Revista "MUNDO e MISSÃO"
Mulher
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Porque você acreditou em nós... Não se pode julgar os costumes e as tradições africanas, principalmente as relacionadas à vida da mulher, dentro de nossos esquemas: corremos sempre o risco de querer impor uma verdade. Mais difícil ainda é apresentar um Deus que não tenha o rosto branco, mas o rosto do seu povo. O que pensar de uma criança que, para pedir desculpas à professora, prosta-se por terra a seus pés? Qualquer linha pedagógica moderna certamente abominaria tal comportamento. Em nossa cultura do corpo perfeito e luta feminista, o que pensar das noivas suma, da Etiópia, que inserem uma espécie de prato no lábio inferior, seis meses antes do casamento, sendo que o tamanho indica o número de animais pedido em dote? Se ficamos curiosos para ver os efeitos dessa deformação, rejeitamos totalmente o seu significado mercantilista e tecemos julgamentos implacáveis. Todavia, quando se conversa com que vivencia a experiência do diálogo aberto, sem preconceitos e, principalmente, querendo que a verdade se faça, em nome de um autêntico cristianismo, a história toma novos rumos. E percebe-se o qual profundo é o caminhar entre culturas e o quanto se ganha em genuína humanidade. Foi exatamente isso que experimentei, ao entrevistar irmã Elisabeth, uma dominicana franco-suíça, que todos os nos passa alguns meses em Burkina Fasso, ajudando na formação das noviças e aprendendo com elas como construir uma fé partilhada entre dois mundos tão diferentes. Separação em nome da fé A primeira coisa que ir. Elisabeth lembra já vem carregada de
um sentimento de preocupação, acompanhada de uma necessidade
de rever o passado com lucidez: a evangelização chegou a
Burkina Fasso na "bagagem dos diplomatas", no final do século,
com missionários que, boa fé, acreditavam que sua catequese
teria mais efeito se os novos convertidos vivessem separados. Se os métodos empregados pela evangelização tinha tudo para não dar certo, a questão política e econômica foi decisiva para o sucesso da religião dos brancos. Os burquineses, antes da chegada dos franceses, tinham, por exemplo, uma vida econômica organizada de forma a beneficiar diretamente o povo; com a vinda do colonizador, a arrecadação dos impostos não seria mais proveito das aldeias, mas do arrecadador. Além do mais, uma outra técnica foi amplamente utilizada: os filhos dos chefes locais eram enviados para estudar fora das aldeias para que, quando voltasse, implantassem o modelo colonial. Portanto, era melhor que os negros se colocassem ao lado dos brancos, se quisessem viver. E isso incluía a religião do ocupante significaria ver uma porta se abrir, principalmente se isso trouxesse um trabalho. Hoje, passados cem anos daquela primeira evangelização e diante de outra situação política, ir. Elisabeth acredita que ainda faz parte do inconsciente coletivo do povo burquinense aceitar passivamente a religião do europeu, sem analisar nada: "Fiquei impressionado ao participar de um batizado de adultos em Ugadu. Todas as mulheres estavam vestidas de noiva e quis saber por quê. Na verdade, elas não sabiam dizer o motivo, apenas que era bonito se vestir assim, ainda que fosse uma só vez. As próprias noviças, quando fazem os votos, querem usar hábito europeu". Como conviver com o passado? Apesar de esquecido, sobraram as marcas do sofrimento causado pela ruptura cultural trazida pela colonização. Nas famílias, ainda é com dificuldade que se toca no assunto e as noviças, com a ajuda das próprias missionárias européias só agora começam a analisar sua história, sua fé e a falar- não sem dor- da prática de certos costumes. Exemplo disso é a tradicional ablação do clitóris das meninas, antes de se casarem. Esse costume, que chegou através do islamismo, é amplamente difundido nas aldeias e quem quiser se casar tem que passar pelo dolorido ritual. As cristãs não escapam à regra, poruqe, segundo o costume, o clitóris é uma deformação que precisa ser retirada para que o mau olhado não recaia sobre toda a família. As religiosas escapam, mas porque não se casam e vão viver longe da família. "Fiquei muito comovida - comenta ir. Elisabeth - quando elas começaram a se abria e a falar sobre as coisas que machucavam. Quando se estabelece a amizade, elas querem fazer como nós, mas a vida está na troca e não podemos aproveitar da amizade para conseguir frutos para nossa religião, principalmente porque elas acham que a verdade vem do Ocidental. A verdadeira experiência da fá acontece na Eucaristia, porque naquela hora somos um só coração, não há mais diferença de nenhuma espécie". Silêncios Nem tudo é tão simples de se entender. As noviças comentaram com receio o respeito total que se deve a uma pessoa mais velha. Irmã Elisabeth conta a própria experiência: "Elas nunca me interrompem, nunca me chamaram de você, nunca colocaram uma idéia oposta a minha. Essa não resistência ao velho pode ser terrível, visto que uma menina não pode se recusar a manter relações sexuais com um homem mais velho, ainda que este esteja doente, com Aids, por exemplo". Outra dificuldade que a inculturação encontra é a mentalidade mágica: "No ano passado, um jornal de Nugadu publicou, na primeira pagina de dois homens em nu frontal, para que toda a população visse bem que os dois conservaram seus órgãos intactos. Tudo isso porque difundiu-se pela cidade que algumas pessoas sabiam fazer uma magia que sumia os genitais masculinos. Os dois homens envolvidos asseguravam que tinham sido vitimas e que estavam mutilados. Assim, a população local lapidou os acuados e para evitar mais mortes, o governo publicou as fotos em tamanho gigante". O problema é que sobre tantas coisas ainda pesa um silêncio constrangedor,inclusive da própria Igreja: é o caso dos padres nativos que acham muito normal a ablação do clitóris e que não se deve alterar a ordem normal das coisas. "O cristianismo liberador não chegou ainda na África - comenta a ir. Elisabeth -; é preciso dar um rosto africano à fé em Jesus Cristo. Cada um com sua identidade: nem branco vestido de africano nem africano querendo fazer como os brancos. Cada um com sua riqueza". Essa disponibilidade ao encontro humilde, mas totalmente sincera - fez com que as noviças chamassem ir. Elisabeth de yaaba (vovó), ultrapassando o costume, quebrando as barreiras, criando laços. |
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