Revista "MUNDO e MISSÃO"

Jovens

Carta aos Jovens do ano 2000

Ernesto Arosio

No mês de agosto, entre os dias 15 e 21, será celebrado o Jubileu dos Jovens, num grande encontro com o papa em Roma. Aqueles que forem em romaria dos vários países serão hospedados pelas dioceses onde terão a possibilidade de conhecer os jovens do lugar e criar, como já aconteceu nos outros encontros mundiais, uma amizade além-fronteiras e traçar as bases para construir um mundo melhor

O Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Paraná, em Curitiba, entrevistou 900 jovens de diferentes classes sociais, entre 14 e 20 anos, para saber o que eles pensam e em que ainda acreditam. A pesquisa revelou, em primeiro lugar, um desânimo generalizado dos jovens diante das instituições públicas. Convidados a atribuir uma nota de 1 até 10, os jovens se revelaram muito desconfiados dessas instituições. O governo recebeu nota média 3,96; os partidos, 3,07; o Congresso, 4,49; o Judiciário, 4,99; a Igreja teve 7,56; a escola, 7,7; a família, 9,02. 44,1% dos jovens apontaram a família como a instituição que ainda tem credibilidade e influência em suas decisões; em seguida, vem a escola (37,6%) e a televisão (13,7%).
A tendência pessimista da juventude é mundial. Uma entrevista com 300 mil jovens na Itália revela que 85% têm medo do futuro e 98% não têm confiança nas instituições. Terminada a euforia dos anos passados, quando houve muito "auê", mas muito vazio também, os jovens começam a repensar sua vida e seu futuro e, infelizmente, deparam com uma sociedade que não tem muitas coisas a oferecer.
O mundo dos adultos demonstra indiferença e um negativismo cada vez pior, confirmado pela falta de honestidade e de ética em todos os ramos da atividade humana, particularmente em algumas que deveriam ser exemplo de retidão, porque são de caráter público.
Diante disso, os jovens têm que dar um basta e não confiar seu futuro ao medo, ao caso, ou pior, ao cinismo próprio da sociedade atual. Eles têm que começar a assumir sua própria realização neste mundo que desejam diferentes.
Por isso, queremos apresentar uma paráfrase de uma carta aos jovens, escrita por ocasião de uma reunião mundial organizada pelo Arsenal, uma organização de jovens que conseguiu transformar um arsenal-militar num arsenal de paz e, hoje, está espalhada pelo mundo inteiro, também no Brasil.

Jovem: o futuro é você

"(...) Devemos redesenhar o mundo a partir dos jovens Um mundo sem jovens é o fim do mundo, é querer res-pirar sem viver, comer sem matar a fo-me. Mas como fazer renascer os jovens?
É necessária uma revolução do amor, uma revolução do pensamento filosófico, mas também ético, moral e cultural. Uma revolução que se concretize em reformas válidas do sistema econômico, político e social.
Hoje, falar que os jovens são o futuro da sociedade é um equívoco, uma mentira. Um equívoco porque se faz dos jovens um pretexto alienante para consumir cada vez mais, mas, na prática e na vida, tira-se deles a responsabilidade do presente e do futuro. Uma mentira porque, embora insinue-se que eles têm a liberdade mais absoluta de decidir suas vidas, as novas gerações se encontram num percurso programado por forças maiores, sem capacidade crítica de entender nem possibilidade de mudar sua existência. De fato, os jovens de hoje vivem entre as ruínas de tantos valores morais, entres companheiros praticamente mortos por um nada (droga) e por nada (violência).
Outros já se entregaram, sufocados pela aridez da sociedade atual, e se tornaram apáticos, indiferentes, violentos: são os pobres entre os mais pobres. Talvez a sociedade deva pedir desculpas por tê-los enganado, dizendo que eles eram o centro do mundo e das atenções da sociedade, enquanto, pelo contrário, foram traídos porque lhes tiraram a esperança e a educação.
Existem, porém, jovens que, apesar desses fracassos da sociedade consumista, conseguiram superar o egoísmo e o medo e são eles a esperança de reforma do planeta. Parecem minoria, mas demonstram que podem ser férteis e produzem esperanças para si e para os outros. Mas não se conhecem..."

Não existe liberdade sem responsabilidade

Existe entre os jovens um grande equívoco, quando eles pensam que "liberdade é fazer somente a própria vontade", sem preocupação com o outro. Eles acham que liberdade não rima com responsabilidade e isso significa que a maioria deles, numa atitude superficial e irresponsável, pensou em adotar um modo de viver sem princípios, sem honestidade, sem compaixão.
Devemos, pelo contrário, demonstrar com os fatos que não existe liberdade sem responsabilidade, sem respeito recíproco, sem esforço. A liberdade é um valor e um bem, mas é de todos e para todos. Da liberdade responsável nascem os valores que tornam a vida digna de ser vivida: essa se constrói na paz, no trabalho, na solidariedade; se não for sedimentada nesses princípios, teremos a realização trágica do pensamento do filósofo Hobbes: o homem é o lobo do homem. O futuro se constrói sobre as palavras "dever, ética e responsabilidade pessoal".

Movimento dos jovens para jovens

Hoje, tornou-se difícil o diálogo entre adultos e jovens porque as palavras dos adultos, muitas vezes dúbias, vazias e interesseiras, nada mais dizem para eles. Os jovens querem fatos e atitudes e a palavra é aceita somente quando é testemunhada por fatos e compromissos éticos. Mas os jovens também devem crescer no compromisso.
As autoridades religiosas e civis devem fazer um profundo exame de consciência para ver se suas palavras coincidem com seu testemunhos práticos e compromissos éticos, mas os jovens também devem se abrir ao compromisso com profunda convicção de que, para melhorar o mundo, eles devem lutar para obter o que desejam, combater, sem violência, mas com determinação por seu ideais.
O século, que finda, o mais violento de todos, foi batizado de o século de Caim, mas ele não termina nem conclui a história, não foi um princípio abstrato, mas foi a criação de pessoas bem ou mal intencionadas. Portanto, se os homens desse século foram os mais violentos na história humana, a nossa esperança para o futuro deve partir e se alicerçar sobre homens bons e não sobre teorias ou ideologias que, às vezes causaram, essa violência.
Se os jovens esperam uma reviravolta que provenha de uma autoridade moral, crível e eficiente, estão no caminho errado. Será que ela existe? O mundo nos pede de ser revitalizado pela força da criatividade, do entusiasmo, da tenacidade dos jovens. É necessário amar perdidamente a humanidade, sair de próprio egoísmo para ser os protagonistas da nova história que precisa ser escrita. Jovens, tudo isso é com vocês!

Gostaríamos de deixar esse apelo de jovens aos jovens, para que discutam, se unam e se comuniquem. Para isso, colocamos este espaço à disposição dos grupos de jovens das paróquias que queiram entrar nesta luta, com propostas concretas e realizáveis, para que nos mandem suas idéias. Vamos começar a mudar o mundo! Pedimos aos adultos que entreguem esse texto aos seus jovens amigos. Vamos unir as forças!

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