Revista "MUNDO e MISSÃO"
Jovens
“Jovens e Missão” difere de outras organizações do Primeiro Mundo, que oferecem a possibilidade de passar um tempo nas missões, trabalhando, fazendo obras. “Jovens e Missão” é, em primeiro lugar, um caminho que leva o jovem a fazer uma busca dentro de si mesmo, durante dois anos. Inicialmente, há uma entrevista com um padre ou uma freira, para discernir as motivações de quem quer iniciar a caminhada. Seguem-se encontros mensais de um dia ou um fim-de-semana. No início, os jovens refletem sobre temas gerais, como fé, sacramento, Jesus Cristo. Em seguida, lhes é apresentada a missão: anúncio, inculturação, promoção humana, diálogo inter-religioso. Na metade do primeiro ano, após a segunda entrevista, o jovem recebe a destinação à missão, não como opção pessoal. André confessou: “Quando comecei, pensava na África, mas durante a caminhada, descobri que todos os lugares são belos: tenho a possibilidade de conhecer uma Igreja, uma cultura diferente, de abrir mais meus horizontes”. Tiago reforçou: “Não tinha muitas expectativas, preferi confiar em Deus e viver ‘o encontro’, os conteúdos que nos seriam transmitidos”. O segundo ano é dedicado a uma reflexão sobre a experiência feita. Todos os jovens estavam engajados em paróquia ou comunidade, sob diferentes formas: como catequista, líder em grupo dos jovens, etc. Porém, na maioria dos casos, o apelo para a missão não veio da paróquia, em geral pouco sensível à dimensão missionária. Por motivos diversos, eles conheceram o Pime e entraram no caminho “Jovens e Missão”. Alguns já haviam participado de missão, até em outro continente. A EXPERIÊNCIA Terminado o mês de experiência, os jovens se reencontraram para a avaliação. Eles reconheceram que não é fácil entender uma realidade com tantas diferenças sócio-econômicas e religiosas. É longo o vôo entre a Itália e o Brasil, não apenas no aspecto geográfico, mas sobretudo em termos de cultura. Porém, foi interessante perceber neles a ausência de chavões ou preconceitos, facilmente encontráveis entre turistas ou pessoas de negócios que vêm ao País, imaginado como a terra do futebol, do carnaval, das mulatas, e, para os mais “esclarecidos”, da Amazônia e dos meninos de rua. Isso foi, sem dúvida, fruto da preparação que os jovens tiveram anteriormente. “Fiquei impressionado com a religiosidade do povo brasileiro”, confessou André. “Eles não têm medo de manifestar publicamente a fé. Visitei pessoas pobres, famílias com deficientes físicos ou psíquicos. Falando, seu intercalar era ‘graças a Deus’”. “É verdade!”, reforçou Giovanna. “Num barraco, encontrei um senhor com um filho deficiente, de quem ele cuida com amor infinito. A esposa os abandonou”. E continuou: “Uma noite, um pequeno coral de seis pessoas ensaiava os cantos em uma capela, sem desanimar pelo número reduzido, mas com entusiasmo e coragem. ‘Nossa força é a fé’, explicava uma senhora”. Tiago afirmou que foi importante o próprio testemunho, participando da Missa diariamente, junto com o povo. No Mato Grosso do Sul, ao conhecer comunidades que têm a Eucaristia só uma vez por mês ou apenas uma por ano, fê-lo valorizar a Missa, da qual ele, na Itália, pode participar com extrema facilidade.
“Vi pessoas que têm pouco acesso aos sacramentos, mas que conservam a fé. Provavelmente eu já teria perdido a minha”, concluiu. “Estes testemunhos enriqueceram muito a gente” – comentou Giovanna –, “em primeiro lugar, o dos missionários, sempre disponíveis a nos atender, a nos inserir na realidade, estimulando-nos com seu estilo de vida e sua palavra”. Fábio lembrou também a figura de dona Zélia, de São Paulo, que perdeu toda a família em acidente de carro e não ficou imobilizada na dor, mas resolveu dedicar-se ao próximo na paróquia de Porto Murtinho, no Centro-Oeste. Daniel, que também esteve em Porto Murtinho, ficou chocado com a pobreza: “No início, salta à vista a pobreza material, mas, depois, torna-se visível a carência moral, devido às circunstâncias familiares, agravadas pelo isolamento imposto pelas distâncias, lá na fronteira com o Paraguai. Por isso, acho que não é tão importante prestar ajuda material, mas vale mais a presença, a participação. Pe. João Carlos, o pároco, revelou-nos que o povo compreendeu nosso testemunho de gratuidade no trabalho que realizamos para a missão”. A maioria dos jovens hospedou-se nas casas paroquiais. Chiara e Giovanna foram acolhidas por uma família de Ibiporã. “Apesar de termos a dificuldade da língua na comunicação com eles, pudemos experimentar como vive uma família brasileira”, disse Chiara. “Fomos recebidas com grande carinho e afeto.
Chegamos com o desejo, típico de pessoas como nós, que vêm do Primeiro Mundo com as melhores intenções, de ir aos bairros mais pobres. Mas eles nos levaram ao museu, à universidade. No início, isso não nos interessava; depois entendemos que eles queriam nos mostrar também as coisas bonitas. Ajudou-nos muito uma reflexão do Pe. Jaime, quando nos disse que poderíamos viver nossa experiência de duas maneiras: ou agindo intempestivamente, ou ouvindo e aprendendo, como Maria, que conservava todas as coisas no coração”. Giovanna revelou: “Quando havia uma dificuldade, íamos à igreja rezar”. E fez uma reflexão essencial sobre sua experiência: “a missão não é aquilo que você imagina; o importante é aceitar a realidade que você encontra e procurar vivenciá-la”. O FUTURO Perguntamos aos jovens que influência poderá ter na vida futura a experiência feita no Brasil. Em geral, eles responderam que a experiência os marcou, mas que não estão em condição de prever as escolhas futuras. Eles ainda devem focalizar e refletir sobre todos os elementos da experiência. Algumas respostas foram mais personalizadas, como a de Daniel, estudante de medicina: “Sempre pensei em exercer a profissão fora da Itália. Acho que poderia trabalhar aqui no Brasil”. Giovanna confessou: “A experiência confirmou meu desejo de não me limitar à paróquia. Sinto que uma experiência desse tipo não será a última, não sei como, se pela vida toda ou não, porque ela me marcou muito”. André foi incisivo: “O missionário está num lugar porque ama a Cristo e quer levá-lo aos outros. Sinto que devo traduzir na minha vida algumas coisas vividas aqui, na Itália, ou em outro continente”. O outro André emocionou-se: “Quero viver a missionariedade no cotidiano, mas não é fácil”. E concluiu com uma comparação marcante: “No meu trabalho, na Itália, deparo-me com pessoas perfeitas, mas insatisfeitas, irritadas. Aqui encontrei um aleijado que repetia ‘graças a Deus’. Ele estava contente porque Alguém lhe dava uma motivação para viver”. |
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