, sendo sua educação confiada a professores particulares. Iniciada no cristianismo, na adolescência é influenciada pelos ambientes literários e filosóficos em que o pai a introduz, deixando-se seduzir pelo ateísmo e positivismo.

As conseqüências desastrosas da Primeira Guerra Mundial levam-na a duvidar da existência de Deus.

Com apenas 17 anos, refletindo sobre as questões existenciais, escreve:

“Alguém disse: ‘Deus está morto!’.

E, se é uma verdade, devemos ter a honestidade de não mais viver como se Ele estivesse vivo... Deus era eterno, hoje apenas a morte é eterna... é mais conveniente esgotar a própria inquietude na infindável seqüência dos prazeres imediatos...”. Assim, dança, brinca, vive com intenso amor pela vida; é livre, loucamente livre. Passa a fazer cursos de História e Filosofia na Sorbonne, onde se destaca pela profunda capacidade de análise. Aos 18 anos, conhece Jean Maydieu, impetuoso universitário, dinâmico e pensativo, alegre e profundo.

Apaixonam-se e planejam casar-se. Subitamente, ele a abandona e entra no noviciado dos Dominicanos. O caráter misterioso do encontro e da ruptura, faz Madeleine confrontar seu ateísmo seguro com as certezas cristãs de Maydieu. Ela quer entender a força que o atraiu para a vida sacerdotal. Adoece, seu pai fica cego e sua mãe trabalha demais.

Interroga-se: “por que tanto sofrimento? Como alguém pode preferir Deus acima de tudo?”.

E, na busca tenaz da verdade, resolve mudar de perspectiva:

“E se acaso Deus existe?... Decidi rezar... Depois, refletindo, encontrei a Deus; rezando, senti que Deus se encontra comigo e que Ele é real e vivo, que pode ser amado como se ama uma pessoa”. Então, começa o seu caminho de conversão. “... o mundo inteiro me parecia pequeno e irracional e o destino dos homens estúpido e mau. Quando soube que vivias, fiquei grata a Ti por me teres feito viver...”.

Assim, seu encontro com Maydieu não fora uma atração superficial, mas o sinal de uma convergência muito mais profunda: ele, atendendo à sua vocação, levou Madeleine a compreender, pouco a pouco, o seu chamado. Madeleine considera a idéia de consagrar-se totalmente a Deus no Carmelo.

Porém, o agravamento de problemas familiares e os conselhos do seu guia espiritual, fazem-na entender que os planos de Deus eram outros: uma consagração total sem se retirar do mundo; ao contrário, deveria mergulhar até o fundo, “com os pés enfiados na lama”, para poder encontrá-lo no próximo que caminha pelas ruas da cidade, como sua companheira de viagem.

RUAS DA CIDADE, CAMINHOS DE DEUS

Madeleine começa a se engajar em atividades paroquiais e, com um grupo de moças, se coloca a serviço dos mais pobres.

Persegue um sentido mais fundamental para si: reza muito e dedica-se a viver o Evangelho e as beatitudes. Escolhe o celibato para viver um amor exclusivo a Deus, porém como leiga, porque “se sente chamada a viver plenamente submissa à Sua vontade e inteiramente flexível e disponível sob o impulso do Espírito Santo”. Estuda Serviço Social para melhor cuidar dos outros, e, com suas amigas, resolvem viver em comunidade, sem serem religiosas.

Querem uma vida realista, com pobreza de meios, unidas a Jesus, trabalhando no bairro, vivendo a caridade fraterna, a oração, a solidão, a humildade. “Que a nossa comunidade esteja ligada à Igreja como a linha numa roupa, de uma forma invisível. É a caridade e o amor que mantêm as partes unidas”.

