Revista "MUNDO e MISSÃO"
Jovens
| Novembro
de 2006 – Edição n.º 03
EDITORIAL Ecoa o grito de Zumbi
Danielli do Espírito Santo Constantino, 19 anos, membro da Pastoral da Juventude, declarou que é de extrema importância um espaço para a juventude discuti-lo, pois muitos jovens não têm idéia do que seja e falta-lhes espaço para debater esse tema. Infelizmente, ainda há racismo em nosso meio, e a maioria dos negros não tem participação livre em todas as esferas sociais – são vítimas do abandono e da miséria.
Jonathan Constantino – 20 anos
PAPO ABERTO “A Pastoral Afro é muito importante para incentivarmos as pessoas a participarem de uma causa justa. Ser negro não é feio. É ser humano. É ter amor. É não diferenciar ninguém pela cor”. Edna Silva Carvalho “Acho que, por mais que tentem negar, vivemos numa sociedade preconceituosa, onde mesmo quem é negro não se considera como tal e foge de sua realidade. Não tenho pele escura, mas sou negro, não me envergonho disso, pois isso vem do sangue!”. Cleiton Martins, 17 anos “O Dia da Consciência Negra deveria servir para reflexão sobre o quanto já erramos em nossas vidas, e o quanto continuamos errando, ao não darmos condições reais aos negros de ocuparem seu papel na sociedade como cidadãos comuns, dotados de deveres e de direitos”. Viviane Moura, 20 anos
Cátia Vianna, 23 anos “Sou seminarista em Vitória da Conquista, Bahia. Parabenizo-os pela belíssima seção que chega às nossas mãos, na revista Mundo e Missão. Trabalho com a Pastoral da Juventude aqui na Paróquia (Santa Luzia) e encontrei um conteúdo muito rico para trabalhar com os jovens. Espero poder desfrutar de mais assuntos interessantes, pois a revista sempre me surpreende e fico feliz em poder ter acesso a um meio de comunicação que se pauta na ética e nos valores cristãos”. Anderson Reis “Quero parabenizá-los por terem assumido esse desafio e pelo convite da revista Mundo e Missão para que nós, jovens, tenhamos um espaço nessa revista tão importante para estarmos a par da missão no mundo e animar-nos a seguir nesse caminho. Daqui da Bolívia, onde faço meu noviciado, quero me colocar à disposição para ajudar no que for preciso”. Daniel Aguirre Bolívia CENTELHAS A Palavra por Gianfranco Vianello
O nascimento do menino Jesus está cheio
de valores e significados: a pobreza, o silêncio, a alegria,
a simplicidade, a paz, o amor e, ainda, o mistério. Os reis magos
entraram na casa, diz o texto. Provavelmente, era a casa onde morava a
família de José, em Belém, onde ele tinha o seu domicílio;
por isso, ele e Maria viajaram para lá, para cumprir o recenseamento
ordenado por César Augusto. No interior deste pobre alojamento, Eis a primeira consideração: o rei do universo, o fulgor da glória do Pai, o Salvador do mundo, nasceu num lugar pobre. Por quê? Talvez para indicar que a preciosidade da pessoa não consiste em possuir, em ter, nem em se apresentar ostentando riqueza. O valor da pessoa está na sua simples dignidade humana. E essa mora no coração de cada recém-nascido, e constitui a sua herança mais preciosa e o seu íntimo e inviolável valor. Nada que se acrescente, vindo de fora, muda o valor do ser humano. Moradores e meninos de rua, gente que não sabe onde repousar a cabeça, sem casa, sem trabalho, vivendo perdida nas cintilantes avenidas de nossas cidades, fica mais perto da situação que viveu o menino Jesus. Os reis magos prestaram homenagem ao recém-nascido. Eles sabiam que um evento excepcional estava acontecendo, e o procuraram. Qual foi a atitude deles encontrando este menino? Prestaram-lhe homenagem. Eis uma segunda consideração: no encontro verdadeiro com as pessoas, precisamos ter no nosso coração, antecipadamente, um grande respeito por todos. O preconceito de raça, língua, cultura, religião determina uma atitude negativa no relacionamento com os outros. “Depois, abriram seus cofres e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra”. Essas riquezas e perfumes orientais, esses dons oferecidos ao menino Jesus, de um lado, significam um reconhecer naquela pessoa a plenitude da sua dignidade, da sua função de rei e salvador; de outro lado, indicam o amor e a consciência reta do doador que percebe essa grandeza. E isso aconteceu porque os reis magos estavam frente ao menino Jesus, com a totalidade das suas pessoas, com todo o seu coração e cultura. Eis uma terceira consideração: não são os dons que engrandecem a pessoa que os recebe; eles simplesmente evidenciam o valor dela, o amor para ela. E isso só é possível se, como os reis magos, também nós, em nosso íntimo, vivemos os relacionamentos com inteligência reta e coração humilde. Enfim, o verdadeiro dom são as próprias pessoas, que, mutuamente, se reconhecem possuidoras da mesma dignidade, e se ajudam para ainda mais amadurecer. Dica PROVOCAÇÃO Negritude: As raízes culturais da mãe África, presentes no trabalho religioso e social, quebrando barreiras contra a discriminação por Cícera Gianini, Douglas Martins e Renato Fernandes
