Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiões Gerais

O homem e a divindade

Ernesto Arosio

Mesmo aqueles que dizem não acreditar em nada, em algum momento de sua vida, vão acabar sentindo a necessidade de invocar alguém superior, com poder de transformar as realidades mais profundas. Não importa a divindade a quem se dirige nem a forma da prece, o homem é um ser que reza

Desde seu aparecimento na face da terra, os homens se distinguiram dos animais também porque rezavam: examinando fósseis pré-históricos, a arqueologia resolve a dúvida para saber se fósseis são de animais ou de hominídeos, pela presença de sinais de culto aos mortos, a alguma divindade junto com o uso do fogo.
É difícil imaginar o que os homens primitivos sentiam e como reagiam diante dos fenômenos naturais que, por causa da sua ignorância científica, estavam acima de sua compreensão e lhe causavam medo. Para propiciar essas forças da natureza ou para acalmar suas fúrias, o homem primitivo criou uma divindade, para cada um desses fenômenos, à qual rezava e oferecia sacrifícios, às vezes, até humanos. Para entendermos um pouco isso, podemos tomar como exemplo o modo de rezar de alguns povos tidos primitivos como os pigmeus, bosquímanos, índios, entre outros: a oração deles é simples, fazem sacrifícios e oferendas de primícias, têm cantos e danças rituais, geralmente dirigidas por um chefe ou pajé.
Com a evolução da humanidade, evoluiu também a atitude diante da divindade e se formaram religiões as vezes complexas, com templos e hierarquias sacerdotais, com uma definição clara de suas divindades, sacrifícios, orações e toda uma liturgia que evidenciam maneiras comunitárias de se relacionar com o divino. Uma prática religiosa muito difundida em quase todas as religiões é a romaria, isto é, a peregrinação a lugares considerados sagrados porque num - dizem - morou uma divindade, noutro houve alguma aparição miraculosa. Por causa dessa ligação com a divindade, foram construídos grandes e majestosos templos, verdadeiras manifestações de arte que materializam o sentimento religioso dos fiéis, onde esses rezam, fazem sacrifícios e purificações, pagam promessas e votos, fazem procissões em que os simulacros das divindades são homenageados, às vezes, de forma até bem solene.
No desejo de se unir, cada vez mais à divindade e até mesmo de nela se fundir ainda neste mundo, surgiram formas de entrega total à divindade como os ermitãos, os monges e novas formas de vida de oração em que predominam a meditação, a renúncia e o jejum.
Essas formas de oração são comuns a todas as religiões, embora existam diferenças devido à maneira como se configura a divindade e o relacionamento com ela.

Oração e meditação

Nas religiões monoteistas, predomina a oração em que há uma relação pessoal do fiel com a divindade. A oração pode ser expressa de maneira pessoal, comunitária ou coral. Essa é muito comum nos povos primitivos, em que um cantor reza ou canta a oração e os presentes repetem um refrão. Às vezes, o refrão é cantado e dançado ao mesmo tempo, porque esses povos rezam com todo o corpo e suas aspirações são para a convivência pacífica com a natureza que os circunda e da qual se sentem parte integrante.
Um exemplo, tirado do livro Facing Mount Kenia de Jomo Keniatta, primeiro presidente do Quênia, é a oração que os kikuyus recitam voltados para o monte Quênia, ao grande espírito Ngai que moraria no cume:

Solista: rezai para que os anciãos tenham sabedoria e falem com uma só voz.

Todos: Ngai seja louvado! A paz esteja sobre nós.

Solista: rezai para que o país fique na paz e o povo cresça.

Todos: Ngai seja louvado! A paz esteja sobre nós.

Solista: ó Ngai que vives no Kere Nyaga, que faz tremer as montanhas, correr os rios, nós te oferecemos este sacrifício para que nos mandes a chuva. Nós te oferecemos o sangue e a gordura desse cordeiro; o leite e o mel te oferecemos em sacrifício e te imploramos: aceita o nosso sacrifício e envia a chuva fecunda.

Todos: A paz, ó Ngai, nos imploramos. A paz esteja sobre nós.
Assim continuam invocando o Ser Supremo para que não deixe faltar chuva, sol, abundância e paz.
A meditação é uma oração mais aperfeiçoada que procura a elevação do espírito até Deus, a superação das condições humanas para se unir estreitamente a ele. O Siva Purana, livro sagrado da Índia, diz que "o estado mais elevado da oração é a realização da presença de Deus (no homem)". Cultivada nas religiões monoteistas, como o cristianismo, nos mosteiros e pelos ascetas de todas religiões, a meditação é praticada nas religiões cósmicas como o hinduísmo, o budismo e por aqueles que querem se fundir na Energia Universal ou no Eterno e, atualmente, nas novas religiões que podem ser agrupadas na New Age.

Ioga: superar os sentidos para chegar à divindade

A fórmula clássica de meditação no Oriente, particularmente na Índia e nas religiões ocidentais que se ligam ao hinduísmo, é a ioga, cuja finalidade é unir (do sânscrito, yug) o eu ao cosmos, o eu à divindade. A ioga se acompanha também de um controle das energias físicas, como meio para facilitar a concentração profunda na divindade, embora alguns se preocupam mais com esse domínio do próprio corpo do que com a finalidade primária que é o contato íntimo com a divindade. A verdadeira ioga pressupõe virtude humanas como a não-violência, a honestidade, a continência e a sobriedade. Essas virtudes são requeridas não tanto para uma ascese moral, mas porque ajudam o iogue (praticante de ioga), a manter-se na paz e na concentração do espírito.
A concentração é favorecida também pela repetição de um mantra (ou fórmula sagrada) repetida até entrar numa atmosfera de máxima concentração e levar o iogue aos confins da materialidade humana, iniciando assim o diálogo com a divindade.

Oração de uma tribo de Moçambique, África

Nós nos apoiamos à rocha,
mas ela não serve:
fragmenta-se a rocha.
Nós nos apoiamos à árvore,
mas não serve:
apodrece e cai a árvore.
Tu somente és sustento inalterável,
Senhor de todas as coisas.
Tu somente escutas
as nossas preces.
Tu somente nos salvas, ó Criador.

Do livro "No coração dos povos" Editora Mundo e Missão - Loyola

Oração ensinada por Maomé

Ó Deus, procuro a tua ajuda
em tua grande sabedoria.
Dá-me a capacidade de agir
mediante o teu poder:
isso eu peço à tua bondade.
Tu sabes, eu não sei;
tu és poderoso, eu sou fraco.
Tu que conheces tudo o que
é secreto, ó Deus, se sabes que
é bom o que estou para realizar,
pela minha fé, pela minha vida,
pelo meu bem-estar, faze que isso aconteça e permita que
nisso eu prospere.
Mas se é mau para a minha fé,
para a minha vida e para
o meu futuro, afasta de mim e
mostra-me o que é bom.

Cantos dos bosquímanos, África

"No coração dos povos"

Criador, ó Criador!
Não somos teus filhos?
Será que Tu não olhas para
a nossa fome?
Dá-nos de comer!
Pai, nós viemos
a ti e suspiramos por ti.
Dá-nos de comer tudo aquilo
de que precisamos
para que possamos viver.

A oração no cristianismo

Nas vossas orações não multiplicais
as palavras como fazem os pagãos
que julgam que serão ouvidos a força das palavras.
Não os imiteis porque vosso Pai sabe o que vos
é necessário antes de vos lho pedir.
Eis como deveis rezar:
Pai nosso que estais no céu...
Evangelho de Mateus 6,7-13.

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