Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Cristianismo

A mesma fé, mas tantas diferenças

Ernesto Arosio

Uma mesma fé em Jesus Cristo, mas tantas denominações por causa dos descaminhos da história. Afinal, quem são os ortodoxos?

História dos ritos

Quando os apóstolos se reuniam, em Jerusalém, não havia nenhum rito estabelecido para as orações; o que os unia - como dizem os Atos dos Apóstolos - era a fração do pão que não os impedia de continuar indo ao templo para rezarem como bons judeus. Aos poucos, porém, cada comunidade cristã foi criando a sua maneira (rito) de rezar, de celebrar a fração do pão, origem da atual missa, gozando de liberdade para exercer o seu culto.
Com o crescimento das comunidades e sua expansão no mundo, foi se constituindo, ainda que de maneira informal, um esquema para as celebrações litúrgicas. No século 4, já existiam grupos, mais ou menos uniformes, que seguiam uma mesma de liturgia, como o rito latino em Roma e no Ocidente, com várias subdivisões como o rito ambrosiano, o galicano e o céltico.
No Oriente também, surgiram ritos locais , como o siríaco em Antioquia e Jerusalém, o asiático na Ásia Menor, o egípcio ou
copta no Egito, na Etiópia e no norte da África, além de outros de grupos étnicos menores
Ao surgirem porem, os grandes patriarcados ou dioceses do Oriente, como Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, seus ritos dominaram, fazendo com que alguns das comunidades menores desaparecessem. Assim, Bizâncio,capital do Império romano do Oriente, dominou a região da Ásia Menor com seu rito bizantino; o rito siríaco de Jerusalém foi introduzido em Chipre e o rito copta da Alexandria se firmou nas regiões da África. Alguns ritos menores sobrevivem ainda hoje como o armênio, o caldeu no Irã e Iraque, o maronita e outros, tornando-se também um valor étnico muito forte para a unidade daquelas culturas, especialmente durante a dominação dos muçulmanos
No século 6, se definem assim as grandes famílias de ritos que eram: o rito latino da Europa ocidental; o bizantino (greco-melquita, eslavo, ucraniano e outros da Europa oriental); o armênio; o antioquenho (siríaco, antioquenho, maronita e malankar da Índia); o caldeu (malabarda Índia) e o alexandrino (copta e etíope). Todos esses ritos formavam a Igreja universal do Ocidente e do Oriente.

O rito ortodoxo bizantino

A Igreja bizantina desenvolveu um patriarcado independente com uma liturgia própria, rica e solene, baseada nos grandes doutores da Igreja oriental, como são Basílio e João Crisóstomo. Por causa da importância política, o rito da capital espalhou-se pela Europa e pelo Oriente: no século 9, penetrou na Europa oriental; no seguinte, na Rússia. No séculos 12 e 13, os patriarcados melquitas de Antioquia, Alexandria e Jerusalém abandonaram seus antigos ritos para adotar o rito bizantino.
Ao longo da história da Igreja universal, porém, desentendimentos teológicos e políticos levaram a Igreja romana e oriental à ruptura e sucessiva reunião (pelo menos em parte) e o nome ortodoxo ou seguidores da verdadeira fé (ortodoxia), passou a significar os cristãos do Oriente. Hoje, existem ortodoxos católicos, em união com o papa, e os ortodoxos não católicos, independentes de Roma. Nesses casos, cada patriarcado é uma entidade soberana e independente ligada somente por vínculos de fraternidade aos outros patriarcados ortodoxos.
Atualmente, o rito bizantino - católico e ortodoxo - é praticado por 250 milhões de fiéis entre russos, romenos, búlgaros, gregos, sérvios, libaneses, egípcios, etíopes, etc. Embora haja cinco idiomas oficiais- o grego, o árabe, o eslavo, o romeno e o russo - cada Igreja usa em suas celebrações litúrgicas a língua do povo no meio do qual celebra.
No Brasil, existem Igrejas de rito bizantino: a ucraniana (católica e ortodoxa), a russa (católica e ortodoxa), a ítalo-libanesa
(católica), a greco-ortodoxa, a greco-ortodoxa de Antioquia e a melquita (católica).

