Revista "MUNDO e MISSÃO"
Política
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TIMOR LESTE: Violência e conflitos absurdos estão marcando este final de século que já passou para a história como um dos mais brutais. Se a característica de todas as guerras é seu próprio absurdo, visto que quase sempre aquilo que as motiva poderia ser resolvido em uma mesa de negociações, através de acordos, suas estratégias são de uma incomparável e cruel criatividade. Massacres, torturas, perseguições e terrorismo, por exemplo, são sinônimos de limpeza étnica e esta é a desculpa para fazer do outro- membro de outra raça, religião ou etnia- o inimigo absoluto que deve ser destruído não só como pessoa como grupo. Ódios profundos, irracionais e seculares continuam destruindo povos e culturas, fornecendo, regularmente, espetáculos de terror e sangue ao mundo moderno que, todavia, pouco tem feito para impedir massacres e guerras em países que não contam muito no grande canário econômico e político das hegemonias internacionais. O que aconteceu em Kosovo, em vários países da África e agora em Timor Leste sugere uma reflexão difícil sobre nossos tempos que parecem anunciar a falência ética da humanidade. Onde o islã tem mão pesada Há não muito tempo, dizia-se que os próximos conflitos seriam guerras de religião, só não imaginávamos que o futuro estaria tão próximo e que seria tão violento, em tantos lugares do mundo. O povo do Timor Leste, que encarnava uma imagem simplicidade e bondade naturais e parecia longe desse tipo de problema, conheceu, nos últimos tempos, o inferno. E tudo porque esse pequeno país livre, ocupado em 1976 pela Indonésia (fato que a comunidade internacional nunca reconheceu), após vários anos de humilhações políticas por parte do governo central, optou democraticamente pela sua independência. Mais uma vez, os direitos dos povos sancionados pela Carta da Nações Unidas foram violadas, numa franca negação à liberdade de pensamento e de escolha. A Indonésia é maior país mulçumano do mundo: 85% de seus 250milhões de habitantes são de fé islâmica; Timor Leste, ex-colônia portuguesa, é apenas uma pequena parte das 17 mil ilhas que forma o arquipélago indonésio. Lá, 90 % dos 850 mil habitantes são católicos. A história previa um massacre, visto que, desde sua independência, em 1949, o governo indonesiano foi uma seqüência de ditaduras militares que começou com gen. Sukarno, derrubado pelo gen. Wiranto que permitiu a ascensão do poder do atual Habibie. Esses golpes aconteciam juntamente com eventuais "limpezas (leia-se massacre), em que política religião e etnia se misturavam e se separavam, conforme o ditador do momento. Em 1965, foram mortos 500 mil comunistas da Indonésia; em 1998, os católicos das Molucas foram perseguidos, fato pouco conhecido e pouco divulgado pela grande mídia. As desculpas No ano passado, durante a crise econômica, foram massacrados os chineses considerados traidores e exportadores da divisa estrangeira. Hoje, os comunistas não existem mais e quase todos os chineses fugiram: sobraram os católicos poucos, mas unidos e engajados na Igreja, firmes contra as contínuas perseguições nos anos de ocupação Indonésia. Evidentemente, o regime central - em crise após as recentes revoltas dos estudantes - devia encontrar um álibi para defender-se diante da população descontente com os governos corruptos e os católicos constituíam o grupo mais fraco e numericamente insignificante e, portanto, mais fácil de ser esmagado. O que inicialmente era apenas contra os militantes a favor da independência ( aliás, católicos) tornou-se uma perseguição contra os católicos em geral. Também está em crise a Pancasila, alei fundamental do país, promulgada por Sukarno e que tentava reunir varias etnias e os diferentes povos sob a bandeira da unidade nacional e da tolerância religiosa. Mas ela não satisfez nem os povos que não queriam renunciar as sua tradições nem a elite mulçumana que não aceitou perder o islã como religião nacional pelo ideal de um Estado leigo. Além disso, a recente crise econômica que atingiu os tigres asiáticos era, para boa parte da população islâmica, uma espécie de traição do país que estaria cedendo aos modelos que vinham sendo impostos sorrateiramente pelo Ocidente. Na Indonésia, como em outros países asiáticos dependentes do crédito ocidental - que foi abruptamente retirado durante a crise das bolsas asiáticas - consolidou-se a crença de que cristianismo e modernização são filhos do mesmo inimigo: o Ocidente. Essa visão distorcida tem exercido uma grande repercussão que culpa o ocidente pela perda de empregos e salários. Nada diante do mundo Um relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas - UNDP - indica que, após essa crise durante a qual os salários caíram mais de 40-60% e podem demorar vários anos para se recuperar, dezena de milhões perderam trabalho. Isso repercutiu também no corte governamental de subsídios para a instrução, assistência social e saúde, aumentando o estado de crise e revolta. Somente a religião islâmica, especialmente em suas mais radical e extremista expressão, ofereceu uma possibilidade de orgulho nacional e de auto-estima. Portanto, o que agora explodiu de forma incontrolável foi sendo preparado durante um bom tempo, mas passando indiferente aos olhos do mundo, apesar dos contínuos apelos dos lideres timorenses, entre os quais, o prêmio Nobel da Paz, dom Ximenes Belo. EM TEMPO Às vésperas de fechar esta edição, precipitam ainda as últimas noticias sobre os últimos acontecimentos no Timor Leste, agora recebendo Soldados que integrarão uma força de paz internacional.Esta tentará conter os abusos e a crueldade que estão nas paginas de todos os jornais. A agência Fides denuncia uma verdadeira caçada humana, principalmente aos jovens que perseguidos até mesmo nos campos de refugiados. Os timorenses que se arriscam a acompanhar o grande e desesperado êxodo, tiveram que pagar sua segurança aos soldados e à própria polícia. Aqueles que não tiveram tempo foram perseguidos, quando não mortos, tiveram seus bens saqueados, incendiados, destruídos. Pelas ruas, caminhonetes desfilam levando as vitimas como troféus de guerra. Todavia, para os jovens indonésios, os timorenses são considerados como verdadeiros heróis. Um perseguidor político local afirma: "A Indonésia está aprendendo com o Timor Leste o significado da liberdade que tínhamos perdido há muito tempo". O genocídio está sendo o preço da amarga lição. |
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