Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

Missa e Adoração ao
Santíssimo Sacramento

APRENDENDO DA HISTÓRIA

por Frei José Ariovaldo da Silva, Ofm

hega a ser impressionante o retorno às manifestações de adoração e louvores ao Santíssimo Sacramento, nestes últimos anos, durante a celebração do memorial do sacrifício de Cristo, isto é, durante (ou imediatamente após) a missa. Há padres que, na hora da consagração, levantam devagar e solenemente, bem alto, a hóstia consagrada e, depois, o cálice, para adoração dos fiéis. E há pessoas que exclamam, sussurrando: “Meu Jesus, eu te adoro”.


Óleo sobre tela de Anton Maria Panico - 1560 - 1609, igreja de San Salvatore - Itália

Há padres que, logo após a consagração, chegam a interromper a Oração Eucarística, saindo com o Santíssimo Sacramento em procissão pela nave da Igreja – chamam essa procissão de “passeio” – para adoração dos fiéis com manifestações de aplausos, toques para receber a cura, etc. Há comunidades que, após a consagração, chegam a substituir a aclamação memorial (“Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição”) por cantos de adoração e louvor ao Santíssimo Sacramento: “Eu te adoro, hóstia divina”, etc.

Vi na televisão: um padre, assim que terminou a missa presidida pelo bispo, anunciou solenemente para a multidão reunida e para os milhões de telespectadores: “Meus irmãos, agora vamos receber e bênção do Santíssimo Sacramento... Não existe bênção mais importante do que esta!”. Pelo visto, deu a entender que a maior bênção de todas, isto é, a própria participação no sacrifício do Senhor, na missa recém-celebrada, não foi a mais importante!...

São alguns exemplos ilustrativos de como vem se resgatando por aí o sentido da missa, mais como momento de adoração ao Santíssimo do que como celebração do mistério pascal na forma de uma ceia. Inclusive com manifestações de adoração imediatamente após a missa, colocando-a em segundo plano... São costumes que tiveram uma origem, bem como um motivo pelo qual se originaram. Vejamos o que diz a história a respeito. Esta pode nos ensinar muita coisa e iluminar nossas práticas eucarísticas hoje.

A prática de adorar o Santíssimo Sacramento durante a missa se desenvolveu com toda força na passagem do primeiro para o segundo milênio. Em plena Idade Média, portanto. Antes, isto é, no primeiro milênio, sobretudo até o século 9, a eucaristia era vista e vivida, sobretudo como celebração memorial da páscoa de Cristo, em clima de ação de graças, da qual participava ativamente toda a assembléia, tendo como ponto alto desta participação a comunhão no corpo e sangue de Cristo.

Não havia adoração ao Santíssimo durante a missa, como se entende e se faz hoje. O ponto alto da vida cristã era a participação plena na celebração eucarística pela comunhão, e a festa mais importante do ano era a Páscoa. Aos poucos, porém, sobretudo a partir dos séculos 8 e 9, a missa vai se tornando cada vez mais “coisa do padre”. Os padres adotam o costume de rezar a missa a sós. E, mesmo havendo assembléia, eles vão fazendo tudo sozinho (orações, leituras, etc.), em voz baixa, de costas para o povo, em latim.

E o povo, por sua vez, assimila o costume de “assistir à missa do padre”. Não participa mais, como era antes. Deixa de participar, inclusive, da comunhão, esquecendo o que Jesus pediu, naquele seu dramático momento de despedida: “Tomai e comei... tomai e bebei”. Outro dado curioso: a partir do final do século 9, por influência dos povos franco-germânicos, os cristãos de nossa Igreja romana absorvem uma mentalidade quase doentia em relação a Deus, vendo nele um ser terrível, ameaçador, vigiando e controlando nossas atitudes.

"Não havia adoração ao Santíssimo durante a missa,
como se entende e se faz hoje.
O ponto alto da vida cristã era a participação plena
na celebração eucarística pela comunhão,
e a festa mais importante do ano era a Páscoa".

