Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

"O japonês nasce xintoísta, casa cristão e morre budista"

Alberto Garuti

Vendelino Lorscheiter, sacerdote jesuíta, gaúcho, deixou o Brasil em 1949 rumo ao Japão. Desde 1957 está vivendo na Sophia University, em Tóquio, onde lecionou até os 70 anos

Como foi que o sr. veio ao Japão?

Quando era estudante do último ano de filosofia no colégio dos jesuítas, no Rio Grande do Sul, veio o Superior da província do Japão falar conosco. Disse que era a hora do Japão, onde nunca, como naquele momento, as pessoas estiveram dispostas a abraçar o catolicismo e que quem estivesse interessado em trabalhar lá poderia dar seu nome. Muitos naquela ocasião se apresentaram, mas só três foram escolhidos e eu estava entre eles.

Como foram os primeiros anos de Japão?

- Cheguei pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. O que mais me chocou foi ter encontrado os soldados americanos que mandavam em tudo e em todos. A gente passou muitas dificuldades. Naquela época, muitos pediam o batismo, a ponto de eu ficar desconfiado. Um dia, perguntei a uma pessoa: "Quantas vezes você já foi batizado?" - "Três", foi a resposta. O que eles queriam era a ajuda que ganhavam depois de recebido o sacramento. Eu acho que outros, na insegurança daqueles dias do imediato pós-guerra, pediam o batismo para entrar num grupo e desfrutar da segurança que o mesmo lhes dava. Esse é um traço bem característico da cultura japonesa: sentir-se forte no grupo.

Os cristãos no Japão são tão poucos. Como o senhor explica esse fenômeno?

- Há várias explicações. Primeiro: a vida, no Japão, está profundamente baseada nos valores da cultura xintoísta. Para o japonês, que extrai grande parte de sua força e vitalidade do grupo ao qual pertence, é muito difícil separar-se dos valores desse grupo. Mais difícil ainda seria essa separação para aderir a uma religião estrangeira, como é considerado o cristianismo. Aí a marginalização seria completa.

Depois, aos japoneses falta o exemplo dos cristãos daqui e de fora. Eles olham o que acontece nos chamados países cristãos e concluem que não vale a pena mudar.

Mas não acho que o japonês seja pouco receptivo ao Evangelho. O Japão, com tão poucos cristãos, é o segundo país do mundo onde a Bíblia é mais lida. Nos quartos de muitos hotéis japoneses encontra-se o livro sagrado. Muitos japoneses estimam e gostam demais do cristianismo, mas acham-no uma coisa tão séria, que não se julgam preparados suficientemente para receber o batismo.

O que fazer então para começar a derrubar as barreiras que se interpõem entre os japoneses e o cristianismo?

- Nós começamos a aceitar, em nossas igrejas, casamentos de não-cristãos. Percebemos que os japoneses gostam muito das cerimônias do matrimônio cristão. Acham que é melhor que a xintoísta, porque lá os sacerdotes murmuram algumas coisas que ninguém entende, num japonês antigo incompreensível. As próprias cerimônias xintoístas não lhes dizem nada, ao passo que gostam muito do que se faz nas igrejas católicas, gostam muito da mensagem sobre amor e família que lá recebem. Ouvi isso várias vezes de muitas pessoas. E assim começam a se aproximar e começa a cair o preconceito de que o cristianismo é somente uma religião estrangeira. Esse casamento, que não é o sacramento do matrimônio, mas só uma cerimônia ministrada em nossas igrejas para os não-cristãos, foi aprovado publicamente até pelo cardeal Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, em visita ao Japão.

Alguém chegou a dizer: "O japonês nasce xintoísta, casa cristãos e morre budista."

Outro motivo pelo qual a Igreja japonesa parece não avançar: os leigos são pouco valorizados. Numa reunião à qual estava presente não sei qual cardeal de Roma, ouvi um leigo dizer: "A Igreja no Japão até agora não deu muita bola para os leigos. Temos que fazer o que o padre nos diz e pronto." Esse é um problema sério que tem a ver com um certo tipo de autoritarismo presente, em geral, na cultura japonesa e que vem do confucionismo, profundamente enraizado na mentalidade deste país.

Será que o cristianismo se inculturou suficientemente no Japão?

- Esse é um outro motivo que pode explicar as dificuldades que o cristianismo encontrou para penetrar no mundo japonês. Quero salientar a questão da língua.

Eu tenho duas secretárias, com as quais lido há 31 anos. Elas conhecem muito bem o português. Com elas estamos tentando traduzir o texto-base do 5o Congresso Missionário Latino-Americano. A tradução japonesa feita antes não diz nada ao povo daqui. Peguem, por exemplo, uma expressão tão batida como "povo de Deus". Do jeito que estava sendo traduzida aqui não pegava, não dizia nada, não entrava na mentalidade japonesa. O problema da língua é muito sério.

Sempre sobre o tema da inculturação, poderiam ser incrementadas as experiências de diálogo inter-religioso, especialmente com os xintoístas. Há experiências de diálogo com budistas, mas eu acho importante incrementar aquelas com os xintoístas. Eles têm muito mais pontos de contato conosco: a presença de Deus, do sobrenatural, em toda parte. Eles celebram a vida; Cristo trouxe a vida.

Ouvi alguém dizer que os japoneses estão tão preocupados com o formalismo que parecem não se interessar por um diálogo mais profundo. O senhor concorda?

- É difícil, em poucas palavras, descrever um povo. Corre-se o risco de fazer generalizações apressadas. Eu poderia afirmar que, em muitos casos, cheguei a ter a impressão contrária.

Já encontrei várias pessoas que me disseram: "Eu tenho tudo, dinheiro, estudos, profissão garantida, mas não me sinto feliz. Falta-me algo". Ora, não é fácil ajudar um japonês a achar esse algo que lhe falta, é preciso um acompanhamento sério, pessoal, é preciso não ter pressa. É insuficiente a evangelização de massa que nós fazemos muitas vezes no Brasil.

Os católicos no Japão são pouco mais de 400 mil. Mas existe um mundo de pessoas que desejam o batismo, muita gente boa, melhor do que muitos batizados. Eu conheço muitas pessoas assim. Eu diria que, no Japão, há milhões de cristãos escondidos, a caminho, que ainda não se sentem preparados por vários motivos. São os escondidos modernos.

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