Revista "MUNDO e MISSÃO
Leigos
O leigo e o mundo globalizado
Após palestra sobre “Humanismo e Protagonismo Leigo: Pessoa x Indivíduo” no dia 28 de junho deste ano, no ciclo Jornadas Humanísticas, promovido pelos Institutos Jacques Maritain, K. Adenauer e FIDES, além da Associação dos Antigos Alunos da Companhia de Jesus (ASIA) e dos Dirigentes Cristãos de Empresas (ADGE), Dr. Cândido Mendes concedeu breve entrevista a Mundo e Missão
– O múnus especial do leigo dentro da vida da Igreja é dar o testemunho da sua vida no mundo e, neste sentido, ele deve abrir-se a todas as virtualidades do concreto com uma ação de profundo testemunho. Viver, portanto, a contemporaneidade de seu tempo nas suas exigências de poder “ser mais” e de combater os elementos que a dificultam. Como ele deve agir? – Em primeiro lugar, deve defender a tese da atenção social, compreendendo que a sociedade de consumo e a organização de sua complexidade fecham as oportunidades de acesso social e, cada vez mais, criam o mundo dos “mais iguais”: todo mundo que já tem, terá mais; todo mundo que não tem, terá menos. Nesta sociedade, defender o acesso à ascensão social é, a priori, responder à catolicidade. Não é mais possível justificar uma dominância dos melhores; atrasar o acesso social, por uma preocupação com a excelência; ter-se uma condição que continue a privilegiar alguns, no campo da educação, ao invés de permitir a cultura do acesso aos demais. É suficiente? – Não! O segundo problema, que me parece importante, é que a defesa dos direitos humanos é uma noção relativamente nova na Igreja. Porque a Igreja, preocupada com o anúncio e com a outra vida, até certo ponto vivia nesta expectativa futura, enquanto o ser humano concreto, explorado por outro ser humano concreto, já sofre uma série de expropriações e violências. Desta situação surgiu, hoje mais ainda, um reclamo leigo. O problema dos extermínios, dos massacres em massa, da negação total dos direitos humanos criou a síndrome dos direitos humanos como conseqüência do horror da Segunda Guerra Mundial. E a Igreja .... – Alguns setores da Igreja tiveram enorme papel na defesa dos direitos. Basta ver a sua luta contra a escravatura, como no caso de Vieira no Brasil, que deu um alerta, a partir do caso dos índios. Eu quero salientar que estes direitos apenas estão sendo, de fato, vistos a partir de sua totalidade. É evidente que a tortura, os problemas ligados ao isolamento, à prisão confinada, por exemplo, são situações sobre as quais a Igreja terá sempre algo mais a dizer. Mas há outros tipos de perda de direitos, tais como os crimes de imagem, que não têm reparação dentro daquilo que a sociedade moderna exige, sobretudo dentro da mídia, onde, por exemplo, lesar a honra de alguém na TV, dificilmente terá reparação. Situações que surgiram com a modernidade? – Isso é um dos piores crimes que a sociedade mais moderna, que se vangloria de ser moderna, não consegue reparar. Outro direito, poucas vezes reconhecido, é o direito de resposta. No mundo da mídia, avassala-se uma honra, contradisse-se alguém, e não se dá o direito do interlocutório, que não é outra coisa que o direito da imagem, direito essencial para a conservação de uma sociedade democrática. Esses tipos de direito vão permitir que a sociedade garanta a sua especificidade, a sua diferença. A verdade é que, com o controle e não só com o poder, mas com o controle midiático, vivemos cada vez mais nosso simulacro, e até pensamos que vivemos o que parece ser nós mesmos. Na verdade, aquilo nos foi condicionado como o instrumento de alta esperteza do mundo midiático à nossa volta. Agora, depois de tudo isso que o senhor falou, a questão do ecumenismo ... – É o terceiro elemento. É a questão do diálogo entre as culturas. É outro testemunho que o católico tem que dar. O movimento ecumênico é o movimento que não pode deixar de ter a catolicidade no seu centro. Existem várias áreas onde esse tipo de diálogo se faz com a profunda presença católica. Hoje a catolicidade tem um papel muito grande. Cito o exemplo da vocação dos católicos americanos, que não transformaram o cidadão islâmico no seu antagonista definitivo. Esta é uma vocação do católico americano. E ela é fundamental para se evitar o clima do fundamentalismo ocidental e o clima das cruzadas, promovido pelo seu presidente. Sobretudo, eu acredito que esta função do diálogo e do reconhecimento do outro, vai ser fundamental para que, depois da guerra entre as nações, não entremos nas guerras dos Cem Anos