Revista "MUNDO e MISSÃO"

Missão Urbana

por Alberto Garuti

uitos conhecem o Pe. Júlio Lancellotti. Ele aparece muitas vezes na mídia, pois trabalha com crianças de rua, com crianças infratoras recém-saídas da Febem, com crianças portadoras do vírus HIV. Ele nos recebeu, com muita cordialidade, numa das casas de que cuida, a “Casa Vida”, residência de crianças portadoras do vírus HIV, em São Paulo. Pedimos que descrevesse para os leitores de Mundo e Missão seu multifacetado trabalho.

O senhor poderia nos descrever seu trabalho atual?

– Sou pároco de São Miguel Arcanjo, na Mooca, uma paróquia que está numa área muito antiga da cidade, que tem inúmeros idosos e que passa por uma transformação imobiliária. Antigamente, aqui havia muitas fábricas, que foram fechadas e demolidas e agora, no mesmo lugar, estão sendo construídos prédios de apartamentos. A paróquia tem também uma capela dentro da Universidade São Judas, com 19 mil alunos.

Além da paróquia, o senhor atua em outras atividades?

– O meu trabalho é a paróquia. Mas faço parte também da Pastoral do Menor, um trabalho bastante amplo e complexo, porque cuida de adolescentes infratores, através da Liberdade Assistida Comunitária e do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente.

O senhor trabalha na Febem?

– Não, eu trabalho com jovens que saíram da Febem. Mas nossos advogados, por exemplo, entram em todas as unidades onde ocorram denúncias de tortura. Lá, eles verificam todas as acusações. Temos três advogados, dois estagiários, psicólogos, quatro técnicos e nosso pessoal administrativo.

Como é seu trabalho com os menores infratores?

– Trabalhamos com as famílias dos jovens que cometeram infração. Eles estão em Liberdade Assistida (LA). Moram com a família, mas continuam sendo acompanhados. Alguns estão em LA porque estão saindo da Febem. É como uma liberdade condicional. Têm que ter acompanhamento médico, de escolaridade, profissionalização, colocação no mercado de trabalho, atendimento psicológico...

O que acontece a um jovem que sai da Febem, em LA, e procura a Liberdade Assistida Comunitária?

– Através de uma visita à casa dele, conhecemos a situação da família e iniciamos um trabalho para criar vínculos com o jovem, um elo de confiança. Às vezes, ele chega com dor de dentes, e então é preciso encaminhá-lo ao dentista; ou se, naquele dia, não tiver o que comer em casa; ou se precisar tirar documentos, pois a maioria deles está sem documentos; ou se precisar voltar para escola, para algum curso profissionalizante...

Essa assistência é dada pela nossa equipe, mas há também o controle do Judiciário. Mantemos um controle mensal sobre o acompanhamento. Quando se diz que eles voltam para a família, às vezes essa família se reduz à avó ou uma tia. Nem sempre eles têm pai e mãe. Eles precisam muito de apoio, pois quem vive à sua espera é o tráfico de drogas. Seu maior perigo é cair de novo nas garras de traficantes.


Pe. Júlio Lancellotti, entre crianças da sua comunidade

Fale-nos de algum caso que o senhor acompanhou.

Há pouco tempo, um menino perguntou a uma das educadoras:

– Você tem filhos?
– Tenho.
– É da minha idade?
– É!
– E você trata seu filho como me trata?
– Sim. Por quê?
– Porque ninguém cuidou de mim tão bem como você.

Era como se quisesse dizer:

“Que sorte tem teu filho!”. Nem tudo depende de nós, que cuidamos dos que estão em LA. Fazemos uma parte. Mas eles têm que andar com as próprias pernas e pensar com a própria cabeça. Não podemos pensar por eles. Nós temos que estar juntos, construindo caminhos.
O acompanhamento dura 6 meses, no mínimo, mas pode chegar a um ano oficialmente. Geralmente, os acompanhamos depois disso tudo. Os que conseguem decolar, às vezes mandam notícias. Os que não conseguem, continuam conosco.

