Revista "MUNDO e MISSÃO"
Jovens
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OS MENINOS SÃO O PRESENTE Renato Chiera Adolescentes e jovens marginalizados reivindicam seu protagonismo na construção de um mundo com mais vida Cento e trinta e quatro adolescentes e jovens, vindos da Itália, Alemanha, Peru, Equador, Guatemala e várias partes do Brasil, representando adolescentes e jovens excluídos, encontraram-se nos dias 26/12 - 05/01/2001 na Baixada Fluminense-Nova Iguaçu, para o terceiro Congresso Internacional do Movimento " Nós, meninos do mundo". A Casa do Menor e o Centro de Formação da Diocese de Nova Iguaçu sediaram o evento internacional. "Viemos para celebrar os 500 anos do Brasil e sobretudo o Jubileu alternativo na periferia do mundo, a partir dos excluídos, com a profecia do protagonismo dos pequenos, que querem ser construtores de vida e de esperança para o terceiro milênio", explicam no documento final. O mundo como pátria "Embora com dificuldades, fizemos nestes dias a bela experiência de que o mundo unido não é apenas um sonho, mas já começou entre nós. De fato, vivemos juntos na convivência, no diálogo, no enriquecimento entre adolescentes e jovens com culturas e características diferentes e experimentamos que é possível um mundo novo e solidário no respeito e na acolhida da identidade de cada pessoa e de cada povo, se cada um é capaz de dar a vida pelo outro", explica-nos um menino da Casa do Menor. "Estamos aprendendo a amar o outro como a nós mesmos, a valorizar e amar a cultura e a pátria do outro como nossa e sentimos que agora a nossa pátria deve ser o mundo. Queremos ensaiar a construção da aldeia global", dizem no documento final. O novo milênio deverá ter a característica não da intolerância e da violência entre povos e religiões, como aconteceu no século passado, mas do encontro entre diferentes que se enriquecem. Uma dança feita pelos equatorianos com fitas de várias cores que iam se entrelaçando expressou bem a vontade de construir comunhão e unidade, respeitando a distinção e a característica de cada pessoa e de cada cultura, vista não mais como ameaça, mas como dom que embeleza a humanidade. "Para fazer isto, é preciso perder algo do nosso individualismo e se fazer um com o outro que é diferente. É fazer como Jesus que era Deus que se fez homem como nós e disso nasceu a vida nova", afirma o adolescente Wallace. "Foi difícil viver isso, mas valeu a pena". Escutem o nosso grito! Esses adolescentes e jovens fizeram-se voz das crianças, adolescentes e jovens dos países que representavam e do mundo inteiro. "Gostaríamos que parassem e escutassem a nossa voz e o nosso grito. É um grito sempre mais forte por causa da miséria e da exclusão que geram morte. Nós sofremos muito no Norte e no Sul do mundo, embora de maneiras diferentes. A maioria dos nossos sofrimentos são provocados pelos adultos", denunciam com força na carta final. Em frente à Catedral de Santo Antônio de Nova Iguaçu, onde, há três anos, cinco meninos foram assassinados, celebraram a matança dos Inocentes de Belém e, numa sugestiva liturgia, denunciaram que Herodes ainda não morreu e pediram perdão por todos os sofrimentos vividos pelos meninos do Brasil, da América Latina e do mundo inteiro. "É um genocídio silencioso, é uma tragédia imensa. Os grandes se calam e a sociedade aceita como normal essa situação absurda ou pensa que não é possível fazer nada", declaram com tristeza. A questão da criança é central no começo do novo milênio, sintoma e resultado de todas as contradições da sociedade, da família, dos governos e dos sistemas econômicos imperantes. O mundo construído pelos adultos não vai bem. Não se respeitam os direitos fundamentais proclamados nas declarações solenes de organismos nacionais e internacionais (veja o ECA no Brasil). Não se investe em políticas públicas para proteger esses direitos e depois se criminalizam os meninos que, na verdade, são vítimas da omissão da sociedade e dos governos. Aumenta assim