Revista "MUNDO e MISSÃO"
Missão Urbana
A Boa Notícia de Jesus (Evangelho) é sempre atual. No entanto, essa atualidade só é percebida se os(as) missionários(as) se fazem capazes de articular o presente com o passado. Não basta repetir fórmulas prontas. Como dizia um grande cristão católico brasileiro, o professor Paulo Freire, falecido em 1997, a palavra do Cristo “não é som que voa: é PALAVRAÇÃO”. Continuando ainda a repetir Paulo Freire, “Não posso conhecer os Evangelhos se os tomo como palavras que puramente ‘aterrissam’ em meu ser ou se, considerando-me um espaço vazio, pretendo enchê-lo com elas... Pelo contrário, conheço os Evangelhos,
bem ou mal, na medida em que, bem ou mal, os vivo.” E, para tornar
a Palavra uma ação transformadora de nossas vidas na direção
da plenitude, é preciso entender e dialogar com o mundo no qual
estamos vivendo a Palavra. Na grande cidade, estamos diante de seres humanos cansados, massacrados pelo trabalho ou angustiados pela falta dele, atingidos por inúmeros interesses e preocupações. O número de relações sociais é muito mais complexo do que a vizinhança. Até mesmo as relações de parentesco já não possuem a mesma referência. Assim sendo, é preciso muita serenidade para não cair logo numa atitude de condenação. É interessante como facilmente esquecemos aquela atitude acolhedora de Jesus de Nazaré que não manda a samaritana embora, que não se afasta dos publicanos e pecadores. Como esquecemos que também nós somos “doentes” e precisamos do “médico” Jesus Cristo!... Quanta dificuldade para perceber a humanidade dos homossexuais, das prostitutas, dos encarcerados, etc. Defrontamo-nos, hoje, com todo o movimento de emancipação e de valorização da mulher, vemos sua conquista de mais espaços na organização da vida em cidade. Muitas das comunidades católicas no Brasil, por exemplo, estariam fechadas se não fosse por elas. A questão urbana é um problema de grande urgência para a organização de qualquer instituição na atual conjuntura. Como afirma uma reportagem de uma revista de grande circulação no Brasil (VEJA), de 28 de julho de 1999, muitas cidades serão, dentro em breve, grandes favelões urbanos, se já não o são. São Paulo, por exemplo, será a terceira cidade mais populosa do mundo no século XXI, sendo superada apenas por Tóquio e Bombaim. O Rio de Janeiro será a vigésima cidade em população. Não será nada fácil buscar soluções para tal situação. Problemas de transporte, moradia, saneamento, saúde pública, meio ambiente, drogas, violência, etc. É essa uma realidade que atinge, ainda que de maneira mais suave, também grandes cidades dos chamados países do primeiro mundo. A configuração das metrópoles brasileiras, onde vive a maioria da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é agravada por um crescimento populacional desordenado, o que acontece também em muitas cidades espalhadas pelo mundo.
Trata-se de uma população com grande mobilidade social devido, sobretudo, à falta de moradia e ao desemprego. Ora, o que significa anunciar o Evangelho de Jesus Cristo no interior de uma realidade assim? Com essas indicações, o que se está buscando é alertar um pouco mais a comunidade eclesial para este novo momento que estamos vivendo, momento complexo, cheio de nuanças e que não pode ser avaliado apressadamente. O desejo é contribuir para que a proposta salvadora de Jesus Cristo fale de modo atraente e contagiante para as pessoas de nossa época. Pessoas concretas, com suas alegrias e tristezas, e não clientes. É preciso lançar uma olhar carinhoso, sobretudo para aqueles e aquelas que são excluídos pelo sistema, para que tenhamos, de fato, um “Novo Milênio sem Exclusões”. O trabalho pastoral na Igreja deve assumir essa verdade fundamental, impregnando nossa cultura e ajudando para que ela seja humanizada. O trabalho pastoral hoje Muitas vezes, o caminho pastoral proposto pela Igreja católica e por muitas Igrejas cristãs históricas, preocupadas com o avanço do neopentecostalismo, tem buscado se relacionar com o mundo moderno, acentuando dimensões que não ajudam, de fato, a superar obstáculos que permitam a sociedade perceber o profundo valor humano da mensagem cristã. Tomam-se da modernidade aspectos superficiais, até se confundindo com aquilo que ela tem de pior. Exemplo maior é a transformação de práticas pastorais em estratégias de consumo. A fé cristã passa a ser encarada como um produto a ser vendido no mercado. E, como disse o papa Paulo VI, “importa evangelizar – não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às sua raízes” (EN, n.º 20). Uma observação mais cuidadosa das últimas estatísticas sobre a questão do fenômeno religioso mostra um dado interessante. À primeira vista, parece que as religiões neopentecostais teriam uma larga vantagem. No entanto, se tomarmos, no Brasil, por exemplo, a questão dos que não se encaixam em religião alguma, o que nos países da Europa parece ser mais preocupante, veremos que, nos últimos 30 anos, o seu número vem crescendo significativamente. O IBGE constata que, em 1970, os sem religião representavam 0,8 % da população, no ano 2000, passaram para 7,4%. Um crescimento de quase 700%. Ora, a pergunta que deve ser feita é por que ocorre esse crescimento. Sem mencionar as religiões chamadas alternativas e as pessoas que respondem aderir a uma religião cujos princípios não direcionam sua vida.. Assim, as análises ficam, como já mencionado, no superficial: estética, imagem, comunicação, etc, dados importantes, mas que são conseqüência e não estrutura da modernidade. É preciso buscar o fundamento antropológico e filosófico da sociedade moderna para poder dialogar com ela. É esse o caminho proposto. |
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