Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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por Antônio Carlos Nunes Na sociedade moderna e globalizada ocidental, Vejam este detalhe corriqueiro na vida de todas as pessoas: a saudação
africana não é apenas um "bom dia" ou um "oi,
como vai?" ao outro. Quando se cumprimenta alguém, a conversa
vai longe e há várias perguntas que são feitas para
se saber um pouco mais um do outro. E a resposta clássica não
é que vai tudo bem, mas sim que vai mais ou menos, não porque
a situação financeira esteja difícil e eles queiram
pedir alguma coisa, mas porque querem conversar um pouco e criar relações.
De fato, quando se cumprimenta alguém e ele responde que "vai
tudo bem", o diálogo pára ali mesmo e cada um vai para
o seu lado. A saudação é para o africano uma boa ocasião para criar relações entre as pessoas. Durante todo o dia, inúmeras são as maneiras de saudar os passantes. Dependendo do que estão fazendo ou de onde estão vindo, há uma maneira especial de cumprimentar. Quer estejam vindo ou indo, são sempre bombardeados por inúmeras questões: "Aonde vai?", "De onde está vindo?", "O que comprou lá na cidade?", "Trouxe algo para mim?" e logo querem ver o que tem na sacola e já vão abrindo. Não fazer todas essas perguntas ou não se interessar por todos esses detalhes da vida de um passante, significa indiferença ou mesmo desprezo. O africano (falo especificamente da tribo bamlé da Costa do Marfim) é essencialmente um ser social que tem sede de união; ele vive sempre com os outros e para os outros. É inconcebível querer separá-lo do grupo, mesmo que seja por poucos instantes. Se alguém se separa do grupo ou vive algum tempo sozinho, logo é taxado de bruxo e acusado de querer fazer mal para os outros. PERDA DE TEMPO... ÚTIL Sempre costumo dizer, nas conversações que tenho com os meus colegas daqui do Brasil, que quando vou visitar as aldeias na África, é uma "perda de tempo" total com o povão. A cada visita que faço numa aldeia, emprego 24 horas de tempo. É claro que, se fosse só para celebrar a missa, duas horas seriam suficientes. Mas, aproveito esse resto todo de tempo para ficar com eles, para conversar, observar, conhecer, fazer-me conhecido e, sobretudo, ganhar a confiança e a amizade de todos os habitantes da aldeia, sejam eles animistas, muçulmanos ou cristãos. Por isso, escolho o "dia feriado" de uma determinada aldeia para visitá-la (cada grupo de aldeia tem um "dia feriado" por semana, que varia de uma região para outra, onde ninguém vai trabalhar na roça: é o dia de repouso da terra). Assim, tenho a oportunidade de encontrar-me com todos os habitantes da aldeia; de outro modo, encontraria somente com o pequeno grupo de cristãos.
O que faço nesse tempo todo? Chego numa aldeia lá pelas 16 horas, vou direto para casa do chefe cristão. Depois da acolhida usual, fora de casa, debaixo de uma árvore, sentado e servindo a água, começa o ritual da saudação. Perguntam como estou, o que fiz nos últimos tempos, o que vim fazer ali, como vão as coisas lá na cidade. Depois dão as notícias deles. Lá, embora de boca em boca, as notícias "navegam" muito rápido, porque cada um que viaja, passa as novidades para o outro. Terminada a saudação, acompanhado por uma pessoa designada pelo chefe, vou saudar todos os habitantes da aldeia; depois volto para a casa, e então os chefes de família vêm me cumprimentar, saber das minhas notícias e desejar as boas vindas. A cada pessoa ou grupo de pessoas que chega, o porta-voz do chefe repete para eles as minhas notícias. Em seguida, vão me mostrar o lugar onde irei dormir. À noite, nos reunimos na capela ou, na falta desta, na casa do catequista para a oração e ensaio de cânticos, em preparação à missa do dia seguinte. Antes, quando tínhamos um projetor à bateria, projetávamos diapositivos. Quando é noite de lua clara, os adolescentes dançam o N'Doló ao som dos tambores (dança em círculo, onde batem as mãos e alternadamente um se joga de costas nos braços dos outros que, no mesmo ritmo, jogam-no de volta ao centro). A jornada começa muito cedo: às 5 h da manhã as mulheres já estão socando o pilão, as meninas varrendo o quintal ou indo buscar água. Os homens vão se cumprimentando e depois se dirigem ao mato para ver se a armadilha capturou alguma caça. Como é "dia feriado", ninguém pode trabalhar a terra.
Mais ou menos na hora estabelecida (8 horas), vamos para a capela ou para baixo de uma árvore para as confissões, missa, reunião com a comunidade, controle da catequese dos catecúmenos (só adultos) e reunião de avaliação com os dirigentes da comunidade. Terminada a função religiosa, o sol já está no zênite, assinalando o meio-dia que é a hora do almoço. Enquanto isso, os outros habitantes da aldeia já estão sentados lá na praça pública debaixo de uma grande árvore, conversando e esperando a chegada dos demais para iniciar os julgamentos populares. Todo e qualquer problema social, familiar ou de interesse da comunidade aldeã deve ser julgado na frente do chefe e seus notáveis. No final, o acusado aceita o veredicto final dado, sem contar a humilhação pública por ter sido julgado e condenado diante de toda a população. Lá pelas 15 horas, começa o ritual de despedida: chama-se o porta-voz do chefe e "peço a estrada". Essa é a maneira de pedir licença para ir embora. O chefe reúne os seus acólitos: fazem uma pequena reunião entre eles e retornam para me propor que eu fique mais um dia, como fórmula de cortesia. Retruco, dizendo-lhes que tenho que ir dormir numa aldeia e só então a "metade da estrada" é dada, com o compromisso de nos reencontrarmos em breve. Saio dali cansado, mas contente de ter "perdido tanto tempo" com aquele povo. |
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