Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Giorgio Paleari Que tipo de missão para que tipo de Igreja? Foi o tema do fórum eclesial dos missionários fidei donum italianos no Brasil. O encontro que aconteceu em Brasília, entre 28 de janeiro e 1 de fevereiro de 2002, procurou avaliar a presença dos missionários de 1960 até o ano 2000 Fidei donum A expressão fidei donum (o dom da fé) é ainda pouco conhecida entre nós, exceto para um grupo de especialistas. Talvez sua ressonância seja maior nos países da Europa. Foi o papa Pio XII, em 1957, que usou esta expressão para convidar as Igrejas a se abrirem sobretudo à América Latina e à África. O convite foi feito especificamente às dioceses, para que fossem enviados os padres para ajudar as novas Igrejas que estavam surgindo e se sedimentando. O perigo das seitas e a falta do clero motivaram os primeiros envios, mas também uma percepção mais profunda de que cada Igreja local é chamada a abrir-se a uma responsabilidade universal. Várias Igrejas do Ocidente responderam ao apelo. Padres diocesanos da Itália, França, Alemanha, Espanha, Portugal e, também, da pequena Malta foram enviados para além-fronteira. Uma das características dos padres fidei donum é a temporalidade, isto é, eles prestam um serviço temporário às novas Igrejas e, depois, voltam para as suas Igrejas de origem para poderem alimentar e fomentar o espírito missionário. Na prática, muitos fidei donum italianos no Brasil continuaram sua presença por 20, 30 e às vezes por 40 anos, limitando muitíssimo o intercâmbio. A presença italiana dos fidei donum Quando em 1984 se fez uma primeira avaliação e um balanço dos 25 anos de vida dos fidei donum em Verona (Itália), os dados eram os seguintes:
Hoje, segundo os dados do CEIAL/CUM e do Ofício Nacional para a Cooperação entre as Igrejas, os sacerdotes, registrados na CEI (Conferência Episcopal Italiana), são 592, sendo que 227 encontram-se no Brasil em 79 dioceses. O encontro Cerca de cinqüenta participantes, entre os quais 7 bispos, reuniram-se em Brasília. Alguns leigos das Comunidades Eclesiais de Base também tiveram a possibilidade de externar o apreço e o entusiasmo por todos esses padres. Uma ressalva crítica do encontro foi que a maioria dos presentes representava ainda a primeira ou a segunda geração. Faltavam padres novos ou recém-chegados ao Brasil. A avaliação, bem conduzida, careceu das vozes dos fidei donum da última geração. Enquanto que bispos brasileiros e membros das CEBs reconheceram o ingente trabalho e a significativa presença dos fidei donum italianos, os missionários avaliaram com mais profundidade os itinerários e os impasses de sua presença. O bispo dom Tomás Balduino, presidente da CPT, reconheceu que essa presença não se pode separar do contexto da Igreja pós Vaticano II e Medellín. Estes missionários foram significativos e atuaram no processo de mudança da Igreja junto com os pobres. Agora é preciso dizer que deve ser revisto o processo de intercâmbio. Ocorre rever a problemática do retorno para os países da Europa e pensar numa transformação também lá. Irmã Francisca, das CEBs e atuando na região de Crateús, reconheceu que a presença dos fidei donum ajudou a despertar o espírito comunitário para a esperança e para o engajamento nas transformações sociais. Há, porém, aspectos que devem ser mais considerados: Muitas vezes, houve uma certa impaciência histórica. A vinda do dinheiro da Itália nem sempre ajudou; às vezes, atrapalhou. A questão da inculturação e do respeito ao outro não foram sempre realizados. Enfim, a presença dos fidei donum deve continuar a ser profética e estar junto dos pobres esmagados. Os muitos relatos dos fidei donum marcaram, sobretudo, o caminho percorrido e as mudanças pessoais e espirituais que aconteceram. Pe. Mário Costalunga, da diocese de Vicenza, começou seu relato falando que qualquer espiritualidade revela o andamento histórico de um caminho. Falar de espiritualidade é falar da vida. O missionário contou fatos e histórias com ponderação e entusiasmo. O caminho do futuro, concluiu pe. Mário, é aquele que fazemos juntos com os pobres. É o caminho de Jesus. O futuro está nas mãos dos pobres. Significativa é a experiência de pe. Luis Canal que reportamos neste número da revista.
Um dos poucos missionários da nova geração, pe. Marcos Testa, da diocese italiana de Saluzzo e trabalhando em Guarulhos, relatou que, mesmo tendo o pé no chão dos pobres, a realidade da Igreja está mudando. Vivendo numa grande cidade, sente a necessidade de privilegiar os relacionamentos humanos e as relações primárias. Além disso, ocorre abrir-se para um trabalho mais no âmbito diocesando e não privilegiar somente as paróquias. A presença de assessores da Itália ajudou também a fazer uma leitura de todos estes fatos. À pergunta: O que pode dar a Igreja do Brasil à italiana?, pe. Franco Marton sublinhou quatro termos significativos: os pobres, a Palavra de Deus, a comunidade eclesial e a leitura dos sinais dos tempos. A Igreja italiana pode aprender a espiritualidade que emana da opção e da resistência dos pobres. A Palavra de Deus, lida e aprofundada nas Comunidades Eclesiais de Base, pode ensinar a colocar em primeiro lugar a Palavra e multiplicar os grupos de vida. A Igreja Pascal (Card. Pirônio) e a Igreja de Medellín (pobre, itinerante, missionária e pascal) podem empurrar para a revisão das estruturas tradicionais das paróquias. E, enfim, a capacidade de ler os sinais dos tempos e os momentos históricos que estão sendo vividos podem tornar a Igreja italiana mais encarnada e mais profética. Pe. Giuseppe Andreozzi, responsável da Comissão das Missões da CEI, lembrou o longo itinerário dos fidei donum e da importância que estão tendo dentro do caminho missionário da Igreja italiana. Seu intervento foi um incentivo para que se continue o caminho do intercâmbio.
Todos os debates e as reflexões tiveram a preocupação de responder a algumas perguntas. Antes de tudo, não se esgotou o caminho dos fidei donum, mesmo que se deva dar um passo para buscar novas presenças e uma nova identidade. Que tipo de padre é necessário? Como deverá avançar o intercâmbio entre a Igreja do Brasil e a Igreja italiana? Está concluída a fase de ouro dos fidei donum? Houve quem ventilasse a idéia de que seja necessário superar também o aspecto do intercâmbio para abrir-se a uma nova fase. Neste sentido, a Igreja da Itália e do Brasil estão juntas e articuladas não tanto para se ajudarem mutuamente, mas para que as duas Igrejas atuem em parceria para a paz e a justiça no mundo. A perspectiva volta-se mais para o Reino de Deus e não tanto para um caminho de intercâmbio intra-eclesial. Os últimos momentos do encontro procuraram resgatar, em pequenos grupos, os temas, mas também levantar pistas para o futuro. E, certamente, o Espírito de Deus, em seu protagonismo, saberá abrir novos caminhos de continuidade aos 40 anos percorridos. |
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