A Igreja melquita

A definição "melquita" foi dada à homônima Igreja, depois do Concílio Ecumênico da Calcedônia, em 451. As definições cristológicas do Concílio foram aprovadas pelo papa Leão I, através dos seus delegados, sendo que, desde então firmou-se claramente o primado de Roma sobre as outras Igrejas com a famosa frase: "Pedro falou pela boca de Leão".
Todavia, a aceitação das definições conciliares não foi tão simples, pois havia, nos bastidores, motivos políticos: alguns patriarcas apoiavam o imperador de Constantinopla, enquanto outros (siríacos, coptas e armênios) recusavam essa "colonização bizantina", procurando se separar do império. Os que aceitaram as definições do Concílio, apoiado pelo imperador Marciano, foram chamados de melquitas (da palavra melek = imperador); o papa foi apelidado "chefe dos melquitas" e as Igrejas, que ficaram fiéis ao Concílio e a Roma, foram denominadas simplesmente melquitas.
No século 18, houve um despertar das Igrejas orientais e uma retomada
de suas culturas, fato favorecido pela presença de algumas ordens religiosas ocidentais, como jesuítas e franciscanos entre outros. Esse movimento, porém, criou maiores divisões entre a Igreja ortodoxa de Constantinopla, apoiada pelos sultões muçulmanos que dominavam praticamente todo o Oriente europeu, e a Ásia. Esse apoio muçulmano à Igreja bizantina incentivou, também politicamente, a Igreja melquita a se unir mais profundamente com Roma e ao Ocidente para preservar sua autonomia cultural diante dos turcos. Em 1724, com o falecimento do patriarca de Antioquia, Atanásio III Dabbas, foi eleito um patriarca que se posicionava a favor de Roma, Cirilo Tanás. O patriarca de Constantinopla, entretanto, nomeou um patriarca favorável a Bizâncio, fazendo com que também a Igreja melquita tivesse duas linhas: a católica e a ortodoxa.
Essa divisão, que parecia mais uma dificuldade, acabou incentivando na Igreja pró-romana o despertar de ordens masculinas e femininas, a fundação de seminários, colégios e obras de grande cunho social.
A Igreja melquita, atualmente, está assim estruturada: três sedes patriarcais (Antioquia, Alexandria e Jerusalém); eparquias ou dioceses em vários países do Oriente e em lugares de emigração como Austrália, Brasil, Canadá, Bélgica, França, Itália, Estado Unidos; conta também com várias ordens religiosas masculinas e femininas.
Estatisticamente, a Igreja melquita católica conta com
34 metropolitas (arcebispos e bispos); 450 padres e 1.755 milhão de fiéis no mundo inteiro.

A Igreja melquita no Brasil

No Brasil, a Igreja melquita apareceu com os imigrantes sírios e libaneses que foram apelidados, genericamente, de turcos, porque fugiam de países dominados pelos turcos e eram portadores de passaporte turco.
Esses imigrantes marcaram a sociedade brasileira com a figura do caixeiro viajante chamado de mascate, verdadeiro bandeirante do comércio que, carregando pesadas malas, adentrava no sertão para levar suas mercadorias, mas também notícias e progresso.
Em 1946, o arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime de Barros Câmara, erigia a primeira paróquia greco-melquita de São Basílio e, em agosto de 1951, foi posta a primeira pedra da igreja de Nossa Senhora do Paraíso, em São Paulo, atual catedral greco-melquita católica do Brasil. Em 1960, o arquimandrita Couéter foi sagrado bispo auxiliar do Rio de Janeiro para a comunidade católica greco-melquita do Brasil.
Existem paróquias em Juiz de Fora, Fortaleza e Belo Horizonte. Acredita-se que, no Brasil, haja 630 mil melquitas.

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