Trata-se de uma idéia arrojada e inovadora e até profética: leigas consagradas, inseridas no mundo e livres de estruturas rígidas. Susana, Helena e Madeleine começam a vida comunitária em 15/10/1933, em Ivry, pólo industrial ao sul de Paris, cidade declaradamente comunista, imersa em problemas como tuberculose, alcoolismo, desemprego. Elas querem “testemunhar que a caridade de Jesus não tem a intenção de parar no meio do caminho”; querem a liberdade de viver lado a lado com o povo, participando das atividades pastorais da paróquia; querem encontrar, ouvir e cuidar dos doentes e desesperados.

Madeleine, com sua capacidade de diálogo aberto e leal, consegue aproveitar ocasiões de encontro com os militantes comunistas e, como assistente social, envolve-se com eles nos trabalhos sociais da cidade. A generosidade, coragem, dedicação e eficácia deles causam-lhe admiração e quase tentação. Mas, profundamente fiel ao Evangelho, rejeita a ideologia e o ateísmo ativo. E, aos que a criticam sobre a sua perigosa convivência com os comunistas, retruca: “Jesus nunca disse: ‘amarás teu próximo como a ti mesmo, exceto os comunistas!’; e... meu próximo imediato são os comunistas...”.

Além disso, o seu testemunho de fé e caridade, firme, incansável, conquista a estima e o respeito de todos que a conhecem e a sentem como uma verdadeira irmã e amiga. No período da Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra, seu apostolado não se limita às obras sociais. Madeleine é muito sensível à miséria espiritual de tantas pessoas, privadas de toda referência a Deus.


"Jesus não nos deixou a
obrigação de 'converter', de
transmitir a fé - está é uma
missão que Ele se reserva.
O único testemunho que
Ele exige da nossa vida é que
nós nos amemos entre nós.
Sem este amor, os homens
não nos reconhecerão como
seus mensageiros.
O apostolo que Jesus nos
deixou é o de anunciar a fé,
repetir e proclamar aquilo
que acreditamos,
que Ele nos ensinou.
Não somos responsáveis
pela incredulidade do nosso
próximo, mas somos
responsáveis pela
sua ignorância ..."

Madeleine Delbrêl
(Conferência aos Estudantes
UNESCO - 1961)

Por isso, envolve-se, de corpo e alma, com os esforços da Igreja na busca de novos métodos e caminhos para a evangelização. Apóia e acompanha a experiência dos padres-operários, que levam Cristo aos mais oprimidos e explorados, vivendo e compartilhando dos seus dramas.

O AMOR FAZ DA VIDA UMA FESTA

Para Madeleine, a oração é uma ação e a ação é uma oração:

“Parece-nos que a ação perfeitamente realizada onde é exigida de nós, nos insere em toda a Igreja, nos difunde em todo o seu corpo, nos torna disponíveis nela. Nossos passos seguem numa rua, mas nosso coração bate no mundo inteiro. Cada pequeno ato feito com amor nos faz encontrar a Deus, numa grande liberdade de espírito. Então, a vida é uma festa!”.

Somente a sensibilidade de uma mulher totalmente imbuída de Deus pode chegar a uma conclusão tão simples e genial: o amor simplifica o que é difícil e facilita o que parece humanamente impossível. Por isso, Madeleine vive sua missão com tanto entusiasmo, desprendimento e dedicação. Consegue encarnar-se na situação existencial das pessoas, caminhando ao seu lado, pregando o Evangelho com a vida, ancorada em Deus, em Jesus e na Igreja, mantendo sua condição de leiga livre e comprometida.

Unindo a verdade com a bondade, faz com que as pessoas, de qualquer credo político ou religioso, sintam-se acolhidas e amadas gratuitamente. Consegue, assim, despertar a imagem de Deus no fundo dos corações, resgatando-lhes a dignidade. Em 1995, foi introduzida no Vaticano a causa de beatificação de Madeleine Delbrêl, pequena grande mulher do século 20, profetisa do papel dos leigos na Igreja.

Fontes: “Madeleine Delbrêl – 1904-1964 – Rues des villes chemins de Dieu”
Christine de Boismarmin – Nouvelle Cité - Paris - 1985 e www.madeleine-delbrel.net
(em 2004, comemora-se o centenário do seu nascimento)

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