Revista "MUNDO e MISSÃO"
Jovens
“Pão e Senhor” por Costanzo Donegana e Pedro Miskalo
Pe. Giancarlo
é conselheiro-geral da M.M.: Quais as funções do Conselheiro-Geral? – A de acompanhar e supervisionar as atividades educativas, reabilitativas e assistenciais em nossas casas, para que elas sejam sempre testemunho e sinal profético de caridade. Que possam dar testemunho vivo, eficaz, da caridade, entendendo-a como serviço aos mais pobres.
M.M.: Quem foi don Guanella? – Ele viveu entre 1842 e 1915. Era sacerdote da diocese de Como – Itália. Desde criança percebeu um chamado à caridade, através do serviço. Ordenado sacerdote, aos 24 anos, dedicou-se à elevação social, através do resgate social dos mais humildes. Depois de ficar ao lado de dom Bosco, entre 1875 a 1878, regressou à sua diocese e decidiu escolarizar crianças pobres e adultos. Sofreu forte resistência da maçonaria e o bispo, então, mandou-o a um povoado isolado. Dois anos depois, o prelado chamou-o de volta à beira do lago de Como, onde algumas freiras mantinham uma obra de caridade. O sacerdote que as assistia faleceu. Então, don Guanella substituiu-o e levou adiante a obra. Em 1886, a obra expandiu-se pela diocese de Como. Chegou a Milão e a outras partes da Itália do Norte. Em 1903, chegou em Roma e, quando don Guanella morreu, em 1915, já havia mais de trinta casas. Guanella dizia que as casas eram a Arca de Noé: “Se a pessoa está abandonada, tem direito de entrar”. M.M.: Este é o carisma da Obra? – É! Carisma de caridade, de serviço e de ajuda à pessoa em situação de grave dificuldade, de marginalização. O serviço se transforma em promoção humana e cristã. O fundador insistia: “Nossa tarefa é dar pão e Senhor. Pão para uma vida digna. E Senhor, para a pessoa conhecer e amar a Deus, caminhar na direção do paraíso, através de vida digna. Não basta a promoção humana, é preciso promoção cristã”. M.M.: O maior carisma é a educação ou a reabilitação? – Depende. Em São Paulo, mantemos três obras. Duas, no campo da educação. Uma com crianças carentes. Outra, com crianças de rua. A terceira, a maior, na área da reabilitação. M.M.: Como foi o início? – Trabalhávamos nas paróquias. Sabíamos que as crianças deficientes, mas não carentes, eram assistidas pelas famílias. Mas as deficientes e carentes não tinham nenhuma assistência. E o cardeal Arns nos falava da necessidade de atendê-las. Foi assim que começamos por aqui, inspirados pelas palavras de don Guanella: “Devemos seguir os passos da Providência. Onde ela nos envia, faz-nos entender que há uma necessidade especial para determinada categoria de pessoas”. M.M.: Onde mais vocês atuam? – Em dezenove países de quatro continentes. As irmãs da Congregação trabalham em alguns países onde os padres não trabalham, e vice-versa. Na verdade, don Guanella começou suas casas com irmãs e, só depois, com os padres.
M.M.: Por que a palavra “casas”? – O fundador queria que padres e irmãs formassem, em cada casa, uma única comunidade religiosa. Ele sonhava com um clima de família, com os dois perfis fundamentais: homem e mulher. Por isso, chamava suas obras de “casas”. Uma família nos relacionamentos, na gestão, no estilo educativo, na assistência. Mas Roma não aceitou essa “mistura”, que não ia ser entendida. Então ficaram separados. M.M.: As vocações femininas prevalecem? – Depende do lugar. Na Ásia e na África temos muitas vocações. E onde não há vocações femininas, também não há vocações masculinas, e assim por diante. Homens ou mulheres, nós seguimos a ordem de don Guanella, que pedia: “Acolham a pessoa mais abandonada e marginalizada. Recolham pelas estradas e coloquem-na à sua mesa, façam-na ser como vocês, porque ela é Jesus Cristo em pessoa. Acolham o excluído. Se ele já tem um ponto de apoio, então não precisa de vocês”. M.M.: E as vítimas da síndrome de Down? – Buscamos sua formação espiritual e cristã, porque a maioria das instituições descuida dessa área. Essas pessoas são mais privilegiadas, às vezes, que as demais, no relacionamento com Deus, porque são espontâneas, intuitivas. O raciocínio humano pretende, às vezes, dialogar com Deus de forma paritária. Elas, não! Elas percebem sua fragilidade e a necessidade de salvação. Para elas vale a palavra “bem-aventurados os pobres de espírito”. O resgate da parte moral, espiritual, sobretudo dessas crianças, é o mais essencial. E nós não podemos retirar o essencial da vida, porque, senão, fica nada! Se, depois, elas não sentem a alegria de serem filhas de Deus, que adianta? O que mais vale: uma máquina que caminha melhor, ou uma pessoa que caminha melhor? M.M.: É a pedagogia da integração? – Exato! Cuidamos da parte espiritual, moral e religiosa, com o mesmo empenho, forças, energias, com que cuidamos da parte física. No último seminário, uma jovem deficiente emocionou a todos, dizendo: “Nós não queremos somente inclusão. Queremos participação na vida social, porque podemos contribuir para melhorar a sociedade que, no final, é exclusivista. Chega, por favor, de inclusão, queremos participar!”.
A recuperação física e mental é insuficiente. Mas, reconhecemos a dificuldade do trabalho e a necessidade de contínuo investimento. Nem tanto em dinheiro, mas em pessoas, em valores. Não é fácil encontrar pessoas que aceitem trabalhar nessas áreas. Entre jovens é mais fácil e gratificante porque você vê a sementinha crescer. Com essas pessoas, ao contrário, é preciso esperar um ano para colher um resultado mínimo e o trabalho é sobretudo um ato de cuidado, de atenção, de carinho... É luta diária, paciente, compreensiva, corajosa. M.M.: Qual a idade mínima de atendimento? – A partir do nascimento. Quanto mais cedo a gente se preocupa com a reabilitação, melhores serão os resultados. Damos atendimento psicológico, neurológico, psicomotriz, logopédico. Fazemos equoterapia. M.M.: E a idade limite? – Atendemos até aos 20 anos. E estimulamos os colaboradores para que, com a competência adquirida conosco, abram e mantenham centros de acolhida para adultos. Já surgiu um pequeno centro, cuja gestão está nas mãos de dois colaboradores que trabalharam conosco. M.M.: Como vocês se sustentam? – Na Europa, as casas recebem ajuda do Estado. Não o suficiente, é claro, porém lá o interesse do Estado pelo problema social é maior. A outra parte vem pela Providência. don Guanella dizia: “se quisermos a ajuda da Providência, devemos dar as quatro mãos, para que ela nos ajude também”. No Terceiro Mundo, é mínima a ajuda da entidade pública. No nosso caso, a prefeitura ajuda com a oitava parte do custo real da manutenção das crianças. O restante é fruto da Providência, através de amigos, benfeitores, gente do povo. M.M.: Vocês fazem propaganda? – O nosso trabalho é a nossa melhor publicidade. Se o povo percebe que o trabalho é muito bom, ele ajuda. Se não percebe, não adianta pedir. Confiamos na Providência divina e no surgimento de uma consciência social pública. Temos que trabalhar muito para abrir espaço a essa consciência. CONTATO Obra Don Guanella |
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