contra o outro; guerras justificadas pelos terroristas. A catolicidade nos faz entrar dentro dessa globalização e assumir outra perspectiva, outra postura. É isso? – A globalização nos faz entrar dentro desse mundo mas, muitas vezes, já travestidos no seu simulacro. Quer dizer: o mundo global define primeiro o seu argumento, acerta seu script para depois nos transformar em personagens. O grande problema do mundo global é saber como sair dele, e como ele se transforma em labirinto devastador da nossa individualidade. Como é que a gente vai conseguir, no mundo da mídia, criar a diferença, a crítica, e defender a memória e a autenticidade? Parece que não há espaço para uma solução. Tem que respeitar a alteridade ... – É isso mesmo! É respeitar a alteridade. O mundo midiático já é um mundo no qual a pessoa se transforma num fantasma. E hoje, na conversação pela Internet, não se sabe quem está falando; são personagens que se transformam, inclusive, num simulacro de si mesmos. Site: Conheça mais sobre
o Instituto Jacques Maritain no site brasileiro: Vida
dedicada Cândido Mendes de Almeida é professor, educador, advogado, sociólogo, cientista político e ensaísta. Recebeu da família uma sólida formação humana e profunda vivência cristã. A experiência e compreensão dos fatos sócio-culturais conduziram-no a relevantes postos políticos, religiosos, educacionais e jurídicos internacionais. Está à frente de uma grande instituição de Ensino do país (a Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro). É uma das mais fortes vozes leigas em instituições da Igreja. “Cândido Mendes dedicou-se ao laicato brasileiro (...) sempre atento à autonomia da tarefa no seio da Igreja, e dentro da máxima liberdade de desempenho frente ao desígnio de Alceu (Amoroso Lima), a agir segundo a sua inspiração, sem condicionamentos prévios, buscando o compromisso do testemunho católico com o seu tempo”, escreveu Almir de Castro. Ele atuou em vários organismos internacionais e se destacou na Comissão Pontifícia Justiça e Paz, do Vaticano. Sua militância na Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), da qual foi Secretário Geral, despertou a Igreja para a luta contra a tortura política. Suas investigações tiveram papel fundamental para a distensão política e para o combate à repressão do Estado. A Comissão tornou-se o “braço secular da CNBB” e a “voz das injustiças sem voz” durante o período militar. Dr. Cândido Mendes de Almeida é autor ou co-autor de inúmeras obras sócio-políticas. Colabora com várias matérias semanais em diversos jornais do país. HUMANISMO por Alceu Amoroso Lima Filho
Cândido Mendes de Almeida, em palestra no dia 28/06/2004
INDIGNAÇÃO Para ser coerente, não vejo outra postura moral de cidadão, no quadro do país hoje, do que uma postura de indignação, que leve a atitudes pessoais e grupais de ver a realidade, julgar as opções que se colocam e agir no sentido de, dentro das possibilidades e do alcance de cada cidadão, trabalhar para transformar a realidade, à luz da ética. Não me refiro às coisas explícitas, claras, tais como a espantosa e vergonhosa concentração de renda no Brasil, ou à chocante miséria de uma parcela considerável da população, que entra pelos nossos olhos todos os dias, andando pelas ruas. Na verdade, essas são ameaças claras ao humanismo, cuja existência não resiste ao mínimo exame de qualquer pessoa, e por cuja mudança temos todos o dever de lutar. É preciso falar sobre elas e lutar para que acabem, mas, por serem tão claras, são também fáceis de esgotar nossa indignação e aplacar nossa consciência... Refiro-me às coisas escondidas, disfarçadas, que passam desapercebidas, e que, por isso mesmo, são mais difíceis de serem vistas, portanto complexas para julgar, e cuja análise e compreensão apresenta dificuldades para que as pessoas se sensibilizem, dificultando, assim, qualquer ação conseqüente. São as ameaças escondidas, contra as quais poucos lutam; às vezes, porque nos incomodam pessoalmente ou, no mínimo, porque afetam nossa confortável vidinha de todos os dias, mas que, se não forem resolvidas, o país não vai andar!!! Refiro-me à corrupção, ao corporativismo, ao nepotismo, ao clientelismo, vícios bem arraigados na nossa cultura, cuja prática vai fundo na ameaça ao humanismo, na concepção ética que Maritain, e nós, seus seguidores, queremos propagar, divulgar e defender. Tudo colocado debaixo do disfarce do chamado “jeitinho brasileiro”, que, a meu ver, fez muito mais mal a esse país do que se possa imaginar!
