Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Confucionismo

Cristianismo e Superstição

Helio Pedroso

Se mesmo entre os povos de milenar tradição cristã, ainda encontramos traços de superstição, quanto mais difícil será libertar as pessoas recém-cristianizadas e que provêm de culturas fortemente impregnadas de magia. Um pronunciamento da igreja de Benin

É isso o que acontece no Benin, um dos berços do vodu, onde os batizados não conseguem se livrar totalmente das superstições que provêm dos medos ancestrais que marcam a vida dos nativos, do nascimento até a morte. Essa preocupação - para distinguir a fé que liberta da superstição que psicologicamente escraviza - é demonstrada num recente documento do episcopado do país, no qual se elogia a profunda religiosidade do povo mas também se denuncia o medo e a incerteza dos batizados. Entre os cristãos está difundida a convicção de que "se uma pessoa quiser salvar sua vida, tem que se proteger com ritos e meios mágicos", em plena contradição com a fé cristã.
No referido documento, os bispos também denunciam o medo das perseguições dos antepassados e as práticas mágicas, sendo que, para se proteger, até os católicos usam, nem sempre disfarçadamente, amuletos e talismãs e recorrem aos feiticeiros da aldeia. Esses medos aparecem, em particular, nos momentos importantes da vida da aldeias, como nascimentos, matrimônios, doenças, mortes e enterros, durante os quais os cristãos acabam se submetendo às cerimônias tradicionais do vodu.
Outro assunto abordado é o costume ao qual são submetidas as viúvas, geralmente suspeitas de causarem direta ou indiretamente a morte do marido. Essa desumana tradição é aceita também por cristãos. A viúva fica reclusa por um período de três a doze meses e, conforme a aldeia, as tradições locais ou as suspeitas são mais ou menos pesadas. Durante a reclusão, ela está proibida de se lavar, pentear, cortar unhas e pôr roupa limpa; deve dormir no chão e as visitas ou são proibidas ou controladas. Além disso, há verdadeiras torturas como respirar fumaça de pimenta e cebolas: se lacrimejar, ela pode ser acusada de ter provocado realmente a morte do marido. Essas crueldades podem ser evitadas somente comprando os favores de algum parente do marido falecido.
As práticas de adivinhação e o uso dos fetiches aparecem, no documento, como muito procurados pelos cristãos: as primeiras servem para descobrir as causas e o culpado de doenças, mortes e desgraças; os fetiches, para se vingar daqueles que causaram tais males. No esquema mágico, aplica-se o "castigo" no fetiche que, por sua vez, personifica a pessoa causadora da desgraça e objeto da vingança. Entende o povo que quem deseja o mal pode causar doenças fatais, morte moral, social e até física.
Todas essas cerimônias são intermediadas pelo feiticeiro que, conforme acreditam, tem poderes sobre o bem e o mal, podendo trazer ou parar a chuva, castigar ou atrair o sucesso, fazer achar ou perder emprego e objetos, descobrir o homem ou a mulher infiel e até encontrar a pessoa certa com quem se casar. No Benin também existe a crença do "corpo fechado" por amuletos e talismãs que torna a pessoa imune a ataques do inimigo, exatamente como acontece no Brasil. O que preocupa os bispos do Benin é que até católicos com prática religiosa comprometida, como alguns padres e freiras, acreditam nessas superstições e temem realmente que possam ser alvo de vinganças mágicas.

Remédios

Analisando o documento episcopal, encontramos que são várias as causas que explicam esses medos ancestrais, entre elas os problemas psicológicos, para os quais não há uma solução racional. Todavia, aos católicos faltaria uma convicção mais profunda de que Cristo nos liberta e, portanto, quem nele acredita é superior a todas as forças da feitiçaria... mas a tradição cultural grita mais forte. Diante disso, a Igreja do Benin vai partir para uma ação mais incisiva, investindo em grupos de aprofundamento da fé e centros médicos onde a medicina tradicional seria exercida com critérios mais científicos, estimulando a solidariedade entre os fiéis para que o cristão que estiver mergulhado nesses medos ancestrais possa ser ajudado pela compreensão solidária dos outros que já se libertaram deles.

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