a criminalidade infanto-juvenil e a sociedade invoca medidas repressivas, ao invés de investir na família, na escola, na educação e na profissionalização. Solução, não problema Com o Menino-Deus de Belém começou a salvação do mundo: com os meninos unidos na periferia do mundo nasce uma esperança no começo do milênio. " Nós, meninos, não somos só futuro, somos já presente. Não somos só problema, somos solução e somos portadores de valores e de profecia", proclamam com ousadia e segurança. "Temos muito a dizer e a contribuir, mas ninguém nos escuta e nos leva a sério. Esperam que cresçamos" . Esses adolescentes pedem que seja reconhecido o protagonismo deles e a contribuição que podem dar para um mundo onde se respeitem a vida e a causa das crianças. Só assim terá futuro e vida para todos, sentenciam. Os meninos pedem espaços e protagonismo no mundo da política, nos governos municipais, estaduais e federais e querem assumir de verdade uma cidadania com responsabilidade, apresentando soluções também aos governos e à sociedade. No documento final, cobram encontros com os governantes dos vários países para dialogar e buscar caminhos. Na frente da Candelária no Rio de Janeiro, abraçando a cruz que lembra a chacina de oito meninos de rua, entre cantos e danças, entregaram o documento final aos representantes do governo, da Assembléia Legislativa, do CONANDA, do UNICEF, dos Conselhos de Defesa da Criança e do Adolescente. A Rede Globo, a Rede Vida e Canção Nova, registraram esses momentos históricos e veicularam o profético evento. Sugestões ao governantes Emociona ouvir a leitura das sugestões e das soluções que esses pequenos apresentam aos governantes, aos responsáveis civis e religiosos e à sociedade em geral. Os meninos do mundo alertam que é preciso mudar o coração da economia mundial e redescobrir a cultura do dar e da partilha ou aumentará sempre mais a exclusão. Pedem, com segurança, uma globalização solidária e sobretudo o perdão da dívida. "Este dinheiro não faz falta para quem já tem muito, mas para nós é questão de vida ou de morte" , dizem os representantes do Terceiro Mundo com a aprovação dos meninos do Primeiro. Cobram o compromisso da ONU para vencer a mortalidade infantil, coisa possível se for prioridade de todos. Pedem aos governos que invistam prioritariamente na defesa da vida e depois nas outras coisas que não são tão essenciais. Apontam a educação, a escola, a profissionalização e a família como questões prioritárias. "É um investimento inteligente", dizem, "e não custa caro como manter meninos nas cadeias ou lidar com a violência e a conseqüência da violência". Pedem espaços verdes nas cidades para poder viver, brincar, encontrar-se e não entrar nas drogas. Apelam aos meios de comunicação para que não explorem as crianças, mas as eduquem ao amor, à solidariedade, ao positivo e não destruam as culturas e as características de cada povo com a massificação. Em setembro de 2001, haverá uma sessão especial sobre as crianças na Assembléia Geral das Nações Unidas. Os meninos do mundo querem estar presentes neste momento para poder falar. "É bonito falar sobre os meninos, nos disseram, mas é mais bonito deixar que nós também falemos e colaboremos com a construção de um mundo onde cada criança tenha o direito de ser criança". "Eu pensava que não valia nada, que não podia fazer nada para os meninos que, como eu, estavam na rua. Nestes dias descobri que, como fui ajudado pela Casa do Menor, assim posso ajudar outros a se tornarem gente como eu. Estou à disposição para isto", revela Orlando. "Nós, meninos, somos muitos no mundo, unidos somos fortes. Não podemos jogar fora a nossa vida nas drogas, devemos construir uma nova história", declara Luís Fernando, abraçando e despedindo-se dos meninos vindos da Europa, da América Latina e do Brasil que voltam levando um novo sonho, que já está se tornando realidade. Contato: Renato Chiera - chiera@novanet.com.br |
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