Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiosidade Popular

A Festa do Divino

Maria José de Deus

A devoção popular ao Espírito Santo resiste ao tempo, destacando-se em contextos urbanos e culturais bastante diferenciados

Entre as belíssimas manifestações religiosas introduzidas no País pelos colonizadores portugueses, no período que vai do século XVI ao XVIII, encontra-se a Festa do Divino Espírito Santo, até hoje realizada em vários lugares como Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo e Goiás.
Instituída, em Portugal, por volta de 1271 e 1336, pela rainha santa Isabel, após o casamento com o rei Dom Diniz, a devoção se espalhou por todo o Império, até se radicar nos Açores, arquipélago distante 1500 km da costa portuguesa, constituído por nove ilhas, conhecidas como "ilhas do Espírito Santo".
A festa é realizada em homenagem à terceira pessoa da Santíssima Trindade. O Espírito Santo, fonte de amor e sabedoria, é representado pela pomba branca e por línguas de fogo, que pousaram sobre os apóstolos reunidos no cenáculo, em Pentecostes, cinqüenta dias após a Ressurreição. As cores vermelha e branca também identificam o Paráclito e estão presentes nas procissões e missas, em que há coroação do imperador do Divino, trajando roupas da época com coroa e bastão.
Em cidades históricas como Paraty, litoral do Rio de Janeiro, os festejos a-contecem durante dez dias com a reza de ladainha, missas, quermesses e leilões. No sábado, que antecede Pentecostes, o povo é atraído pelos fogos, banda, fanfarra e foliões que levam a Bandeira da Promessa da casa do festeiro até a de um devoto. Na hora do almoço, são servidos arroz, feijão com farinha, maionese, carne de boi, frango e bebidas.
No domingo, depois da alvorada musical, o cortejo formado pelo imperador, vassalos e festeiros dirigem-se à Matriz para a celebração da missa. Os devotos e turistas de várias partes do País e do exterior seguem a última procissão no final da tarde. A banda toca hinos de louvor, as bandeiras vermelhas, bordadas em fio de ouro reluzem ao sol poente e, das ruas emolduradas pelo casario em estilo colonial, é possível ver parapeitos forrados com toalhas de linho, flores e velas em reverência à passagem do Divino.

Estilo urbano

Se, em Paraty, o empenho em preservar o patrimônio histórico e cultural contribui para a permanência da tradição religiosa, por sua vez, a igreja do Divino Espírito Santo, em São Paulo, instalada na rua Frei Caneca, entre arrojados edifícios da avenida Paulista, mantém a devoção que começou, em 1881, com dona Francisca Cândida Borges Paim, açoriana de Ilha Terceira. Em pagamento de uma promessa, dona Francisca reuniu os açorianos das redondezas para rezarem a novena. Em 1887, quando a casa já não comportava os devotos, resolveram erguer uma capela. Em 1903, foi constituída a Irmandade do Divino e, em 1905, iniciou-se a construção da atual igreja. Como outras organizações do gênero, a Irmandade é responsável pela organização da festa, da qual participam, além dos festeiros, o presidente, vice-presidente, secretários, tesoureiros, mestres de cerimônia e conselheiros.
Nos nove dias que antecedem à festividade, é rezada a novena preparatória com celebração de missas. Bispos e pa-dres da cidade e de fora são convidados a fazerem a pregação sobre temas como família, Igreja, unidade, Nossa Senhora, protagonismo dos leigos, todos relacionados ao Espírito Santo. "Na encíclica Evangelii Nuntiandi, o papa Paulo VI fala da importância da devoção como meio de transmissão de fé", lembra o padre Peter Fenech, responsável pela paróquia e incentivador de atividades que estejam vinculadas à ação pastoral.
A igreja fica lotada todos os dias, inclusive com a presença de pessoas de outros bairros que, além das pregações, encantam-se com a apresentação do coral infanto-juvenil da igreja do Divino e de adultos da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, do Banco do Brasil e da Companhia Energética de São Paulo - Cesp. "O povo vive correndo, mas mantém uma fé enraizada que o impele a buscar no devocionário popular a presença de Deus", diz o padre Peter.
Na festa de Pentecostes, realiza-se a procissão dentro da igreja, suprimida das ruas em razão do trânsito. Vão os zeladores, zeladoras e mordomos da bandeira, da imagem, das coroas e dos bastões que representam os sete dons do Espírito Santo - a sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, temor de Deus e piedade. As coroas e bastões são passados para os irmãos que, durante o ano, deverão difundir a devoção nas casas. Os homens e as mulheres vestem-se de preto e ostentam a fita com a insígnia do Divino. A bandeira é hasteada na torre da igreja, os sinos tocam, o estandarte com a imagem é levado até o altar. Também as crianças, adolescentes, jovens e representantes das pastorais colaboram na liturgia. No encerramento, são servidos vinho e massa sovada, uma tradição dos Açores que a paróquia faz questão de preservar e que lembra o bodo. Ingrediente importante no passado, o bodo evidenciava a origem agrária dos festejos, sempre marcados pela fartura com a proximidade da colheita, entre os meses de maio e junho. A exemplo de santa Isabel, os mais afortunados doavam animais, prendas e toneladas de alimentos aos pobres. Tanto o almoço oferecido ao povo em Paraty, como o pão sovado e as cestas básicas distribuídas pela paróquia na ocasião, podem ser vistos como sinal de partilha, característica fundamental da festa do Divino.
A Irmandade também realiza todo 3º domingo do mês, uma missa solene em homenagem ao Espírito Santo, com coleta de alimentos, durante o ofertório, que irão para a montagem de cerca de 300 cestas-básicas distribuídas às famílias carentes do bairro e para o almoço oferecido às sextas-feiras a 250 moradores de rua. Neste ano, a celebração de Pentecostes será no dia 11 de junho com a festividade se estendendo até a Santíssima Trindade no domingo seguinte.
Para o próximo ano, serão escolhidos sete festeiros que, junto com a diretoria da Irmandade, terão a incumbência de promover uma festa ainda mais bonita, que também deverá servir de estímulo para o crescimento da Irmandade. "Temos muito interesse em divulgar a devoção, principalmente entre a juventude", diz Milton Pereira Cassiano, provedor e paroquiano há 15 anos.

A folia do Divino

A folia sempre antecedeu aos festejos e tem como objetivo levantar fundos para a festa. Em Pirenópolis, Goiás, instrumentistas e cantores vão às casas, levando a coroa do imperador e fazendo os pedidos. Já em Paraty, os foliões levavam a bandeira, tocando e entoando versos para o Divino. Atualmente, em algumas cidades, os festeiros, ao invés da folia, preferem arrecadar dinheiro, organizando bingos, leilões e rifas.

Este meu nobre sinhô
É nobre por geração
Queira dar uma esmolinha
Pra ganhar a salvação.
Meu pretinho do Rosário
Irmão de São Benedito
Dê uma esmola pro Divino
Que os da casa fica rico.

Deus lhe dê muito boa tarde
Aos devoto moradô
Que veio lhe visitá
Este Divino sinhô.
A pombinha vem voando
No bico traz uma frô
Vem dizendo, viva, viva
Viva esse nobre sinhô.

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