Revista "MUNDO e MISSÃO"

Missão Urbana

Anúncio do Evangelho e
o mundo moderno
Perspectivas – Parte 2

base do diálogo com o mundo moderno está fundamentada no encontro com Jesus Cristo e no seguimento do seu Caminho, sob a iluminação do Espírito Santo e em fidelidade ao Projeto do Pai. Ciente de sua identidade, o cristianismo católico pode se relacionar tranqüilamente com a modernidade, sem medo de absorção daquilo que atrapalha viver a beleza do processo salvífico que Deus estabelece para toda humanidade. No entanto, ao mesmo tempo, a inserção no Mistério Pascal também deve nos capacitar para irmos ao encontro das pessoas sem autoritarismo, sem violência, mas com profundo respeito e amor.

Isto faz com que o encontro do Evangelho com a realidade cultural produzam discernimento em torno dos mecanismos, da metodologia, dos procedimentos utilizados para anunciar a mesma Boa Nova, afim de não deixar que o pecado atrapalhe o Encontro. A religião, instrumento humano que transmite os valores do Evangelho, pode deixar-se penetrar por concepções projetivas, alienantes, doentias. É chegada a hora de revermos a nossa organização pastoral e reordená-la a partir do diálogo sincero e honesto com a realidade atual.

A questão urbana moderna exige que descubramos caminhos, interesses, conflitos, onde cada ser humano moderno se encontra, para que, aí, possamos encarnar o Evangelho. Não se trata de criar mais uma pastoral, mas de penetrar dentro da urbanização e trazer, para o trabalho pastoral e missionário, como um todo, a dinâmica urbana e seus padrões culturais modernos. Devemos levar em apreço o fato de que as paróquias foram estruturadas em uma concepção de mundo rural. Precisamos ter a coragem criativa de testemunhar o cristianismo como projeto de vida humanizador, que responde à angústia de homens e mulheres desta conjuntura atual.

O que poderia ser feito? Não temos a intenção de oferecer uma “receita”, mas podemos levantar algumas necessidades que, se não forem preenchidas, dificilmente marcaremos presença evangélica em nossa sociedade.

Novos rumos da pastoral urbana

Teologicamente, a Igreja não é uma democracia, mas ela precisa perceber os valores democráticos e incorporar, em seu planejamento pastoral, aquilo que não contradiz seus princípios teológicos eclesiais. Os Conselhos Diocesanos, Paroquiais e Comunitários devem ser fortemente estimulados, com ampla representatividade leiga, ainda que os leigos não possuam o mesmo poder canônico dos párocos e bispos. Como diz a Lumem Gentium, “... a Igreja terrestre e a Igreja enriquecida de bens celestes, não devem ser consideradas duas coisas, mas formam uma só realidade complexa, em que se funde o elemento divino e humano” (n.º 8).

A obediência deve ser precedida da comunhão fraterna. Obediência cega é desumana, portanto, um pecado. Hoje, pais e filhos, se não dialogam, não conseguem mais se manter em harmonia. Não existe mais autoridade paterna ou materna que simplesmente deva ser imposta. Isto não significa o fim da autoridade e, sim, a renovação da maneira de construir limites. É necessário, portanto, rever os conceitos sociológicos da instituição, hoje apoiada em modelos alheios à dinâmica da vida atual. A Igreja deve ser reconhecida, sobretudo, pela sua fraternidade, e não pela sua autoridade.

Uma Igreja, com grande participação de todos, desenvolverá também uma intensa vivência missionária de uma ação pastoral inserida na cidade, servindo-se de mecanismos que atinjam a vida das pessoas em profundidade e não apenas na superfície. A tendência moderna ao superficialismo deve ser superada por soluções pastorais que possibilitem o encontro das pessoas consigo e com os outros.

Comunidades pequenas (as CEBs ainda são uma importante experiência de fé cristã, realizada no seio da Igreja Católica e em outras igrejas), círculos bíblicos, grupos de rua, catequese dinâmica, liturgia viva, grupos ecumênicos, são importantes contribuições. E não poderá faltar sensibilidade com a religiosidade popular e a revitalização dos movimentos organizados e legitimados pela Igreja, na perspectiva de que suas espiritualidades tenham um compromisso com o ser humano integral: em seus aspectos psíquicos, sociais, políticos e econômicos.

Uma liturgia viva, como foi mencionado, significa ir ao encontro das necessidades existenciais do povo, que fale e responda às carências antropológicas urbanas, onde o povo participe vivamente e não apenas assista a um espetáculo. Quando se fala de liturgia viva, confunde-se, muitas vezes, com shows, onde a Eucaristia deixa de ser o cume da comunhão fraterna, do sacrifício salvífico do Cristo e da memória do mistério pascal, para se transformar em pretexto para assistir “artistas famosos”.

Precisamos, sim, de uma liturgia orante, sem banalizar, contudo, a beleza e a profundidade teológica do itinerário litúrgico proposto no calendário católico. Naturalmente, diante do que foi exposto até aqui, será necessária também uma base que dê suporte à realização de tal caminho. Supõe a formação de quadros competentes, capacitados, com o ardor missionário de quem se sente convocado pelo Senhor da História para viver a vida cristã no diálogo com o mundo moderno.

É preciso realizar um esforço de formação em duas direções: por um lado, rever a formação dos futuros presbíteros e, por outro, rever e intensificar a formação dos leigos, para que estes possam estar à altura do diálogo. Os leigos com função ministerial podem ser os “tentáculos” da Igreja em vários espaços da realidade hodierna. No que tange à formação dos presbíteros, é necessária uma reformulação da estrutura dos seminários. Se não é possível reconhecer o limite teológico do celibato obrigatório, e de maior participação das mulheres no ministério eclesial, então é preciso uma adequação à realidade antropológica atual.

Não é fechando mais seminários, tendência atual da Igreja Católica, que se garantirá a formação de pessoas bem estruturadas. Não se pode exigir o celibato de seres humanos despreparados psicologicamente e sem maturidade afetiva. Num mundo erotizado como o moderno, não se pode impor as mãos sobre a cabeça de um homem, sobre o qual não se tenha um mínimo de garantia quanto à sua capacidade de ser relacionar humanamente com outros homens e mulheres, jovens e crianças.

A Igreja, profeticamente, precisa ser realmente comunidade. Outras questões devem ser trabalhadas, mas o espaço não permite sinalizar. Enfim, com estas indicações, o que se buscou foi alertar um pouco mais a Comunidade Eclesial para este novo momento em que estamos vivendo, momento complexo, cheio de nuanças, e que não pode ser avaliado apressadamente. A proposta salvadora de Jesus Cristo precisa falar de modo atraente e contagiante para as pessoas de nossa época. Pessoas concretas, com suas alegrias e tristezas, e não clientes.

Celso P. Caria é professor de Teologia
E.mail: cpcarias@uol.com.br

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar