Revista "MUNDO e MISSÃO"

Jovens

Novembro de 2006 – Edição n.º 03
Entre Jovens é parte integrante da
Revista MUNDO e MISSÃO

EDITORIAL

Ecoa o grito de Zumbi

ufavam os tambores e atabaques nas capoeiras e nos quilombos. Zumbia na floresta o canto de Zumbi, líder dos Palmares. O céu testemunhava e abraçava a luta por liberdade que tomava conta do coração daquele povo, daqueles homens e mulheres que viam no rosto de cada criança que nascia mais um sofredor, mas um feixe de esperança. “Aceitar quem você é!”, disse Clara de Assis, estudante de Nutrição, 23 anos, a respeito de Consciência Negra. O tema é propício e relevante, afinal, no dia 20 deste mês, comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra.

Tudo começou com o desejo de tornar o negro um agente protagonista numa sociedade em que ele era deixado de lado, à margem, sem voz nem vez. Nos dias atuais, há ainda questões em aberto, há manifestações de desrespeito e preconceito. A equipe do Entre Jovens, neste mês, decidiu abordar esse tema, acreditando que um assunto tão presente no cenário nacional, tão vivo na vida da juventude, não poderia passar em vão sem, ao menos, uma breve reflexão, sem se colocar o dedo na ferida.

Danielli do Espírito Santo Constantino, 19 anos, membro da Pastoral da Juventude, declarou que é de extrema importância um espaço para a juventude discuti-lo, pois muitos jovens não têm idéia do que seja e falta-lhes espaço para debater esse tema. Infelizmente, ainda há racismo em nosso meio, e a maioria dos negros não tem participação livre em todas as esferas sociais – são vítimas do abandono e da miséria.

 

Tudo isso resulta de um passado vergonhoso que encontrou uma solução superficial e ineficaz para a vida do negro escravo. Hoje, como juventude, somos convidados, além de derrubar as muralhas de preconceito que nos separam e envergonham, a destruir os grilhões da intolerância que marginalizam o negro de um lado, e transformam a luta por liberdade e igualdade social em um instrumento de politização e não de fraternidade. Por fim, é nossa missão propagar, como diz Luciana de Pádua, estudante de Biologia, “que não há diferença, mas sim diversidade”.

Jonathan Constantino – 20 anos

 

PAPO ABERTO

“A Pastoral Afro é muito importante para incentivarmos as pessoas a participarem de uma causa justa. Ser negro não é feio. É ser humano. É ter amor. É não diferenciar ninguém pela cor”.

Edna Silva Carvalho
da Pastoral Afro da Paróquia N.Sra. Aparecida, em Santa Isabel

“Acho que, por mais que tentem negar, vivemos numa sociedade preconceituosa, onde mesmo quem é negro não se considera como tal e foge de sua realidade. Não tenho pele escura, mas sou negro, não me envergonho disso, pois isso vem do sangue!”.

Cleiton Martins, 17 anos

“O Dia da Consciência Negra deveria servir para reflexão sobre o quanto já erramos em nossas vidas, e o quanto continuamos errando, ao não darmos condições reais aos negros de ocuparem seu papel na sociedade como cidadãos comuns, dotados de deveres e de direitos”.

Viviane Moura, 20 anos

“Queria poder ser avaliada pelas minhas capacidades e qualificações e não pela cor da pele. Acho que mereço essa chance”.

Cátia Vianna, 23 anos

“Sou seminarista em Vitória da Conquista, Bahia. Parabenizo-os pela belíssima seção que chega às nossas mãos, na revista Mundo e Missão. Trabalho com a Pastoral da Juventude aqui na Paróquia (Santa Luzia) e encontrei um conteúdo muito rico para trabalhar com os jovens. Espero poder desfrutar de mais assuntos interessantes, pois a revista sempre me surpreende e fico feliz em poder ter acesso a um meio de comunicação que se pauta na ética e nos valores cristãos”.

Anderson Reis

“Quero parabenizá-los por terem assumido esse desafio e pelo convite da revista Mundo e Missão para que nós, jovens, tenhamos um espaço nessa revista tão importante para estarmos a par da missão no mundo e animar-nos a seguir nesse caminho. Daqui da Bolívia, onde faço meu noviciado, quero me colocar à disposição para ajudar no que for preciso”.

Daniel Aguirre Bolívia

CENTELHAS

A Palavra

por Gianfranco Vianello

“Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de alegria. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e lhe prestaram homenagem. Depois, abriram seus cofres e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra”. (Mt 2,10-11)

O nascimento do menino Jesus está cheio de valores e significados: a pobreza, o silêncio, a alegria, a simplicidade, a paz, o amor e, ainda, o mistério. Os reis magos entraram na casa, diz o texto. Provavelmente, era a casa onde morava a família de José, em Belém, onde ele tinha o seu domicílio; por isso, ele e Maria viajaram para lá, para cumprir o recenseamento ordenado por César Augusto. No interior deste pobre alojamento,
havia um cocho escavado na rocha, que servia aos animais. Aí foi colocado o menino Jesus.

Eis a primeira consideração: o rei do universo, o fulgor da glória do Pai, o Salvador do mundo, nasceu num lugar pobre. Por quê? Talvez para indicar que a preciosidade da pessoa não consiste em possuir, em ter, nem em se apresentar ostentando riqueza. O valor da pessoa está na sua simples dignidade humana. E essa mora no coração de cada recém-nascido, e constitui a sua herança mais preciosa e o seu íntimo e inviolável valor. Nada que se acrescente, vindo de fora, muda o valor do ser humano. Moradores e meninos de rua, gente que não sabe onde repousar a cabeça, sem casa, sem trabalho, vivendo perdida nas cintilantes avenidas de nossas cidades, fica mais perto da situação que viveu o menino Jesus.

Os reis magos prestaram homenagem ao recém-nascido. Eles sabiam que um evento excepcional estava acontecendo, e o procuraram. Qual foi a atitude deles encontrando este menino? Prestaram-lhe homenagem. Eis uma segunda consideração: no encontro verdadeiro com as pessoas, precisamos ter no nosso coração, antecipadamente, um grande respeito por todos. O preconceito de raça, língua, cultura, religião determina uma atitude negativa no relacionamento com os outros.

“Depois, abriram seus cofres e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra”. Essas riquezas e perfumes orientais, esses dons oferecidos ao menino Jesus, de um lado, significam um reconhecer naquela pessoa a plenitude da sua dignidade, da sua função de rei e salvador; de outro lado, indicam o amor e a consciência reta do doador que percebe essa grandeza. E isso aconteceu porque os reis magos estavam frente ao menino Jesus, com a totalidade das suas pessoas, com todo o seu coração e cultura.

Eis uma terceira consideração: não são os dons que engrandecem a pessoa que os recebe; eles simplesmente evidenciam o valor dela, o amor para ela. E isso só é possível se, como os reis magos, também nós, em nosso íntimo, vivemos os relacionamentos com inteligência reta e coração humilde. Enfim, o verdadeiro dom são as próprias pessoas, que, mutuamente, se reconhecem possuidoras da mesma dignidade, e se ajudam para ainda mais amadurecer.

Dica
Prepara-se para o Natal, reflita sobre o Em Debate “Ter ou Ser?”, encarte desta edição

PROVOCAÇÃO

Negritude:
consciência de garra, talento e muito respeito

As raízes culturais da mãe África, presentes no trabalho religioso e social, quebrando barreiras contra a discriminação

por Cícera Gianini, Douglas Martins e Renato Fernandes

o som de atabaques e berimbaus, a música entoando louvores, com vestes africanas e terços nas mãos, eles rezam diante do altar. Assim, a consciência negra mantém-se viva e presente na mente e nos corações dos praticantes do catolicismo, na missa afro, na paróquia Nossa Sra. Aparecida, em Santa Isabel, na Grande São Paulo. Por ser uma missa em que elementos da cultura negra foram incorporados, o preconceito esteve presente, principalmente nos mais conservadores e nos que desconheciam a liturgia.

“No início das missas afro, participavam poucas pessoas; agora já tem uma quantidade maior; aos poucos, elas estão aceitando e participando”, diz Pe. Gabriel Gonzaga Bina, fundador da Pastoral Afro. As músicas litúrgicas têm uma mistura da cultura afro. “Temos a intenção de montar um folheto com todas as músicas de nossa autoria”, diz Sônia de Paula Machado, que já compôs oito músicas cantadas nas missas.

A Pastoral é coordenada pelo Pe. Gabriel e por Maria B. de Paula, mais conhecida por Tica Afro. Atualmente, setenta pessoas, de diferentes idades, participam dos grupos que fazem parte da Pastoral, como:


Grupo que anima a missa afro do domingo

- dança, capoeira, canto, reciclagem, instrumentos, informática, cursinho pré-vestibular e uma biblioteca. O trabalho realizado na paróquia é referência e exemplo às demais instituições. Durante apenas sete anos, Pe. Gabriel conseguiu, com a ajuda da comunidade, expandir a paróquia e unificar os trabalhos. A capoeira é uma das atividades mais procuradas pelas crianças e adolescentes, que, com a direção do mestre Francisco de Assis Silva, encontram na ginga uma oportunidade de educação e um espírito de família entre eles. “Quando começamos, ouvimos muito que capoeira era coisa do demônio, mas hoje estamos conseguindo vencer este preconceito”, diz Tica Afro.
A paróquia conta com diversos trabalhos sociais ajudando a inclusão das pessoas mais carentes.

Um deles é o centro de reciclagem, no qual voluntários e trabalhadores da comunidade recolhem materiais como:

- plásticos, papéis, alumínio, e os reaproveitam. Assim, ajudam na limpeza da cidade, evitam desperdícios de lixo e empregam pessoas carentes. “Já atingimos uma meta de 12 toneladas de materiais; houve época em que trabalhamos com pessoas em recuperação de drogas, em um processo de terapia ocupacional”, conta Francisco de Assis Silva. Um exemplo é o de Jorge Luiz Martins, que participa do grupo da capoeira. Quando estava desempregado, trabalhou na reciclagem, e teve a oportunidade de fazer o cursinho pré-vestibular. Atualmente, trabalha como caseiro em um sítio na região. O centro de informática possibilita a inclusão digital dos moradores da comunidade.


Da esquerda para a direita, Douglas, Pe. Gabriel,
Cícera, Renato e Tica Afro

“Os computadores foram doados e, por isso, são poucos e temos que limitar o número de alunos”, explica o padre, que tem intenção de ampliar a oferta do curso básico, e, aos que se destacarem, terão uma bolsa de estudo, podendo retornar como monitores.

Enfim, o trabalho desenvolvido pela Pastoral Afro permite colocar as pessoas em condições de disputar oportunidades na sociedade. Com um coração repleto de amor ao próximo, Pe. Gabriel vai conduzindo com fé e perseverança o seu rebanho, rumo ao caminho certo. Se todos pensassem como ele, com certeza, teríamos um mundo melhor e sem preconceitos.

ARTEXPRESSÃO

Pra Curtir

País de história e raça

por Rafael Stemberg – 19 anos

eunindo um acervo de mil e cem obras, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, tem o objetivo de resgatar as origens de nosso País. Tendo como curador o artista plástico Emanoel Araújo, o espaço oferece uma viagem, através da arte contemporânea, entre cores, imagens, objetos e sons. Estão em exposição as mostras Odorico Tavares: do Gabinete do Jornalista, aos meus poemas, aos meus pintores e África e Africanias de José de Guimarães. Na primeira, a coleção de um dos maiores jornalistas do Brasil é apresentada de maneira sintética, permitindo apreciar seus poemas, em gravuras originais, além de um vasto número de pinturas em óleo sobre tela. Na segunda, a obra de José de Guimarães, artista plástico português, que, através de suas esculturas, ressalta a beleza do negro por todo o mundo. O espaço conta com educadores, que ajudam a entender o significado de cada obra. Aliás, procurá-los é o que recomenda o crítico de arte uruguaio, Nelson Di Maggio.

“É uma pena ver, no meio de tanta montagem rara, pouca informação”. Nelson se refere à falta de “plaquetas”, em alguns locais, ao lado das obras, com informações sobre origem e ano em que foram feitas. Mas, este deslize não tirou seu encanto: “Já fui a grandes museus do mundo, e este é realmente histórico, pois promove a verdadeira cultura de um país”. Também é possível rever os costumes de nossos povos através de objetos, como engenhos de cana-de-açúcar e roupas da época. Fotos dos primeiros carnavais e rituais cultivados pelos afrodescendentes, até os dias de hoje, como o candomblé, são lembrados – vale a pena visitar o oratório de madeira do século XVIII, da Bahia. Um programa, que neste mês da Consciência Negra, merece ser feito com toda a família. “Quando entrei, falei para minha neta prestar muita atenção, pois é uma verdadeira aula de Brasil”, comenta a massagista Maria Paula de Nóbrega. “O legal é que nós descobrimos que todo mundo é igual”, finaliza.

Museu Afro Brasil
Entrada gratuita
Aberto de 3.ª feira a domingo, das 10 às 18 horas.
Rua Pedro Álvares Cabral s/n.º
Parque do Ibirapuera - portão n.º 10 – São Paulo / SP
Site: www.museuafrobrasil.com.br

Léopold Sédar Senghor

Nasceu no Senegal, em 09/10/1906; faleceu na França, em 20/12/2001. Com a independência do Senegal, em 1960, foi eleito o primeiro presidente da nova república. Defensor do movimento cultural “Negritude”, pela redescoberta da cultura africana como caminho para o reconhecimento da própria identidade, destacou-se como político, intelectual e escritor. É inegável a sua influência na literatura e no pensar de gerações de africanos.

EXPEDIENTE
Conselho Editorial: Ernesto Arosio, Gianfranco Vianello, Celina Missura, Adriana Bergamaschi, Itabira Jonas, Pedro Miskalo
Coordenação Geral: Ana Maria Pisani
Coordenação Jovem: Cícera Gianini
Redação: Aparecido Cícero, Douglas Martins, Greicieli Almeida, João Henrique da Silva, Maicon Sérgio, Rafael Stemberg, Renato Trindade Jonas, Victor Luigi Bautista Pisani, Thamara Chrystina de Andrade
Colaboradores: Gilvair Messias, Ian Oliver Sarmento e Marta Almeida
Contato: entrejovens@mundomissao.com.br – Rua Joaquim Távora n.º 686 – Vila Mariana – São Paulo - SP - 04015-011 - Tel.: (11) 5549-7295

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