Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religião - Religiões Tradicionais
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A tormenta, que muda o intenso azul do céu em um ameaçante negro, se abranda rapidamente, e o sol reaparece com todo seu esplendor de luz e calor, até se pôr no horizonte, num mar de ondas rosadas. Então, aparece a lua, rodeada de estrelas; seu brilho cintilante as transforma em criaturas vivas, que respiram, movem-se e nos observam. Os karimoyón, que vivem na região oriental de Uganda, em savanas cercadas de montanhas, são fascinados pelo deslumbrante espetáculo que, a cada dia, acontece diante dos seus olhos. Para eles, o céu não é um simples cenário para os fenômenos naturais. O céu está vivo. É outra terra, uma imensa savana cortada por serras, como a Via Láctea, onde as vacas pastam durante o dia e, ao entardecer, se recolhem no halo da lua, estábulo dos rebanhos do céu. Vênus aparece em cada entardecer, no horizonte ocidental, para espreitar as panelas em que as mulheres preparam a janta; e, quando as primeiras luzes do amanhecer começam a brilhar, coloca-se na outra margem do céu para satisfazer sua curiosidade, quando todas as panelas estão vazias. É a luz das estrelas que faz os karimoyón se lembrarem de algo que os toca profundamente.
Seus mortos vivem lá no alto. De fato, essas pequenas estrelas piscantes não são senão as fogueiras de seus acampamentos. Eles morreram, porém, ninguém sabe como, continuam vivos. Senão, como explicar que aparecem aos seus familiares, em sonhos, para falar com eles, como quando estavam vivos? De fato, agem como faziam aqui na terra, quando um grupo deles decidia emigrar para uma nova região de pastos e ali construíam novos povoados e preparavam novos campos para semear. Sua relação com os que haviam ficado para trás não se rompia, porque visitavam seus familiares nos antigos povoados. Todo karimoyón sabe que, ao morrer, encontra um caminho que o conduz ao céu, uma escada que chega até a porta do grande povoado dos mortos. Lá, ao entardecer, acendem suas fogueiras e se acomodam ao redor para conversar, recordando sua vida junto aos entes queridos. Então, lembram que alguns dos vivos vão, de vez em quando, aos seus túmulos, com leite, mel e tabaco, para pedir-lhes conselho e ajuda. Por isso, sem serem notados, aproximam-se de sua gente – sentam-se num canto escuro e escutam suas conversas. Respostas para a vida O que conduziu os karimoyón a esta visão das coisas? Sua fantasia poética? Sim, em parte. Porém, não somente a fantasia. Para um povo tão pragmático, algo mais influenciou em sua busca para dar um rosto ao desconhecido: a necessidade de encontrar respostas aos fatos que afetam a sua vida e que, com os meios normais, não pode entender. Ao enfrentar pessoas e fatos já familiares, ainda que adversos, sabe como tratá-los. Porém, ao se deparar com eventos que não pode entender, sente-se perdido e busca soluções possíveis até encontrar uma satisfatória. Esta é a gênese da religião natural. John Everett, num artigo intitulado O sagrado, descreve a fenomenologia da religião natural da seguinte forma: “A existência do sagrado se reconhece porque o homem entende que há certos poderes que afetam a sua vida e que estão fora do seu controle. A crença no sagrado surge da necessidade de explicar o que, de outro modo, é inexplicável. O culto religioso é a atividade que resulta de um reconhecimento de dependência de poderes sagrados que as pessoas não controlam”. Este é o esquema mental em que se desenvolveu, também, a religião tradicional dos karimoyón. O céu é apenas uma parte dela, o fundo em que se movem esses poderes misteriosos. O princípio da analogia Como foram capazes de formular as complexas respostas que hoje formam sua visão da vida sobrenatural? Com a aplicação do princípio de analogia. Observando a realidade que os rodeia, aprenderam, por exemplo, que efeitos similares são, freqüentemente, conseqüência das mesmas causas. Quando uma pessoa dá uma paulada em outra, esta sabe como reagir porque é consciente do que está acontecendo. Porém, se for atingida por um raio, ou sofrer uma insolação, contra quem se defenderá? Aí entra o princípio de analogia. O raio deve ter sido manipulado por alguém, por algum espírito, que lhe quer mal. Esse é o raciocínio de um karimoyón, buscando dar uma identidade a todos os fatos misteriosos que afetam sua vida, aprendendo a se relacionar com eles. Enquanto, em casos similares, questionamos o que causou e como ocorreu o incidente, os karimoyón se perguntam sobre quem é o responsável e o porquê. Personalizam tudo para facilitar a resposta. Mortos viventes no céu Os karimoyón chegaram à idéia de que os mortos habitam no céu do mesmo modo como chegaram à crença nos espíritos. Buscam conciliar duas experiências que parecem irreconciliáveis. Por um lado, vêem os corpos dos mortos devorados pelas feras ou decompostos nos sepulcros. Por outro, têm a experiência