“No início das missas afro, participavam poucas pessoas; agora já tem uma quantidade maior; aos poucos, elas estão aceitando e participando”, diz Pe. Gabriel Gonzaga Bina, fundador da Pastoral Afro. As músicas litúrgicas têm uma mistura da cultura afro. “Temos a intenção de montar um folheto com todas as músicas de nossa autoria”, diz Sônia de Paula Machado, que já compôs oito músicas cantadas nas missas. A Pastoral é coordenada pelo Pe. Gabriel e por Maria B. de Paula, mais conhecida por Tica Afro. Atualmente, setenta pessoas, de diferentes idades, participam dos grupos que fazem parte da Pastoral, como:
- dança, capoeira, canto, reciclagem, instrumentos,
informática, cursinho pré-vestibular e uma biblioteca. O
trabalho realizado na paróquia é referência e exemplo
às demais instituições. Durante apenas sete anos,
Pe. Gabriel conseguiu, com a ajuda da comunidade, expandir a paróquia
e unificar os trabalhos. A capoeira é uma das atividades mais procuradas
pelas crianças e adolescentes, que, com a direção
do mestre Francisco de Assis Silva, encontram na ginga uma oportunidade
de educação e um espírito de família entre
eles. “Quando começamos, ouvimos muito que capoeira era coisa
do demônio, mas hoje estamos conseguindo vencer este preconceito”,
diz Tica Afro. Um deles é o centro de reciclagem, no qual voluntários e trabalhadores da comunidade recolhem materiais como: - plásticos, papéis, alumínio, e os reaproveitam. Assim, ajudam na limpeza da cidade, evitam desperdícios de lixo e empregam pessoas carentes. “Já atingimos uma meta de 12 toneladas de materiais; houve época em que trabalhamos com pessoas em recuperação de drogas, em um processo de terapia ocupacional”, conta Francisco de Assis Silva. Um exemplo é o de Jorge Luiz Martins, que participa do grupo da capoeira. Quando estava desempregado, trabalhou na reciclagem, e teve a oportunidade de fazer o cursinho pré-vestibular. Atualmente, trabalha como caseiro em um sítio na região. O centro de informática possibilita a inclusão digital dos moradores da comunidade.
“Os computadores foram doados e, por isso, são poucos e temos que limitar o número de alunos”, explica o padre, que tem intenção de ampliar a oferta do curso básico, e, aos que se destacarem, terão uma bolsa de estudo, podendo retornar como monitores. Enfim, o trabalho desenvolvido pela Pastoral Afro permite colocar as pessoas em condições de disputar oportunidades na sociedade. Com um coração repleto de amor ao próximo, Pe. Gabriel vai conduzindo com fé e perseverança o seu rebanho, rumo ao caminho certo. Se todos pensassem como ele, com certeza, teríamos um mundo melhor e sem preconceitos. ARTEXPRESSÃO Pra Curtir País de história e raça por Rafael Stemberg – 19 anos “É uma pena ver, no meio de tanta montagem rara, pouca informação”. Nelson se refere à falta de “plaquetas”, em alguns locais, ao lado das obras, com informações sobre origem e ano em que foram feitas. Mas, este deslize não tirou seu encanto: “Já fui a grandes museus do mundo, e este é realmente histórico, pois promove a verdadeira cultura de um país”. Também é possível rever os costumes de nossos povos através de objetos, como engenhos de cana-de-açúcar e roupas da época. Fotos dos primeiros carnavais e rituais cultivados pelos afrodescendentes, até os dias de hoje, como o candomblé, são lembrados – vale a pena visitar o oratório de madeira do século XVIII, da Bahia. Um programa, que neste mês da Consciência Negra, merece ser feito com toda a família. “Quando entrei, falei para minha neta prestar muita atenção, pois é uma verdadeira aula de Brasil”, comenta a massagista Maria Paula de Nóbrega. “O legal é que nós descobrimos que todo mundo é igual”, finaliza. Museu
Afro Brasil
Léopold Sédar Senghor Nasceu no Senegal, em 09/10/1906; faleceu na França, em 20/12/2001. Com a independência do Senegal, em 1960, foi eleito o primeiro presidente da nova república. Defensor do movimento cultural “Negritude”, pela redescoberta da cultura africana como caminho para o reconhecimento da própria identidade, destacou-se como político, intelectual e escritor. É inegável a sua influência na literatura e no pensar de gerações de africanos. EXPEDIENTE |
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