Ligado a isso, acentua-se uma mentalidade obsessiva em relação ao pecado, ao castigo, ao inferno e purgatório. O clima era, pois, de temor e até de pavor. Resultado: o povo fica com medo de comungar, pois comungar significava aproximar-se do Juiz terrível e ameaçador e, possivelmente, correr perigo de castigo pelos pecados. Assim, no século 12, praticamente ninguém comungava mais. Comungar na missa deixou de ser importante e virou um costume que atravessou todo o segundo milênio.

O povo vai à celebração da ceia memorial do Senhor, mas não come nem bebe mais da ceia, como faziam os cristãos nos primeiros séculos do cristianismo. Como alternativa à participação plena na missa, o povo (enquanto o padre “faz a missa” lá no altar distante) passa a se entreter com rezas, novenas, devoções, etc. E a comunhão? O povo substituiu-a pela adoração da hóstia. Ver a hóstia, de longe, adorando-a, tornou-se uma forma de “comungar”. Por isso que, então, os padres adotaram o costume de levantar bem alto a hóstia e, mais tarde, o cálice, na hora da consagração, para o povo ver e prestar adoração ao Senhor terrível que “desceu sobre o altar”, na hóstia consagrada e no cálice de vinho.

O desejo de ver a hóstia tornou-se então uma verdadeira febre para os fiéis, o ponto alto, o momento mais importante da missa. Introduziram até o costume de tocar campainhas na hora da elevação, exatamente para chamar a atenção e enfatizar o momento. Bastava ver a hóstia e o povo já se dava por muito feliz e satisfeito. Tudo isso virou um costume... Outra informação: a partir do século 9, mas com maior vigor a partir do século 11, alguns teólogos de influência, dentre os quais se destacam Berengário de Tours, andaram espalhando idéias que colocavam em dúvida a presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados.

A Igreja, em reação a esses movimentos heréticos, desencadeou toda uma campanha no sentido de afirmar a fé na presença real, reforçando e propagando a prática da adoração ao Santíssimo Sacramento, dentro e fora da missa. Fora da missa, através de procissões e bênçãos do Santíssimo, etc. Dentro da missa, através do costume de “ver a hóstia” e adorá-la. Resultado: a missa, na mentalidade de uma grande maioria de católicos romanos, distante do pensamento de Jesus e da prática dos cristãos dos primeiros séculos, transforma-se numa espécie de “fábrica de hóstia consagrada” para ser adorada.

Como se vê, o costume de adorar o Santíssimo Sacramento, inclusive durante a missa, foi desenvolvido na Idade Média, quando a Igreja havia perdido de vista o verdadeiro sentido da missa como celebração memorial da páscoa de Cristo e nossa páscoa (vale lembrar o que Jesus pediu: “Fazei isto em memória de mim”), e que tem seu ponto alto no momento da ceia (comunhão). A missa, em vez de ser em primeiro lugar um momento de adoração ao Pai, através do memorial do sacrifício de Cristo que se entrega, na força do Espírito Santo, transformou-se (da Idade Média para cá) simplesmente numa ocasião privilegiada de adoração à hóstia consagrada (ao Cristo presente na hóstia).

Hoje, com o Concílio Vaticano II, celebrado há 40 anos, somos convocados a colocar as coisas no seu justo lugar. Missa é missa. Adoração ao Santíssimo é outra coisa bem distinta (com seu reconhecido sentido e valor). A mistura é coisa da Idade Média que, como vimos, acabou colocando a adoração ao Santíssimo acima do verdadeiro sentido da missa. Hoje, com o Concílio, somos chamados a recuperar o distinto sentido e valor de ambas (sem misturar nem confundir!), devendo a missa ser compreendida como “fonte e ápice de toda a vida cristã” (Lúmen Gentil n.11).

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