Jacques Maritain, “Humanismo Integral” O “JEITINHO BRASILEIRO” O “jeitinho brasileiro” é a prática de ações que beneficiam poucos em detrimento da maioria! É muito fácil ter posições paternalistas, humanitárias sim, porém no fundo pouco humanistas. Dar esmola na rua é humanitário, mas será que está presente um espírito humanista ou serve para confortar a consciência com alguns reais que não nos farão falta, e esquecer a substância do problema? A substância do problema é que a sociedade não proporcionou condições para que aquela pessoa, aquele ser humano, viesse a ter a oportunidade de conseguir uma vida digna, trabalhar e não precisar pedir esmola. O humanismo é ameaçado quando um ser humano tem que depender de outro para sua mínima subsistência! Será espírito humanista defender os tão falados direitos adquiridos que, na realidade, são privilégios adquiridos? Será espírito humanista defender privilégios adquiridos de aposentados funcionários públicos cujo ganho é sete vezes maior do que aposentados da empresa privada? Então, não são seres humanos igualmente trabalhadores, igualmente merecedores do respeito da sociedade? Sabemos que é legal que parlamentares pratiquem abertamente o nepotismo, empregando legiões de parentes (muitas vezes ausentes, incompetentes, ou ambos!), mas, será legítimo? Mormente se para tal prática utilizam-se de recursos que são da população? Vemos aqui, uma vez mais, o humanismo ameaçado, e isto na medida em que uns poucos se apropriam dos recursos que resultam do trabalho de todos, e muitas vezes nem mesmo retornam esse benefício em trabalho para a população em geral. É legítimo que estudantes que podem pagar seus estudos universitários, estudem gratuitamente, usando os recursos de todos para o proveito de poucos, e mais ainda, eventualmente tirando oportunidades de estudantes sem recursos, que assim ficam à margem do processo, ao lhes ser negada oportunidade? Aí está o disfarce: no que é legal... mas que não é legítimo; os que são beneficiados dormem tranqüilos com a lei..., os prejudicados não dormem, porque a lei, muitas vezes, esqueceu-se deles; privilegiou uns poucos em detrimento do bem comum. E na mesma linha poderíamos citar muitos outros exemplos. Todos aqui poderão pensar em muitos outros exemplos, de ameaças, ou mesmo de agressões ao humanismo, no sentido ético, e como encontrar um caminho que, corrigindo esses desvios do comportamento ético, beneficie a coletividade, a população em geral, nossos irmãos seres humanos. A ALTERNATIVA Só vejo um caminho, certamente não o mais fácil, mas, no meu modo de ver, o único que poderá surtir efeito, a médio e longo prazo: um caminho que passa pela transformação quase que completa da questão educacional, proporcionando uma reforma pessoal, isto é, cada um se aprofunda consigo mesmo, refletindo e mudando seu comportamento pessoal em relação a esses desvios éticos. Aliás, ensina-nos o velho adágio popular que “o todo é a soma das partes”, como todos sabemos, lei científica que nunca será mudada! No dia em que todos, e este número aumenta a cada dia, nos indignarmos ao ver, utilizarmos nossa consciência ética ao julgar, e nos lançarmos numa ação de mudanças desses males endêmicos tão comuns em nosso país, aí então a situação começará a mudar, a princípio lentamente, cada vez mais aceleradamente, e sempre ficará em continua mudança pois, como meu pai (Tristão de Athayde) dizia, o ser humano pode não ser confiável, e sempre vai inventar desvios egoístas e individualistas, que precisam ser combatidos para que o bem comum prevaleça. Certamente serei chamado de ingênuo, inocente útil, ou qualificativos piores, mas tenho certeza que, se conseguir pelo menos que a maioria das pessoas ouçam e, quem sabe, concordem com essa necessidade de reforma pessoal, acho que já terei cumprido minha parte: o diagnóstico está feito!!! A terapêutica é difícil? Sem dúvida, mas é uma tarefa que constantemente se coloca em nosso caminho, e que, cumprida, nos aproximará sempre mais do caminho ético e moral de que todos necessitamos e que todos desejamos para todos os homens e para o homem todo, nas palavras de Maritain e seus seguidores.
“A natureza do homem não é a natureza das coisas ou dos vegetais ou dos animais. O homem participa da natureza de todas as coisas. Mas o que o torna verdadeiramente homem é precisamente a capacidade de arrancar uma parte de seu ser – a parte exclusivamente humana – a esse impacto determinista das naturezas inferiores a ele. A natureza do homem é precisamente ultrapassar as naturezas inferiores, de que participa, e aproximar-se da perfeição contida em naturezas superiores, que a sua intuição, mesmo puramente racional, pode prever (...). O que torna o homem realmente homem não é o que ele tem de comum com as naturezas inferiores, mas o que ele tem de próprio à sua natureza. E nesse ponto é que dizemos que o único imperativo da moral, norma do aperfeiçoamento humano, não é mais do que tornar o homem verdadeiramente um homem”. Alceu Amoroso Lima, “Tudo é Mistério” |
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