de que seus mortos se relacionam com eles e, portanto, devem estar vivos em algum lugar. A experiência lhes diz que tudo que é misteriosamente poderoso tem sua origem no céu, de onde concluem que seus mortos estão vivos no céu. As pessoas vivem em povoados; os mortos devem ter seu próprio povoado. Aqueles que migraram para novas terras visitam os que ficaram para trás; e os mortos fazem o mesmo com os vivos. A aplicação do princípio da analogia é simples, clara, e oferece aos karimoyón o esquema mental para enfrentarem adversidades inexplicáveis. O fato que os povos pastores vêem no céu uma espécie de segunda terra, onde as pessoas e animais vivem e se relacionam conosco, torna mais plausível a idéia de que todo o mistério que afeta a vida provém daí. E a observação dos fenômenos reforça esta opinião. Por exemplo, não procede dali a chuva, da qual depende todo tipo de vida? Quem a manda ou a detém? O mistério que envolve a chuva não é esclarecido através do conhecimento de algumas causas naturais que a produzem. O problema é mais profundo: quem decide conceder ou negar esse elemento tão necessário às lavouras, aos rebanhos e às pessoas? Outro tipo de reflexão surge da busca da verdade por parte dos karimoyón: a origem de tudo o que existe postula a existência de um criador. Um povoado existe porque algumas pessoas o construíram; um rebanho, porque alguém reuniu os animais; as colheitas, porque alguém plantou; as crianças, porque as mães as geraram... Também o sol, a lua, as estrelas, as nuvens e os demais corpos celestes existem porque alguém os colocou no céu. A terra, os rios, árvores, montanhas, o primeiro homem, os animais... Quem os originou? O simples fato de que existem implica na existência de alguém que os criou, que iniciou este mundo... Analisando a terminologia karimoyón sobre o céu, chamado akuj, é possível entender a estrita conexão que existe, em sua mente, entre esse lugar e os poderes que dele procedem. Da raíz akuj derivam outras palavras que expressam o mesmo significado: “poderoso”, “misterioso”, “complicado”, “maravilhoso”, “alto”. Para eles não há confusão entre akuj-céu e akuj-Poder porque, enquanto todos podem ver o céu, ninguém nunca viu esse Poder, que tudo pode fazer, quando quer e como quer, misteriosamente. Observando como essa entidade se relaciona com eles, os karimoyón são capazes de dar-lhe uma imagem mais específica, personalizando-a e tornando-a mais acessível. Ao Akuj-poder outorgam atributos como: ekazuban (criador), ekayaban (doador de vida), papa (pai), ekatubon (juiz), e muitos outros que nunca se aplicariam ao Akuj-céu. Atribuindo ao Akuj-poder características próprias dos seres humanos, os karimoyón podem se relacionar com ele como “alguém”, não como “algo”. Assim, reconhecem que o mundo é governado por um ser inteligente e não por forças cegas. Com a aplicação do princípio da analogia, os karimoyón conseguem tornar mais humana sua existência. O mistério não desaparece, porém é mais acessível. Sua vida na terra está rodeada por seres poderosos que os acompanham sempre e com quem podem se relacionar. Assim, nunca se sentem sozinhos. Magias e adivinhações Os karimoyón, para sentir fisicamente o sobrenatural, o desconhecido, usam práticas mágicas, que funcionam como um remédio psicológico, ajudando-os a vencer as incertezas e as tensões. O instrumento principal nas mãos dos karimoyón, para descobrir a origem dos problemas que os afetam e manter o equilíbrio psicológico, é a adivinhação, isto é, a arte de prever o futuro e conhecer as causas dos fatos. Ela se baseia na crença de que “todo o universo está interconectado e compartilha um mesmo esquema, de modo que, se uma pessoa arguta observa uma pequena parte do universo, será capaz de entender o que acontece em outras partes, como a chegada dos inimigos ou a causa de uma desgraça. Tanto os assuntos dos homens, como a vontade do sobrenatural se encontram refletidos no mundo físico” (Turner, H. W., Living Tribal Religions). Os símbolos oferecem a possibilidade de tornar concreto o que é abstrato, visível o que é invisível. Para a mentalidade karimoyón, acostumada a ver atrás da realidade concreta o agente, o símbolo tem valor de realidade, identifica-se com a realidade ainda que mantendo sua aura mística. O céu tem sido um importante ponto de referência em todas as religiões, por ser considerado a pousada da divindade. Os povos pastores da África Oriental, e os karimoyón, têm uma religião centrada no céu porque dele provêm a vida e tudo o que a afeta. O Criador de tudo se encontra ali, com os agentes que usa para executar os seus desígnios; e os karimoyón que morrem, encontram no céu sua última morada. A visão religiosa dos karimoyón, e a posição central que o céu ocupa nela, parece revelar uma saudade inconsciente de um lugar ao qual sabem que pertencem, do qual vieram e no qual já se encontram seus antepassados.
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