Revista "MUNDO e MISSÃO"
Jovens
É um precioso resumo da recente história nacional, que retirou da trajetória política os que poderiam, de alguma forma, contestar. Prisão, tortura e morte calaram vozes e canções. E muitos dos seus filhos, gerados pelo silêncio, desconhecem palanques, crescem longe dos debates, nada vendo além de si mesmos. Ao som do “eu me amo”, um grande número deles caminha sem saber para onde, desviando-se da miséria alheia, que brota por todos os lados, e da qual não se sente responsável. A juventude não é uma categoria genérica de gente entre 10 e 24 anos de idade, como se formasse um conjunto homogêneo de pessoas. O modo de vida, os problemas e as necessidades dos jovens variam de acordo com o local onde vivem, sexo, faixa de idade e posição social. Ou seja, não há uma juventude apenas. E a maioria dos seus problemas identifica-se com as mesmas dificuldades de toda a população. No entanto, o fenômeno provoca pânico moral em muitos adultos. Sobre tal fenômeno debruça-se, preocupada, a sociedade. É que mudanças significativas ocorrem no seu comportamento, relativo a papéis sociais, como os que dizem respeito ao desenvolvimento biológico (puberdade e adolescência), afirmação de gênero, sexualidade, relacionamentos, necessidade de lazer, formação cultural e acesso à informação, estudo como preparação profissional, serviço militar... O QUADRO SOMBRIO A disputa por vagas nas universidades públicas e no posterior mercado de trabalho, cada vez mais exigente, converte-se em mecanismos de exclusão social nunca antes vivenciados. Dos cinqüenta milhões de jovens brasileiros, 32% estão abaixo da linha de pobreza, 20,3% não estudam e 17,8% não trabalham, atestam dados recentes do IBGE. Além disso, 79 mil detentos brasileiros têm menos de 24 anos de idade. Convém lembrar que a responsabilidade civil e criminal e a maioridade legal, adquiridas aos 18 anos, transformam o jovem em senhor dos próprios atos e, portanto, sujeito às penas da lei. O livro “Juventude e Revolução: uma investigação sobre a atitude revolucionária juvenil no Brasil” (Editora da UnB, 1999), de Hermes Zaneti, desenha um quadro sombrio, ao descrever que “essa juventude convive com a liberação sexual (...) que é freada pela aids, pelo risco da gravidez precoce e pelo conflito do aborto. Vive numa sociedade virtual globalizada pela universalização da televisão e da Internet, criando expectativas, no geral ilusórias, pela impossibilidade prática de viabilizá-las. Nestas circunstâncias, um número significativo de jovens passa a usar a droga como forma de fugir do mundo real. Organizam-se, em número sempre crescente, em ‘galeras’ e ‘gangues’, em busca da segurança que a sociedade não lhes oferece, em disputa de territórios para demarcar a sua influência e em busca de afirmação individual para construir sua identidade. Nestas circunstâncias, crescem as insatisfações, os conflitos, as ansiedades e angústias e, não raro, degeneram em violência”. De fato, não são poucos os jovens que “cheiram” em uma hora o salário de um mês, assim como não é difícil ver, nas vielas dos grandes centros, rapazes e moças com “um canudo na mão e um baseado na orelha”. ALIENADOS? NEM TANTO! As instituições sociais devem proteger as novas gerações. Porém, muitos jovens rejeitam-nas ao perceberem que, em variadas circunstâncias, elas criam e alimentam mecanismos de exclusão: famílias desfeitas; escolas preocupadas com a concorrência acadêmica e carentes de solidariedade; manifestações religiosas alienantes; mercado de trabalho oportunista e predador; Estado corrupto ou omisso, que julga “resgatar” os jovens só através de ações fragmentadas ou paternalistas. Ao jovem não falta consciência política. A recente sondagem: “Jovens eleitores: consciência e participação política”, do Instituto da Cidadania, revelou que 84% deles acham que a política é interessante e faz parte do cotidiano. Mas, 65% desejam participar apenas como eleitores. De fato, a área político-partidário é a única onde sobram vagas para eles. OS NOVOS CONTEXTOS
Os adultos de hoje cresceram em um mundo mais previsível, menos fragmentado e com certezas bem tangíveis. Porém, as mais recentes conquistas da inteligência humana, nas várias áreas do domínio tecnológico, vêm promovendo verdadeira revolução da cultura material. Assim, máquinas e instrumentos mudam com mais rapidez do que a religião, os padrões familiares e a educação. As gerações mais novas, nascidas no coração das mudanças, tendem a considerar tudo o que é mais antigo do que elas como arcaico e obsoleto. Ao passo que tudo o que é novo e criativo é algo que dará certo. É no mundo da velocidade que elas expressam sentimentos e idéias. Seu universo é o do ciberespaço, do hipertexto e da multimídia, fluidos e imediatos, rápidos e fugazes. Na realidade, o espaço virtual dispersa, subverte e redefine radicalmente noções de comunidade e de vida urbana, tão caros aos adultos. Mas os adultos não podem ignorar o fenômeno, como se fosse um modismo momentâneo. É preciso compreender o que está acontecendo, explorar opções futuras, encontrar alternativas para intervir, e inserir aí os valores permanentes e universais de justiça, paz e liberdade. Cabe aos adultos reavaliar seus compromissos com a realidade virtual, por onde transitam, com tanta desenvoltura, seus próprios filhos. O mundo adulto deve repensar noções de linguagem, de tempo, de relacionamentos humanos e fazer as pazes com a nova geração. E A ESCOLA, HEIN? Até o contexto socializador da escola perdeu espaço para a mídia eletrônica de massa. Os meios de comunicação, o rock, a música eletrônica e a cultura da droga são forças novas a impulsionar as energias de boa parte dos jovens. Eles não lêem e não discutem com adultos. Têm, no entanto, uma apaixonante compulsão pela música barulhenta e por baladas intermináveis, que lhes abrandam os estados da alma. B. Green e C. Bigum afirmam: “Tendo em vista que será a juventude que herdará a terra, que é ela que já habita o futuro, em muitos sentidos, nós deveríamos contemplar a possibilidade de que somos nós (os adultos) os que estamos sendo, cada vez mais, transformados em ‘outros’, com nossos poderes se desvanecendo, no momento mesmo em que os exercemos, cada vez mais estrangeiros em nossas salas de aula e na cultura pós-moderna, de forma mais geral”. Mais à frente, continuam: “Imersos na mídia eletrônica, os jovens estão numa posição melhor para saber, a partir da experiência direta, o que significa não ter nenhum sentido de história, o que significa viver num mundo de simulacros e ver a forma humana como provisória” (Alienígenas na Sala de Aula – Vozes, 1995, págs. n.º 213 e 216). DEUS TEM ESPAÇO NESSE UNIVERSO? A seqüência da matéria estará na próxima edição sob o título: “Eles precisam de um olhar”. |
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