Revista "MUNDO e MISSÃO"
Jovens
Mais adiante, o papa foi categórico: “É indispensável saber vencer a tentação da chamada ‘sociedade de consumo’, da ambição de ter sempre mais, em vez de procurar ser sempre mais, da ambição de ter sempre mais, enquanto outros têm sempre menos. Penso que aqui, na vida de cada jovem, ganha sentido e força concretos e atuais a bem-aventurança à pobreza em espírito: no jovem rico para que aprenda que o seu supérfluo é quase sempre o que falta a outros e para que não se retire triste (cf. Mt 19,22), quando percebe, no fundo da consciência, um apelo do Senhor a um desapego mais pleno; no jovem que vive a dura contingência da incerteza quanto ao dia de amanhã, talvez até na fome, para que, buscando a legítima melhoria de condições para si e para os seus, seja atraído pela dignidade humana, mas não pela ambição, pela ganância, pelo fascínio do supérfluo”. FALTOU PAIXÃO? Milhares de jovens eufóricos aplaudiram as palavras de fogo do papa. Hoje eles têm mais de quarenta anos e são profissionais liberais urbanos, comerciantes, políticos, sacerdotes. O apelo inspirado de João Paulo II foi, certamente, um fermento na alma de muitos, semente generosa caída em bom terreno. No entanto, fome, miséria e desespero ainda campeiam dentro ou ao lado dos que aplaudiram o papa. Faltou paixão? Até o próprio Cristo se entristeceu quando o jovem rico virou-lhe as costas. Mas respeitou a opção, tomada na aurora da vida, pois sabia que o mundo enche os olhos de quem o descobre pela primeira vez. O mundo é apaixonante. Aliás, tudo é apaixonante, a partir das decisões que direcionam os passos para o futuro. Paixão! “O amor não pode crescer sem paixão!”, lembra Têmis, no mito de Eros. Citando o mito no texto “Juventude, laços e paixões”, a psicóloga Liciana Caneschi afirma que a paixão é uma espécie de motor vital, uma parceira necessária para o amor e o crescimento humano. “A paixão, dirigida para fora e não narcisista, pode oferecer belas emoções, que edificam tanto o indivíduo quanto o grupo no qual ele está inserido” (Itaici – Revista de Espiritualidade Inaciana – n.º 60, pág. 61). Liciana lembra a importância do obstáculo para o crescimento do jovem: “hoje, percebe-se que a realidade das ‘baladas’ não gera muitos obstáculos e que, portanto, a permissividade talvez possa estar impedindo um genuíno enamoramento. Com isso, pode-se inferir que o maior obstáculo do jovem seja ele mesmo. Seu maior desafio talvez seja sair de seu próprio mundinho, abandonar sua preguiça, seu comodismo e ir ao encontro do outro e de seu mistério” (op. cit. pág. 61). FÉ E COERÊNCIA ÉTICA
A página Interativa, na revista desde janeiro, lembra uma pesquisa, que afirma: “Oitenta por cento dos jovens europeus acreditam em Deus, mas não participam da comunidade de fé e nem todos se preocupam com a coerência ética”. Ou seja, entre eles e Deus há uma enorme distância. Estamos seguindo o mesmo caminho? O padre irlandês Jorge Boran, após muitos anos na América Latina, escreveu: “Nas paróquias das grandes cidades latino-americanas chama a atenção a ausência de jovens nas missas. Em alguns bairros de classe média a ausência é alarmante – quase 99%. Muitos desses jovens perderam os vínculos com a Igreja católica. Na medida em que avançam a cultura moderna e pós-moderna, impulsionadas pelos meios de comunicação e o ambiente de progresso das grandes cidades, desaparece a cultura católica e suas estruturas de apoio. Pode acontecer aqui o que aconteceu na Europa: a primeira geração não pratica a religião nem educa os filhos na fé, por conseqüência, a segunda não tem referências da fé cristã” (Revista Rogate, n.º 233, pág. 14). O leitor poderá argumentar que o cristianismo não se reduz ao ritual e à freqüência das celebrações. É evidente, mas essa ocorrência é um forte sintoma de individualismo e de abandono dos demais aspectos visíveis de fé e do quadro de referência espiritual. A Pesquisa Perfil da Juventude Brasileira (Sebrae, 2003) perguntou aos jovens: “Quais os assuntos que mais interessam?”. Apenas 6% dos jovens disseram que religião é o assunto que mais lhes interessa. LER OS SINAIS DOS TEMPOS A Igreja perdeu os jovens. Principalmente os jovens urbanos, os mais instruídos. Mas deve prestar atenção aos demais fiéis pois, segundo experts em religião, “bastam duas gerações para que as pessoas percam todo o contato com o cristianismo. Se a primeira geração não pratica a religião e não educa seus filhos na fé, a segunda não terá nenhuma referência cristã”, citou padre Boran. Democracia, diálogo, busca da felicidade humana, transparência política, liberdade e justiça, sexualidade e os direitos das minorias, são tantos os valores que interessam aos jovens, especialmente os universitários. “Os jovens universitários, os intelectuais e os profissionais são os formadores da opinião pública. Ignorá-los significa comprometer o futuro da Igreja. É neste segmento que a falta de fé avança com mais velocidade. Muitos estão abertos a uma dimensão espiritual da vida, porém desligada da Igreja institucional”, escreveu padre Boran. E continuou: “O caminho futuro exige um trabalho em duas frentes: a evangelização da grande massa de jovens empobrecidos; e, ao mesmo tempo, enfrentar o desafio de construir uma Igreja que tenha relevância para uma juventude com nível crescente de escolaridade”. EXPERIÊNCIAS O jovem não é tabula rasa espiritual, espaço vazio a ser catequizado a qualquer custo. Ele rejeita a catequese, mas aceita o Evangelho, que é Vida. Sua espiritualidade, latente, está à espera de alguém que lhe mostre a pessoa de Jesus, que corajosamente quebrou estruturas e denunciou a hipocrisia religiosa e moral da época. Ele quer ser autêntico como Francisco e Clara de Assis, Francisco Xavier, Maximiliano Kolbe, Teresa de Calcutá e outros tantos... que evangelizaram pelo próprio exemplo. Algumas iniciativas de participação efetiva, novos carismas, de mística e militância, estão descobrindo como cativar o jovem, que é mais sensível à dor alheia, à cultura da morte, à superficialidade da modernidade e à injustiça social. Mundo e Missão vem publicando experiências recentes, ricas do dinamismo do Espírito, que as torna fortes. Todas realçam a figura de Jesus de Nazaré. Quando dele se enamoram, os jovens superam obstáculos e não temem abraçar o excluído, o doente, o menino de rua, drogados e prostitutas. E, como sal e luz, dão sabor às comunidades em que vivem. Mas nada disso acontece se eles não encontram adultos também apaixonados pelo Cristo. Adultos que lhes transmitam o corajoso “escândalo” do Evangelho, que abracem suas dores e alegrias e que lhes deitem um olhar de ternura e de paz. |
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