Qual a maior dificuldade encontrada neste resgate?

– Conseguir trabalho para eles. O padre Comblin costuma dizer: “Eles são a geração dos inempregáveis”.
O sistema econômico está equacionado de tal forma que não há emprego para todos. Hoje, para ser empacotador de supermercado, é preciso diploma de Ensino Médio. Eles não alcançam esse nível de ensino, e os que lá chegam, têm uma escolaridade que deixa a desejar. Nossas escolas públicas são fraquíssimas.

Que área da cidade sua equipe atende?

– Acompanhamos grupos de uma área específica: Belém, Brás, Tatuapé, Mooca, Água Rasa e Aricanduva. Todas na zona leste de São Paulo. Em cada área geográfica da cidade há um posto para acompanhar os menores. A maior dificuldade que a gente encontra, além de arranjar trabalho e emprego, é com as escolas. Elas rejeitam, têm horror aos alunos em LA. Tudo o que acontece na escola é atribuído a tais alunos, que se tornam o bode expiatório. É uma fama altamente discriminatória. Isso é crime! A escola é obrigada a aceitá-los, mas muitas se recusam. Elas se comunicam entre si e, quando marcam algum deles, nenhuma das outras aceita o coitado. Tem escola com grades, com polícia, escolas que fazem boletim de ocorrência. Se o aluno é do bairro, as dificuldades de aceitação aumentam, pois todos sabem a infração que ele cometeu. Nós não temos Política Pública para a juventude. E, aí, estoura tudo na escola, na mão do professor. Todos os problemas dos jovens estouram lá dentro.

Qual é o tipo de adolescente que entra nesses grupos e que acaba, depois, na Febem?

– Os das classes populares. São jovens de alta vulnerabilidade devido à falta de perspectivas e às drogas. Falta uma política específica para eles.

De que mais sente falta para seu trabalho?

– De Política Pública na área da saúde e da escola. Um professor de Ensino Médio não tem condições de dar uma aula decente em sala com 45 ou 50 alunos. É brincadeira.

Quantos conseguem a reinserção social?

– Nosso índice de respostas positivas é de 82 a 83%.

Elas abandonam o tipo de vida que levavam até então?

– Abandonam ou se acertam. Para quem já está envolvido com o tráfico, sair é difícil.

A maioria dos que estão na Febem vem do tráfico?

– Muitos vêm do tráfico ou do uso de drogas. Lembro-me de um menino que acompanhamos. Fizemos um trabalho imenso com ele, uma coisa tremenda. No fim, ele se afastou de nós, tornou-se gerente do tráfico. Foi preso, ficou 3 ou 4 anos na cadeia (já como adulto). Agora que saiu, veio nos visitar. Confessou: “Quando estava na cadeia, lembrava-me de vocês todos os dias. Vocês foram os únicos que me quiseram bem”. Tem alguns em LA que não vieram da Febem. Gente que roubou um toca-fitas, por exemplo. Logo depois da primeira infração, vem para a LA e não para a Febem.

Que 82 ou 83% consigam dar respostas positivas não significa que deixaram a miséria de vez; eles podem continuar tendo dificuldades. E, depois, há de se ver com que teoria se trabalha a questão das drogas. Nós trabalhamos pela ótica da redução de danos. É um método de recuperação de dependentes de drogas, porque as pessoas não deixam o vício de repente. A gente tem que ir reduzindo os danos e as drogas, aos poucos, criando novas possibilidades, novas perspectivas. Ninguém educa no imediatismo. A educação é um processo demorado.

As autoridades têm apoiado suas atividades?

– Não é bem um apoio individual o que precisamos; nós queremos, isto sim, que o Estatuto da Criança e do Adolescente seja respeitado; que tenhamos Políticas Públicas para crianças e adolescentes, e que a Constituição seja considerada, quando declara que crianças e adolescentes são prioridade no Brasil.

