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Romaria ao Senhor Bom Jesus
Maria José de Deus
Há três séculos, devotos vão a Iguape, litoral
sul de São Paulo, agradecer e pedir graças
Do alto, a cidade de Iguape reserva ao visitante uma vista deslumbrante
recortada pelo Mar Pequeno, a exuberância da Mata Atlântica
e o Cristo Redentor, que, de braços abertos, contempla um verdadeiro
acervo histórico, religioso e ambiental. Nele se pode ver o casario
colonial cercado por ruas estreitas, a primeira Casa de Fundição
de Ouro do Brasil de 1635, igrejas como a de São Benedito e do
Rosário, que abriga o Museu de Arte Sacra, o Estuário Lagunar
e a Estação Ecológica Juréia-Itatins.
Entre tantas belezas históricas e naturais, vale ressaltar a Festa
do Senhor Bom Jesus, um dos grandes acontecimentos da religiosidade popular
e da tradição luso-brasileira, que movimenta a cidade de
28 de julho a 6 de agosto. Estima-se que nesses dias o fluxo de romeiros
chegue a 45 mil pessoas.
A história começa em 1647, quando uma embarcação
que trazia a imagem de Cristo Portugal foi abordada por naus holandesas,
próximo ao Estado de Pernambuco. O comandante resolveu abandoná-la
ao mar em um caixote com algumas botijas de azeite, com medo de vê-la
profanada. Alguns meses depois, dois índios a encontraram à
deriva na Praia do Una, distante alguns quilômetros de Iguape.
A devoção ao Bom Jesus da Cana Verde representa o momento
em que Cristo, antes da Paixão é vítima de açoites,
zombarias e é coroado de espinhos. Os soldados para ridicularizá-lo,
colocam um caniço verde em suas mãos como se fosse um cetro.
Por isso, nas aflições, os romeiros recorrem a Jesus, vendo
nele o homem das dores, identificado com todo o sofrimento humano. "Ele
é o homem da compaixão, da bondade e do perdão. Ele
quer um mundo de justiça, misericórdia e reconciliação",
diz o bispo dom José Luiz Bertanha, da Diocese de Registro, ao
centrar as pregações pela paz na família, no mundo
e contra a injustiça social.
Cidade em festa
Os preparativos começam com meses de antecedência, quando
são enviadas correspondências aos peregrinos de vários
Estados. Eles são conhecidos como festeiros, pois assumem o compromisso
de, todo ano, doarem algum dinheiro para a organização da
festa e ainda se oferecem para o trabalho voluntário. Neste ano,
eles se juntaram ao mutirão da diocese de Registro, cujas comunidades
reuniram cerca de 300 pessoas entre padres, religiosas, seminaristas e
leigos para orientar as filas da Confissão, de visita à
imagem, da sala dos Milagres, do velário, do Museu de Arte Sacra
e carregar o andor.
"As equipes responsáveis se mostraram maduras e eficientes,
dando grande testemunho comunitário", revela o padre João
Mellato, svd, coordenador geral. O padre, depois de passar mais de dez
anos em Cuba, acaba de assumir a Paróquia de N. Sra das Neves e
Basílica do Senhor Bom Jesus e não consegue esconder sua
admiração. "Em Cuba, é proibido manifestação
religiosa em público. Por isso, não me contive ao ver tamanha
expressão de fé, principalmente quando as pessoas recebiam
Jesus na Eucaristia".
Os festejos
A alvorada festiva com repique de sinos e apresentação
da Banda Santa Cecília, às 6 horas, do dia 28 de julho,
anuncia o primeiro dia da festa. Já a abertura solene fica para
noite, quando se inicia a novena. Os temas neste ano foram sobre a Campanha
da Fraternidade 2000 - Dignidade Humana e Paz e Novo Milênio sem
Exclusões. Bispos, padres, religiosas e um pastor luterano falaram
para a comunidade e os romeiros sobre a realidade da mulher, do negro,
do índio, sobre a exploração do trabalho infantil
e a educação para a paz e o ecumenismo.
A animação ficou por conta de cantores e coro orientados
pelo padre José Weber, conhecido compositor do meio católico.
Além de violão, as missas foram celebradas ao som de sanfona
e com a presença de violeiros de Capão Bonito. Eles deram
um espetáculo, ao apresentarem músicas sertanejas adaptadas
à celebração. A cidade, normalmente calma, ganha
vida nova com a circulação de pessoas na Praça da
Basílica, onde se encontra a igreja concluída em 1856. Além
da imponente fachada, apresenta o interior rico em adornos, pinturas e
um afresco da Transfiguração.
São romarias de ciclistas e motoqueiros em busca de bênção,
romeiros chegando de madrugada, a pé, de cidades vizinhas; saindo
da hospedagem ainda no escuro para a alvorada; à noite, para a
novena, são os devotos que ficam horas na fila para agradecer e
fazer pedidos em frente à imagem.
Romeiros urbanos
A igreja fica sempre lotada e há muita gente do lado de fora,
que também reza para N. Sra das Neves. A festa da padroeira acontece
sempre no dia 5, último da novena, com procissão pelas ruas,
antecipando a grande homenagem ao Bom Jesus, no dia seguinte.
A localização geográfica facilita a vinda em massa
de catarinenses de Camboriú, Florianópolis, Canoinhas, Barra
Velha, Navegantes, assim como de Curitiba e do interior do Paraná,
São Paulo e Rio Grande do Sul. A grande afluência de pessoas
da faixa litorânea de Santa Catarina não é por acaso.
No passado, como grande parte dos romeiros eram pescadores e faziam a
viagem em barco a vapor, a devoção foi sendo propagada pelo
litoral. Havia também devotos que vinham a cavalo e de pau-de-arara,
porque moravam na roça. Hoje, seus filhos e netos, a maioria residente
em cidades, preferem ônibus e carros. "A cavalo só mesmo
as romarias organizadas de Itapetininga e Itapeva", conta o padre
Adriano Ocariza, svd.
Na madrugada fria de 6 de agosto, os sinos tocam mais uma vez e os romeiros
começam a surgir na praça da Basílica para celebração
das 5, seguida de várias missas e culminando com procissão
às 17 horas.
Quando a tarde vai caindo, o bispo, padres e romeiros saem pelas ruas
em procissão com o andor do Bom Jesus enfeitado de cravos vermelhos,
rosa e brancos. Depois de concluir o percurso, retornam vagarosamente,
formando uma multidão em frente à igreja. A banda toca para
receber a imagem e o povo emocionado explode em palmas. Durante a adoração
ao Santíssimo Sacramento, o altar recebe perfume de incenso, enquanto
celebrantes, coro e o povo entoam solenemente o hino, que ecoa pela nave:
"Senhor Bom Jesus, Deus de bondade, da alma pecadora, tende piedade".
Na missa de ação de graças e despedida dos romeiros,
mais beleza e expressividade. Em um telão armado na praça,
os devotos fora da igreja ouvem mensagem de esperança e força
do celebrante, que os exorta a enfrentarem os desafios cotidianos, se
tornando evangelizadores. O hino glorioso e a balada de um sinete sinalizam
o fim das festividades.
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