Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiões Gerais

O Homem e o Além

Ernesto Arosio

Quando os deuses criaram a humanidade, entregaram a morte à humanidade e ficaram com a vida nas próprias mãos". Assim já se expressava o herói Gilgamesh num poema anterior a algumas narrações que encontramos na Bíblia, como a do dilúvio universal.
A morte, em todas as culturas, sempre foi e é um mistério, com repercussões diferentes para os sobreviventes. Para as sociedades ditas primitivas, ela é um fenômeno complexo e inexplicável e marca a vida individual dos parentes e da tribo. Nas sociedades tecnologicamente modernas como as nossas, especialmente nas grandes cidades, a morte se reduziu a um "fenômeno simples mas embaraçoso", um fato contra o qual não se pode lutar, mas asséptico; nas grandes cidades não se admitem mais os solenes ritos fúnebres, salvo em poucas ocasiões, como na morte de pessoas que foram importantes na vida social. Também estão desaparecendo as marcas externas da morte como os túmulos luxuosos, sinal mais de poder da família que de homenagem aos mortos.

A morte e os vivos

A morte não é o fim, mas uma passagem para algo desconhecido, mais ou menos duradouro ou até eterno, embora o conceito de eternidade tenha significado diferente para os vários povos. Em quase todas as culturas, a morte biológica não significa a morte social porque, de uma maneira ou outra, o finado continua a viver não somente na memória dos parentes ou da comunidade, mas a participar da vida deles. Lembramos os manes dos romanos, os ancestrais de muitas culturas africanas, da China e do Japão.
A morte, nas suas interpretações e maneiras de celebrar os ritos, tem uma estreita relação com a concepção religiosa dos povos e ainda não se encontrou uma cultura que não desse valor ao ato misterioso da morte e suas conseqüências. Muitas culturas possuem até um livro dos mortos, onde se encontram conceitos, lendas, considerações sobre o espírito dos falecidos, suas peregrinações no além, a maneira de venerar os espíritos desencarnados.
Difícil é descrever toda essa variedade de interpretação e de comportamento, mas podemos estabelecer algumas semelhanças e diferenças entre as várias culturas diante da morte.
As religiões que admitem uma sobrevivência pessoal no além, qualquer que seja o tipo de sobrevivência (a ressurreição é somente uma herança do cristianismo), num lugar de felicidade ou num lugar escuro, geralmente tratam a morte e o rito fúnebre como uma passagem e uma continuação dessa vida, embora num ambiente diferente. Para simbolizar essa continuação da vida, algumas culturas revestem o defunto com vestes novas, outras põem moedas na boca, para que possa pagar a divindade que preside essa viagem, colocam oferendas perto do cadáver, dentro do caixão ou sobre o túmulo. Um povo de navegadores da Polinésia usa esquifes em forma de barco; os antigos egípcios também usavam barcos que eram colocados nas pirâmides junto aos antigos faraós; os romanos falavam da travessia do mítico rio Estige com o barqueiro Caronte; os judeus, no tempo de Cristo, punham uma moeda na boca do defunto e, até os primeiros séculos do cristianismo, havia a tradição de pôr comida sobre os túmulos. Quando se celebrava a memória dos finados, havia verdadeiros banquetes: esse fato, ainda hoje, é celebrado em certas culturas e no México.
Tribos do Togo, África, crêem que a viagem do finado à aldeia dos espíritos leva uma semana e, durante a mesma, amigos e parentes devem se entreter com o espírito do defunto: todas as noites acenderão uma fogueira diante de um escabelo onde estaria sentado o espírito do finado, prepararão uma sopa para que não sinta sede durante sua viagem. Em outros lugares, costuma-se sepultar os mortos em lugares em que eles se sintam ainda como se estivessem vivos. Os damas, os zulus e outros criadores de pequenos animais (ovinos e caprinos) sepultam os proprietários nos pastos para que possam continuar a velar sobre seus rebanhos.

Os ancestrais

Para os que admitem a sobrevivência do espírito, mas dão grande importância à tradição do clã, a morte significa reunir-se aos ancestrais e os ritos têm toda uma simbologia específica. Numa tribo de Burkina Faso, por exemplo, no momento da morte, o agonizante é confiado a uma mulher idosa, conhecedora das tradições do clã, que vai enumerando, numa cantilena, toda a genealogia do moribundo para lembrar-lhe que ele também vai fazer parte dessa grande família dos antepassados. As culturas que têm essas crenças celebram festas anuais ou em ocasiões próprias para que os espíritos dos antepassados possam participar da vida da aldeia, através de danças, banquetes comunitários e representações típicas. Em determinadas tribos do Benin, durante essas cerimônias, há um assento entre os participantes que ninguém poderá ocupar porque pertence ao antepassado. Em outras, dizem que são os antepassados que tomam conta do corpo do dançarino que entra em transe, durante uma dança desenfreada.
No confucionismo chinês e japonês, onde também há uma forte tradição dos antepassados que continuam a participar da vida da família, nada se faz de importante sem que, antes ou depois, se cultuem os antepassados representados pelo altar-armário que se encontra na entrada da casa.

As religiões cósmicas

As religiões que se agrupam sob a denominação genérica de cósmicas, ou seja, aquelas que admitem que os espíritos provêm da Grande Energia Cósmica e voltam para lá, através das repetidas reencarnações e da transmigração (hinduísmo e budismo), geralmente, queimam o corpo do defunto para dificultar o retorno do espírito ao mesmo corpo e assim romper, se for possível, o ciclo cármico. Os gurus que já conseguiram, em vida, livrar-se do carma, têm os corpos abandonados nas águas dos rios e nos cumes das montanhas, porque já estão livres da lei da reencarnação.
Nessas religiões, não existe um verdadeiro culto aos mortos pelo fato de que o corpo não faz parte da pessoa, sendo considerado somente uma espécie de invólucro que aprisiona dentro de si o espírito.

O além nas culturas

Do que vimos acima, percebe-se que a concepção de além depende da crença religiosa dos povos e isso confirma que a grande maioria das culturas, desde as mais simples às mais complexas, tem a idéia de que o espírito continua vivendo após a morte. Como é esse além e como se vive por lá também depende da cultura.
As religiões mais organizadas, o conceito de pessoa livre e responsável é admitido com clareza, o além apresenta-se de maneira mais estruturada. Cristianismo, islamismo e judaísmo admitem um além que contempla, logo após a morte, um julgamento das ações realizadas em vida pelo indivíduo, com conseqüente prêmio ou castigo: o inferno (hades dos gregos e romanos, sheol dos judeus) e o paraíso com suas características próprias.
No cristianismo, é fundamental a crença na ressurreição, no islã, fala-se de ressurreição, mas somente depois de ter passado centenas de anos no paraíso ou no inferno.

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