Qual a impressão que estes jovens causam ao senhor?

– O que chama a atenção é que eles, em um tratamento individual, têm sentimentos muito fortes, enorme sensibilidade. São pessoas afáveis, com muitos conflitos internos, dificuldades imensas. Alguns exigem longo trabalho, até que possamos tocar-lhes o coração, e muitos respondem de maneira extremamente positiva, especialmente quando percebem que são atendidos com sinceridade. Quando saem da Febem, depois de castigos e tudo o mais, é-nos exigido muito tempo para conseguirmos algum resultado. É que eles saem embrutecidos de lá. Revoltados. Não conseguem enxergar nada direito. Para torturar, há bastante gente preparada lá dentro. Já cansei de ver adolescentes torturados. Mas há também unidades que funcionam muito bem, são positivas. No entanto, você não pode esperar que cadeia seja boa, em nenhuma parte do mundo.

Como o senhor consegue dar conta desse trabalho, se tem também a paróquia?

– Não só a paróquia, mas tenho também o povo da rua, porque sou responsável pela Pastoral de Rua e desta casa, a “Casa Vida”, que acolhe crianças com HIV. O meu trabalho com os moradores de rua tem duas vertentes: uma é a luta para obter Políticas Públicas adequadas. Para conseguir, por exemplo, que a Lei 12.316, que estabeleceu Políticas para o povo de rua, seja efetivamente implantada em São Paulo, a fim de acompanhar o atendimento aos sem-teto da capital. A outra vertente é a Casa de Oração do povo de rua, no bairro da Luz, onde alguns sem-teto ingressaram na Escola do Serviço do Senhor e devem ser missionários na rua.

Como eles exercem esse trabalho?

– Através de alguns compromissos. O primeiro é partilhar com os irmãos o que aprendem na Casa de Oração e servir aos outros. Devem pacificar conflitos, tentar humanizar as relações recíprocas. Assumem a espiritualidade beneditina da Escola do Serviço do Senhor, fazem estudos bíblicos, participam de retiros. Na Casa, há celebrações todos os domingos, canta-se o ofício das comunidades. Evidentemente, existem os que pensam que o morador de rua só quer esmola e comida. Não! O morador de rua pensa em muitas outras coisas.

Qual o objetivo do trabalho com o morador de rua?

– É alimentar o convívio com eles e formar comunidades. Sair da rua pode acontecer um dia, como pode nunca acontecer. Se não, torna-se uma pastoral muito utilitarista. Eles têm que dispor de oportunidades para sair desse ambiente através das Políticas Públicas, mas precisam passar por um caminho de humanização, de vivência na fé. A maioria dos moradores de rua é formada por homens sozinhos. Mas está aumentando o número de mulheres e de famílias inteiras. Hoje, a população adulta de rua é de 10.700 pessoas em São Paulo, segundo alguns. Outros afirmam que o contingente esteja chegando a 12 mil indivíduos. Crianças que moram nas ruas do centro da capital seriam aproximadamente 400. As que trabalham pelas ruas são umas quatro mil. Porém, elas não tem a rua como sua residência. Também faço parte da entidade chamada Nossa Senhora do Bom Parto, que atende a 10 mil crianças e adolescentes, diariamente, em 51 núcleos diferentes.

Quem mora nesta casa?

– Esta casa, e outra como esta, são as “Casas Vida”. Nelas, residem 34 crianças e adolescentes com HIV. É a casa deles.

Eles têm assistência médica?

– Esta é somente a casa deles. Assistência médica é no hospital. Dentista, só no consultório. A escola é lá fora também; se não, a casa se torna uma instituição. Alguns adolescentes foram abandonados pela família. Outros a têm, e nós tentamos encontrá-la.


CONTATO
Tel.: (11) 6291.2831
Site: www.casavida.org.br
E-mail: casa.vida@terra.com.br

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